terça-feira, 14 de outubro de 2014

O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

Por Eduardo Araia


Em janeiro de 2009, Madagascar – ilha na costa leste da África famosa por ser o lar dos lêmures – foi abalada por manifestações contra o governo do presidente Marc Ravalomanana. Mais de 170 pessoas morreram antes que ele renunciasse. Entre as malfeitorias de que o presidente era acusado estava um negócio pelo qual o conglomerado industrial sul-coreano Daewoo arrendaria por 99 anos 1,3 milhão de hectares de terras malgaxes (13 mil quilômetros quadrados, o equivalente a quase metade do solo arável do país e a pouco menos de 60% da área de Sergipe) a fim de plantar milho e dendê. Detalhes adicionais: a maior parte das terras negociadas é “primitiva” – em outras palavras, floresta tropical intocada – e o retorno para a população local viria apenas por meio da criação de um limitado número de empregos na Daewoo. Uma das primeiras medidas do novo presidente, Andry Rajoelina, foi revogar o acordo com os sul-coreanos.

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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

A deposição de Ravalomanana foi a faceta mais visível de um problema derivado da crise dos alimentos de 2007/2008 que inquieta a comunidade internacional: a compra ou arrendamento, por governos e empresas de países ricos, de terras férteis em nações em desenvolvimento, escolhidas em geral por serem bem abastecidas com água e estarem próximas de portos ou outros centros de escoamento. Segundo relatórios divulgados em 2009 pela ONU e por analistas norte-americanos, ingleses e indianos, pelo menos 30 milhões de hectares (300 mil km2, pouco mais do que a soma dos territórios do Paraná e de Santa Catarina e equivalente a 75% de toda a terra arável da Europa) estão sendo ou foram adquiridos no mundo por empresários ou governantes de países que enfrentam condições climáticas adversas ou escassez de terras cultiváveis e dispõem de muito dinheiro em caixa, como China, Coreia do Sul, Suécia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

Tendência está se acelerando
O Instituto Internacional de Pesquisa da Política de Alimentos, baseado nos Estados Unidos, avalia que entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões são gastos anualmente por países ricos na compra de terras em nações em desenvolvimento. E o quadro pode se agravar muito mais, salienta Olivier De Schutter, relator especial da ONU para o Direito à Alimentação: “[A tendência] está se acelerando rapidamente. Todos os países observam uns aos outros e, quando um vê os outros comprando terras, faz o mesmo.”
Algumas das nações nas quais há terras para vender já têm certa importância no contexto agrícola mundial, como Brasil, Rússia e Ucrânia. Nesses lugares, porém, a simples procura já serve para elevar os preços das propriedades e dificultar os negócios. A preferência dos investidores tem recaído em países para lá de carentes, localizados sobretudo na África, como Camarões, Etiópia, Sudão e Zâmbia. Caracterizados pela miséria da população e por governos em geral ditatoriais ou autoritários, nos quais a corrupção corre solta, esses países podem assistir, no futuro, a uma situação paradoxal, antevista pela ONU: enquanto estoques imensos de produtos agrícolas cultivados em suas terras são embarcados para outros destinos, seus habitantes sofrem com a fome.
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

O agrocolonialismo já apresenta números impressionantes. A Coreia do Sul adquiriu 690 mil hectares no Sudão; a Arábia Saudita abocanhou 500 mil hectares na Tanzânia; os Emirados Árabes Unidos, 324 mil hectares no Paquistão. A Índia emprestou dinheiro para 80 de suas companhias comprarem 350 mil hectares em países africanos.
As aquisições feitas por empresas também chamam a atenção. A sueca Alpcot Agro, por exemplo, arrematou 120 mil hectares na Rússia; a sul-coreana Hyundai investiu US$ 6,5 milhões para conseguir participação majoritária na Khorol Zerno, que possui 10 mil hectares na Sibéria Oriental; o banco norte-americano Morgan Stanley adquiriu 40 mil hectares na Ucrânia.
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

Crise alimentar incrementou o neocolonialismo
De Schutter observa que o movimento em busca de terras aráveis se intensificou depois que, com a crise alimentar de 2007/2008, vários países descobriram o severo impacto na balança de pagamentos causado pelas importações de alimentos. O quadro os levou, então, a trabalhar para “se garantir”. Mas isso, segundo o representante da ONU, funciona como especulação, aposta em preços futuros, já que a população mundial deve crescer cerca de 50% até 2050, e certamente precisará se alimentar. “Sabemos que a volatilidade crescerá nos próximos anos”, afirma De Schutter. “Os preços das terras continuarão a subir.”
Ele acrescenta que aproximadamente 20% dessas compras devem ser destinadas ao cultivo de vegetais para biocombustíveis. “Mas é impossível saber ao certo, porque as declarações não são feitas com relação a quais plantas serão cultivadas”, declarou.
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

