quarta-feira, 14 de maio de 2014

(…) "Não sei durante quanto tempo acreditei que esperança fosse um objeto que a gente podia guardar num armário e perder por aí, como um guarda-chuva. Ou quase: mesmo na minha imaginação de criança, a esperança já parecia bem mais valiosa, porque minha mãe vivia perdendo guarda-chuvas, mas nunca se chateava tanto por isso (…) Anos depois, descobri que a esperança nem é tão diferente assim de um guarda-chuva: e o que mais pra nos proteger e ajudar a seguir em frente durante as tempestades? "

terça-feira, 13 de maio de 2014

O 13 de maio e a verdadeira abolição


As cotas e a disribuição de renda desorganizarão o sistema de dominação das elites e a verdadeira abolição chegará, aos trabalhadores negros e não negros.

E eles chegaram, um dia, e depois outro, e por séculos, continuaram chegando, transportadoras em navios fétidos, podres e desumanos. No outro lado do Oceano deixaram seus roçados, suas famílias e suas formas de vida.
Aqui nestas terras, a morte rápida e certeira, em canaviais, troncos e senzalas. Estupros, castigos e um novo deus, uma nova submissão. Suas mãos e seus pés, artísticos e trabalhadores, edificaram a Pátria Continente Brasil e, em troca, nunca, nada!
Há 124 anos, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil. De fato, ninguém mais poderia comprar ou vender negros, ninguém poderia ser dono de negros. No mais, o que já conhecemos: mera formalidade, como a chamada democracia brasileira. Está no papel, mas só lá.
Depois de 1888, nenhuma terra, nenhuma escola, nenhum emprego, apenas as favelas e o braço da lei para punir os que não aceitassem a modelagem social que lhes cabia.
O Negro fez o Brasil, conquanto nossos índios e brancos jamais possam ser ignorados. O Negro ensinou a toda gente a “língua brasileira”, o Negro povoou a culinária, a dança e o canto. O Negro contagiou nossa música e nossas festas, o Negro nos ensinou a arte de sorrir e de gingar.
De trabalho em trabalho, de sol a sol, surra a surra, muitos foram morrendo, mas ainda assim, a fantástica força cultural do Negro manteve sua vitalidade. Reinventou-se, se moldou, e não morreu, nunca morrerá, porque agora esta é a força do Brasil.
Quando o Negro virou prejuízo, o expulsaram da senzala e cinicamente chamaram a isto de Abolição. Vagou por estradas, sem terra, emprego ou escola. Povoou morros e favelas, e excluído, ainda criou um mundo paralelo à sociedade para sobreviver. A sociedade absorveu as contribuições culturais negras, mas levantou muralhas sociais e econômicas intransponíveis à civilização negra.
O Negro foi e sempre será importante ao Brasil, mas ele ainda não se vê nas revistas nem outdoors, o Negro não está na TV, nem nos empregos mais cobiçados, social e economicamente. Nas universidades uma minoria, ínfima, é negra, embora, sob os governos petistas, o percentual tenha saltado de 3%, para 17%.
Miseravelmente, a barbárie social e cultural sofrida pelos negros não é capaz de convencer as cabeças mais atrasadas e preguiçosas sobre a necessidade, ainda que provisória, de uma política de cotas no Brasil. Vou mais longe e defendo cotas na TV e nas propagandas, onde só aparecem brancos, como se nosso país não tivesse metade da população afrodescendente.
Vamos à essência do problema, as cotas e a distribuição de renda exigirão, muito em breve, que as classes dominantes remodelem seus esquemas de dominação e, isso, obviamente, inquieta e assusta. A verdadeira abolição chegará, mas só será verdadeira quando abolir a opressão sobre os trabalhadores brasileiros, negros e não negros.

Sobre o(a) autor(a)

Fábio Chagas

sepechagas@yahoo.com.br

Doutor em História e professor universitário

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio



Ah, quantos de nós temos coragem de traduzir em palavras as explosões de afeto, fúria ou ódio, claramente estampadas em nossos olhos. Quantos de nós se escondem atrás dos véus da conveniência, ardilosas maquiagens, máscaras de bem-se-relacionar no cotidiano, guardando tudo o que nos ameaça ou fragiliza no quarto escuro de emoções cansadas, amassadas e contraditórias.
Francamente. Quase não há espaço para o amor e a ternura se acomodarem junto ao medo, a insegurança e a frieza, pois o quarto é diminuto — do tamanho de uma solitária prisional. Nele se empilham sentimentos opostos, paradoxos da alma.
A dor e a ternura se acotovelam, exaustas. Durante os dias inteiros de nossa existência, esses, dentre tantos outros sentimentos aglomerados no escuro e sujo cubículo, se empurram, pisoteiam, à cata de algumas moléculas de oxigênio que tragam um pouco de paz e conforto aos nossos conturbados corações.
Às vezes nos drogamos. Diante da tevê, por exemplo, nos esvaziamos de quaisquer convicções e competências críticas. Amortecemos vontades, iniciativas, indagações. Matamos o líder que em nós se contorce, em prol de ovelhas passivas e tristes, que pastoreiam livremente em nosso embotado cérebro.
Despendemos imensurável tempo lendo revistas sobre celebridades, escutando maledicências da vizinha, lendo jornais sensacionalistas. Também nos dedicamos com ardor às redes sociais, construindo aí inúmeros perfis sedutores, que costumam sair bem na foto.

