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terça-feira, 24 de junho de 2014

Sou uma criança, não entendo nada



Imagem: Reprodução


Vez por outra nos vemos com a alma atarantada. Ouvindo a canção de Erasmo e Roberto Carlos, fiquei refletindo o quanto somos imaturos ao envelhecer. Quando somos crianças podemos nos exceder, falar e agir de forma errada. Podemos errar na medida do sentimento e tudo permanece na linha da beleza. Afinal, o papel da criança é sempre ser uma ‘graça’. Assim fica razoavelmente fácil. Julgamos as ações dos pequenos como se não compreendessem nada. Na realidade, quando recobramos a memória infantil lembramos o quanto éramos conscientes na maioria de nossas ações. Ao passo que nos desenvolvemos emocionalmente as coisas, situações, parecem fazer todo o sentido. Exigem-nos maturidade. A questão é que, retomando a canção de Erasmo e Roberto, regredimos, simbolicamente falando. Ocorre aí um paradoxo. Os nossos problemas nos fazem ficar sérios e aparentemente entendedores de tudo. Mas por dentro somos apenas crianças e não entendemos absolutamente nada. Interessante como vez por outra a vida - às vezes tenho a impressão que trato a vida como uma pessoa literal - nos leva de volta ao passado com personagens diferentes. Como se tivéssemos sido um ser diferente com cada indivíduo que cruzou nosso caminho. Aliás, somos diferentes para cada pessoa. Fez-me recordar um poema lindo de Fernando Pessoa que diz que somos aquilo com quem simpatizamos. Podemos ser uma pedra, uma ânsia, uma flor, uma ideia abstrata, uma multidão, uma forma de compreender Deus. Simpatizamos com tudo, vivemos tudo. Pessoa estava coberto de razão! De volta à personagem, os impressionantes capítulos desse grande livro que fazemos parte ressuscitou um ser que muito admirei, observei e convivi. Há muita verdade quando dizem que há pessoas que podemos ficar um longo tempo sem ver que ainda assim perece ter se despedido há minutos atrás. E exatamente do ponto de despedida consigo compreender suas ações, mas não as voltas que sua história teve. Há uma complexidade no desenrolar dos acontecimentos. E aí me mostro imaturo como a criança para um adulto. Mas sempre fica a certeza de que as coisas irão terminar bem. Afinal, fui treinado desde muito jovem para isso. De que serviram os contos de fadas, aulas de literatura, livros de romance? Para crer que na vida tudo acaba bem e tem uma explicação. E eu creio!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Deixa assim ficar subentendido



Imagem: Reprodução


Eles se falam diariamente. Trocam mensagens, sorrisos. Mas tudo fica no paraíso das entrelinhas. Todos à sua volta já perceberam que há ali um ar de amor. Eles medem muito o quê dizer um para o outro. Querem se ver constantemente, mas sem marcar. Contam com o acaso. Arrumam-se de maneira diferente ao saírem de casa e saem pelas ruas como que procurando algo. Ficam com os corações ansiosos. Quando se veem, por acaso, o brilho no olhar se acende. Se cumprimentam, as palavras saem meio trêmulas e simulam terem se topado na rua acidentalmente. Aliás, a coincidência costuma ser um ‘empurrãozinho’ do Criador para que os desejos se concretizem. Demonstram uma preocupação peculiar um com o outro. A mesma pergunta sai simultaneamente de suas bocas, bem como as respostas. Sorriem pela situação do ridículo. O tempo para. O universo à sua volta não existe mais. Os olhares dizem o que a boca teima em não externar. Olho, boca, olho novamente, mãos e novamente o olho. Como somos desajeitados quando amamos! O assunto desaparece. Não! O assunto não desaparece, ambos sabem exatamente o que dizer, mas o subentendido é mais interessante. Eles se enamoram nas entrelinhas. Está mais que declarado que são eternos admiradores um do outro. Sim! Porque o amor reside por muito tempo na admiração. E olha que quem passa e não os conhece consegue ver isso! Não seria preciso virar o mundo de cabeça pra baixo para entender essa relação. Por que quando há amor não se necessita compreender absolutamente nada. Ah! Já ia me esquecendo. Muitos se perguntam o porquê não declaram logo que se amam e vão ser felizes.  Mas há um cuidado muito especial na decisão de ambos. A beleza do amor no caso deles está na subjetividade. Não se magoam, conhecem perfeitamente o defeito do ser amado, sabem suas preferências, anseios e até o motivo da voz do outro estar com uma entonação diferente. Hora de disfarçar, um conhecido em comum está chegando. Mas o disfarce é a maneira mais natural de demonstrar que há algo especial entre os dois. Despendem-se com vontade de continuar ali entre troca de olhares e pausados silêncios. E já imaginam o que vão dizer no próximo encontro ‘acidental’. Pegam o celular e pensam numa desculpa para continuar a conversa por troca de mensagens. E o sorriso se abre a cada resposta recebida...

sábado, 21 de junho de 2014

O sentido elevado do viver





Imagem: Reprodução

Nunca imaginei que estivesse à procura da quinta essência. Para ser sincero, não sabia o que isso representava. Sentido elevado ao mais alto grau. Quero ser elevado.  Ter a história de amor exemplar, uma carreira satisfatória e promissora – e quando me refiro a isso não estou falando do desejo medíocre de alcançar riqueza material, menciono o simbólico, abstrato-, a vida sem erros e ensaios. O triste é que para muitos o desejo está, e permanecerá, confinado no mundo dos sonhos. Já disse anteriormente que somos totalmente responsáveis por nossas decisões. Mas não descarto a ideia de que a vida se encarrega de nos dar oportunidades. Algumas uma única vez e outras por várias tentativas. A vida será surpreendente se a tratarmos dessa maneira. Soa um tanto piegas, mas gosto de exemplificar o amor. Quantas vezes perdemos a oportunidade de viver um belo romance por medo de um fim doloroso? Temos tanto respeito pela incerteza que não ousamos desafiá-la. E o currículo emocional de nossa passagem por esse sistema deixa de ser preenchido, fica vazio, faltando dados. As imagens mais importantes, emocionantes, passam despercebidas. Tudo exige muita atenção, a vida é cheia de subtextos - aprendi há poucos dias numa série da TV. É como uma mosca que durante o voo ao se distrair pode ser pega de surpresa por seu predador e perder prematuramente um tempo valioso de sua já breve existência. Ai! A quinta essência. Está no brilho de um olhar perdido? Na resposta involuntária de uma pergunta não feita? Somos capazes de perceber quando alguém diz o nosso nome de maneira diferente e captar que ali existe uma vibração de amor? Ou de calcular o quanto amamos alguém quando esse ser nos vê passar por uma situação de ridículo? O sentido elevado do viver está ao nosso dispor. Vamos usufruí-lo. Como dizia uma personagem operística, melhor que possuir é usufruir. Mas essa é outra história!