sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quando a casa é ninho

Meus pais têm um vocabulário próprio: matar o cachorro a grito, chorumela, nem que a vaca tussa, onde fui amarrar meu bode, chispa daqui, é dose para elefante, firme na paçoca.
Traduzíamos mentalmente na infância e na adolescência.
Chover era toró, fazer xixi era tirar água do joelho, cansar de um assunto era pó da rabiola, lugar distante era caixa-prego, criança agitada era serelepe.
Eu e os irmãos vivíamos registrando as expressões, aperfeiçoando o dicionário oral, para não sermos ofendidos de mocorongos.
Havia um respeito obrigatório pela língua nativa. Ríamos no começo, depois aceitamos as excentricidades que destoavam do que aprendíamos na escola, em seguida entramos na fase da vergonha coletiva.  
Revoltávamos no momento em que falavam em público ou quando se comunicavam com os nossos amigos. Considerávamos os pais excessivamente velhos, pela estranheza que geravam nos outros. Ninguém de nossa turma conhecia suas gírias, e recebíamos o encargo de sempre explicar que porra eles estavam dizendo, se aquilo significava ofensa ou elogio, se estavam felizes ou irritados.  
Sem perceber, acabei herdando uma das expressões. Incorporei uma das antiguidades familiares. Veio comigo e continua comigo. Sobreviveu ao meu preconceito e minha ânsia de ser atual.
É a palavra pousar para dormir.
- Pousará fora?
- Onde vai pousar?
- Ninguém pousará em casa, estaremos viajando.
Acho que pousar é melhor do que dormir mesmo.
Tem mais sentido para mim.
[...]
Pousar é romântico. Pousar é renunciar o céu por um lugar definitivo. Pousar é aceitar que não podemos passar a vida ao vento. Pousar é descansar de longa viagem.
Pousar é tranquilidade, é mansidão, combina com ficar de conchinha, deitar de pés dados, cheirar o cangote.
Pousar é uma atitude que supera o descanso. É confiança. É se doar. É se decidir por um canto seguro e acolhedor. É se enraizar numa árvore.
Eu me imagino descendo do turbilhão dos acontecimentos, diminuindo o ritmo, distanciando-me da pressão do trabalho. E vou me acostumando com o silêncio, com a intimidade, com o travesseiro de penas.  
Quando amo, não durmo com alguém, eu pouso com alguém.
Paro de voar. Desisto da altura pelo chão. A casa é ninho.  
Quando amo, sou pássaro. Deixo de sofrer como homem.



Publicado na Revista Isto É Gente
Edição Bimestral
Janeiro 2015
Ano 15 Número 715
São Paulo (SP)


 

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