Incorporamos à nossa pele papéis desgastados de salvadores, vítimas, benfeitores ou revolucionários. Sempre visando causar impacto. Impressionar nossa atordoada rede de famintos seguidores. Zumbis do social media. Abdicamos conscientemente das noções de espaço, tempo e conveniência. Optamos por drogas leves ou pesadas. Alucinógenos da moda, distribuídos em festinhas, shows e noitadas. O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio. A declaração de amor asfixiada na garganta. O deboche, a ironia e o cinismo encapsulados, obstruindo alguma artéria falida do nosso estressado corpo.
Falar o que se pensa de cara limpa, normalmente está fora de cogitação. Faz mal ao ego, às vaidades torpes, à assumida prevalência que ostentamos uns sobre os outros.
A vida é tanta e corre tão disseminada por nossa pele, veias e sentidos, despejando, imparcialmente, horrores e belezas únicas por nosso tortuoso destino.
Mal conseguimos divisar flores raras, pássaros belíssimos em extinção, paisagens mágicas, caminhos largos e ensolarados.
Paixões tidas como mortas ou desfalecidas reacendem com vigor, ameaçando nos queimar a língua e afoguear o rosto.
É preciso estar atento e forte para conversar com a vida, sem escondê-la das imensas demandas e os legítimos anseios que pulsam sem pudor da cabeça aos pés.
O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio. Então, aguentemos a ressaca passar, neste momento ainda emaranhado em tantos sentimentos e emoções.
Espera-se de nós, mesmo que teimemos em fechar os olhos, janelas abertas, ventos refrescantes, sorrisos plenos de verdade.
Isso é o que importa para que a felicidade, hoje tão andarilha, encontre de novo morada e aconchego em nossa boca.

Fonte: Revista Bula

domingo, 11 de maio de 2014

O tempo das utopias mínimas viáveis


Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar esta afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está ai fechado, vivo e consciente, ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas que podem irromper e concretizar-se. Ele é um ser de desejo, portador do princípio esperança (Bloch), permanentemente insatisfeito e sempre buscando novas coisas. No fundo, ele é um projeto infinito, à procura de um obscuro objeto que lhe seja adequado.
É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os pequenos e grandes projetos e as utopias mínimas e máximas. Sem elas o ser humano não veria sentido em sua vida e tudo seria cinzento. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, lhe faltaria um fator de coesão interna, um rumo definido pois afundaria no pântano dos interesses individuais ou corporativos. O que entrou em crise não são as utopias, mas certo tipo de utopia, as utopias maximalistas vindas do passado.
Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos. A utopia industrialista de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e da invenções técnicas. A utopia capitalista de levar progresso e riqueza para todo mundo. A utopia socialista de gerar sociedades igualitárias e sem classes. As utopias nacionalistas sob a forma do nazifascismo que, a partir de uma nação poderosa, de “raça pura”, redesenharia a humanidade, impondo-se a todo mundo. Atualmente a utopia da saúde total, gestando as condições higiênicas e medicinais que visam a imortalidade biológica ou o prolongamento da vida até a idade das céculas (cerca de 130 anos). A utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal. A utopia de ambientalistas radicais que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado nela.
Essas são as utopias máximalistas. Propunham o máximo. Muitas deles foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para nos confirmar que estas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Dai falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o pós se refere a este tipo de utopia maximalista. Elas deixaram um rastro de decepção e de depressão, especialmente, a utopia da revolução absoluta dos anos 60-70 do século passado como a cultura hippy e seus derivados.
Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o “possível viável” e fazem a sociedade “menos malvada e tornam menos difícil o amor”. Nota-se por todas as partes a urgência latente de utopias do simples melhoramento do mundo. Tudo o que nos entra pela muitas janelas de informação nos levam a sentir: assim como o mundo está não pode continuar. Mudar e se não der, ao menos melhorar.
Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história (85 mais ricos possuem rendas correspondentes a 3,57 bilhões de pessoas, como denunciava a ONG Oxfam intermón em janeiro deste ano em Davos). Para esses, o sistema econômico-financeiro não está em crise; ao contrário, oferece chances de acumulação como nunca antes na história devastadora do capitalismo. Há que se pôr um freio à verocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação, produz gases de efeito estufa que alimenta o aquecimento global. Se não for detido, poderá produzir um armagedon ecológico.
(...)
Na perspectiva das  grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.
A consecução destas utopias mínimas  cria a base para utopias mais altas: que tenhamos uma verdadeira democracia participativa de base popular, aspirar que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia máxima ou mínima pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades e gozar um pouco do reino da liberdade. E por fim poder dizer: “valeu a pena”.