Mais grave do que isso é a perspectiva de que os novos donos e arrendatários das terras usem-nas de maneira insustentável. “A terceirização da produção agrícola garantirá segurança alimentar para os países investidores, mas deixará atrás de si um rastro de fome, inanição e escassez alimentar para as populações locais”, afirmou Devinder Sharma, analista do Fórum de Biotecnologia e Segurança Alimentar na Índia. “A conta ambiental da agricultura altamente intensiva – solos devastados, aquíferos secos e ecologia arruinada por infestações químicas – será deixada para o país anfitrião pagar.”
Um relatório divulgado em 2009 pelo Instituto Internacional de Ambiente e Desenvolvimento, baseado em Londres, apresenta os negócios com terras como fontes de “riscos e oportunidades”. Os autores ponderam: “Investimentos ampliados podem trazer benefícios tais como o crescimento do Produto Interno Bruto e receitas governamentais mais robustas, e podem criar oportunidades para o desenvolvimento econômico e melhora no padrão de vida. Mas podem resultar na perda de acesso dos habitantes locais aos recursos dos quais dependem para sua segurança alimentar – particularmente enquanto alguns países-chave que receberão os alimentos estão, eles próprios, às voltas com seus desafios de segurança alimentar.”
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

Uma saída para isso seria os países que cedem suas terras optarem por contratos de produção. Nesses casos, os investidores estrangeiros entrariam com a tecnologia e o capital, enquanto os agricultores locais, cultivando terras próprias ou arrendadas, produziriam grãos ou outros vegetais a preços fixos. Mas essa fórmula, defendida por especialistas como De Schutter e Jean-Philippe Audinet, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Ifad), não interessa aos novos investidores. Os planos destes, no geral, são bem claros: além de segurança, controle absoluto do meio produtivo e grandes margens de lucro. Para os habitantes locais, nada ou migalhas. Como se vê, o espírito colonialista do homem não desapareceu no século 20 – só havia entrado em estado de hibernação.

TRANSAÇÕES NEBULOSAS
Alguns dos negócios com terras acertados nos últimos anos
País cessor                      País investidor                         Terras cedidas  (em hectares)
Camboja                         Kuwait                                    130.000
Filipinas                          Bahrein                                   10.000
Filipinas                          Coreia do Sul                           94.000
Sudão                             Jordânia                                  25.000
Paquistão                        Emirados Árabes Unidos          324.000
Quênia                            Catar                                       40.000
Tanzânia                          Arábia Saudita                       500.000
Sudão                              Coreia do Sul                         690.000
Sudão                              Jordânia                                  25.000
Tanzânia                          Arábia Saudita                        500.000
Uganda                            Egito                                     840.000
Fontes: International Food Policy Research Institute (IFPRI), Der Spiegel
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

ENTRE A FARTURA E A MISÉRIA
O Sudão vive um estado de guerra civil há anos e é governado por um ditador condenado pelo Tribunal Penal Internacional, mas a instabilidade decorrente disso não assusta os investidores agrícolas. O maior país da África em área já negociou 1,5 milhão de hectares de terras férteis para a Coreia do Sul, o Egito e os Emirados Árabes Unidos por 99 anos. Enquanto isso, porém, o Sudão aparece como o maior recebedor mundial de ajuda internacional – 5,6 milhões de seus cidadãos dependem do envio de alimentos.
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O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços

GENEROSIDADE A PERDER DE VISTA
Negociações envolvendo um patrimônio tão importante quanto as terras férteis de um país deveriam, supostamente, estar cercadas de cuidados e precauções. Não é essa a aparência transmitida por declarações e atos de autoridades de alguns dos países que põem áreas de cultivo à disposição do mercado pós-crise alimentar de 2007/2008. Há alguns anos, o primeiro-ministro da Etiópia declarou que seu governo estava “ansioso” para oferecer acesso a centenas de milhares de terras agrícolas. Em meio a uma guerra com o Taleban, o Paquistão ofereceu milhares de hectares a xeques dos Emirados Árabes Unidos, prometendo aos interessados redução de impostos, isenção de leis trabalhistas e o envio de 100 mil membros de suas forças de segurança para proteger as propriedades de estrangeiros.
Em sua busca frenética por investidores, países africanos têm baixado os preços de suas terras em relação à concorrência, assinala Olivier De Schutter, relator especial da ONU para o Direito à Alimentação. Segundo ele, alguns contratos que envolvem centenas de milhares de hectares de terra mal chegam a três páginas de extensão. Embora mencionem os produtos a serem cultivados, o local e o preço da compra ou arrendamento, tais acordos não tratam de nenhuma norma ambiental, de investimentos necessários em contrapartida ou da criação de empregos.