Leonardo Boff escreveu: Virtudes para um outro mundo possivel, 3 vol. Vozes 2005.

sábado, 10 de maio de 2014

Conheçam o universo de amor de Bela

Sâmila e a rainha revolucionária Isabela. Fotografia: Júnior Ribeiro

Tenho a pequena Bela como, desde muito pequena, uma personagem revolucionária. É lindo ver o que uma vida é capaz de fazer para mudar pessoas ao seu redor. Tudo isso feito com, e, por amor. Admiro Isabela por impelir seus pais, familiares e amigos a compartilhar o amor. Me fez recordar Marcelo Jeneci que canta que 'o bom da vida é de graça'. E realmente é! Repito inúmeras vezes, 'somos iguais na diferença'. Podemos mudar e ajudar as pessoas ao nossos redor pensando positivo, fazendo o bem sem escolher a quem (e muitas vezes sem que a pessoa nunca saiba que foi beneficiada por uma ação nossa), por gestos de generosidades. E desconheço um gesto mais generoso que o abraço voluntário. A pequena rainha revolucionária, Isabela, consegue extrair/despertar em quem a conhece um amor, generosidade, serenidade, bondade e tantas outras coisas boas que muitas vezes esquecemos a importância de manifestar. Há seres que são capazes de nos mudar internamente sem utilizar argumentos, textos e frases de efeito. Parabéns, Bela, Sâmila e seus valorosos colaboradores! Somos todos beneficiados por seus gestos amorosos.

Conheçam esse universo de amor:
A vida é" Bela"
Olhar Down - Amor Sem Limites
Canções para Helena

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Amo porque lhe encontro

         

Amo porque lhe encontro

Se você me abraça, eu ouço o coração mais puro
que o meu já sentiu

Amo porque você conversa comigo

E porque você
sonha, semeia e sobretudo ama

Amo, pois meus olhos já conhecem a luz
dos seus

Amo porque arrepia a pele quando a alma reconhece

Porque
você é saudade perto da paz

Lua que é par dentro de nós

Plenitude
quando o sorriso cantar.



   -  Saulo Fernandes





quinta-feira, 8 de maio de 2014

Maio não é o mês do amor




No começo do mês de maio, um amigo se separou da esposa com quem esteve por sete anos.
Lembro que ele sempre se orgulhou de ter nela uma grande companheira, uma amiga para todas as horas, alguém que pudesse estar ao seu lado nos momentos mais difíceis. No dia dois, após uma longa discussão em meio ao feriado do trabalho, ele saiu de casa.
Ela queria sentir algo mais, tinha cansado de dividir um lar com alguém que não conseguia ver como homem, por quem não fosse apaixonada.
Ela disse que ele não era capaz de fazê-la sofrer.
* * *
Outro esteve chorando escondido e, ao mesmo tempo, rindo da própria desgraça, enquanto via o namoro terminando sem que ele pudesse impedir.
Viveram juntos, felizes, por todo o tempo que suportaram. Sorriam, saiam, dormiam, cuidavam da casa, brincavam e faziam sempre o melhor possível. Melhor esse que não foi suficiente para continuar escondendo a realidade silenciosa que tanto os perseguiu.
Hoje, ele colocou a mão no rosto logo depois de acordar e pensou que o último foi um ano perdido.
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* * *
Ainda no dia primeiro de maio, um terceiro chegou em casa vomitando de ansiedade ao rever aquela pequena com quem esteve sonhando em ser feliz.
Essa foi uma história que se passou em muitos dias, meses, mensagens e quilômetros de distância. Ambos estiveram felizes, escondendo-se atrás de seus celulares e computadores, enquanto planejavam o dia perfeito no qual se encontrariam novamente.
Para os dois, sobrou a percepção de que a realidade sempre caminha em um sentido oposto ao das imaginações mais selvagens.
* * *
Uma amiga se dedicava, nos últimos meses, a um processo de descoberta sexual sem precedentes em sua vida. Encontrou aquele com quem finalmente consegue sentir o corpo arrepiar com a mera lembrança dos momentos que tiveram juntos.
Durante o feriado, ele queria conversar, pensava em aprofundar a relação. Esteve feliz sabendo que finalmente era capaz de acertar.
Mas não, não é assim que funciona.
* * *
Claro, tem sempre aquele amigo triste e esperançoso.
Soube que hoje ele encontraria uma moça com quem esteve jogando conversa fora pela internet. Ao que tudo indica, vão a um restaurante bonito em algum lugar cujo nome não lembro.
Sua empolgação sempre me contagia, ainda que ele repita vez após vez, dor após dor, o mesmo ritual de buscar o próximo nome que o fará acreditar ser possível encontrar paz.
* * *
É, amigos, talvez maio não seja o mês do amor, mas da cachaça.

Fonte: Papo de Homem