Fonte: Brasil 247

Leia a matéria completa em: O novo colonialismo: Terceiro mundo é vendido aos pedaços - Geledés
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como é ser negro no Brasil, após 126 anos depois da escravidão?

Imagem: Reprodução


Beth Muniz
 
E como vive a imensa maioria dos negros?
*****
Janaína Jay Viegas, primeira pessoa negra da família materna e primeira branca da família do pai.
- O programa Caminhos da Reportagem exibirá novamente o episódio A Pele Negra, que recebeu Menção Honrosa na categoria Documentário de TV, no 36º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
O programa entrevista jovens de classe média e média alta, professores universitários, moradores da Rocinha e de Madureira (Zona Norte do Rio de Janeiro), para responder à pergunta: como é ser negro no Brasil?
“Eu já namorei com um rapaz que adorava ostentar o quanto eu sambo. Só que quando eu chegava em casa ele me dizia ‘você nem é tudo isso’ “, diz Manoela Gonçalves, mãe e estilista. Ela está na estatística do último censo do IBGE: as mulheres negras são as que menos se casam.
“Sou a primeira pessoa negra na família da minha mãe e a primeira branca da família do meu pai”, diz Janaína Jay Viegas, acostumada também a ser a única negra em escolas particulares.
O documentário apresenta pessoas que têm origem africana, pele clara, cabelo crespo e muitas dúvidas na hora de se declarar negras. Certeza mesmo têm os pesquisadores da Universidade de São Carlos (UFSCar) quando o tema é violência.
Os negros são as maiores vítimas da polícia militar em São Paulo, Rio e Minas.
As famílias de Amarildo Dias de Souza – levado pela PM da casa dele e desaparecido até hoje – e de Cláudia Silva Ferreira – morta e arrastada pelo carro da polícia, dizem que o preconceito não está só na cor da pele. Também está na condição de pobreza também.
 
Alexandre, viúvo de Cláudia – negro, pobre e favelado, é discriminado três vezes. Se for mulher, quatro.
 
Fonte: Travessia

Leia a matéria completa em: Como é ser negro no Brasil, após 126 anos depois da escravidão? - Geledés
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domingo, 12 de outubro de 2014

Pelo Direito de Ser Feliz Sozinho

Imagem: Reprodução



“Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho.” E assim diz o mestre Tom Jobim numa das músicas mais conhecidas e cantadas da Bossa Nova brasileira. Eu até concordaria com o pensamento se não houvesse uma única palavra nele que me chamasse atenção para um detalhe maior. Por que é impossível ser feliz sozinho?
Hoje em dia se fala muito sobre relacionamentos e sobre as variações deles. Amor, sexo, paixões de uma noite só e livros de cabeceira contando histórias e mais histórias sobre isso tudo. Parece que a gente vive preso a um ciclo que se resume a nascer, estudar, trabalhar para poder ter recursos a fim de conseguir um casamento e constituir família. E assim roda o ciclo de uma visão mais tradicional (e um tanto antiquada) sobre a necessidade de relacionamentos estáveis na vida de alguém. A pressão da sociedade e o julgamento vêm na forma das perguntas dos familiares sobre as namoradinhas ou das amigas sobre o casamento depois de certa idade. A falta do status de algum tipo de relacionamento estável (principalmente o status de “casado”) se confunde com a falta de pleno sucesso na vida pessoal de alguém. Olhares de reprovação chegam de todas as direções e se escondem nos comentários velados de “coitada, ela é tão inteligente, mas não casou até hoje” e “ele é um partidão, mas deve ter algum problema porque ninguém o quer”. 
Mesmo no contexto em que estamos de uma nossa revolução sexual, a visão arcaica da necessidade de uma vida a dois para se obter sucesso ainda se apresenta muito forte. Mas a tendência é que, no futuro, mais pessoas se tornarão solteiras bem sucedidas. A dedicação e o objetivo da vida de muitas dessas pessoas vai ser a carreira, o lazer, a cultura e todas as coisas que puderem aproveitar. É lógico que isso não exclui a possibilidade de relacionamentos, mas esse não vai ser mais o tal do “objetivo de vida” de alguém. Muita gente convive melhor com a solidão do que com outra pessoa. Solidão não é um problema, não é uma falta, muito menos uma causa patológica. Essa solidão que falo aqui é opcional e ressalta outras prioridades que surgem para milhares de pessoas que estão felizes e gostam de levar a vida desse jeito.
Então, eu deixo aqui um manifesto. Que ela possa ficar para titia e fazer dos sobrinhos os filhos que ela optou por não ter. Que ele possa ser um solteiro convicto que se dedica ao trabalho e se sente realizado assim. Que as namoradinhas das festas de família não precisem mais existir e que companhia seja opcional pra qualquer um. Que ela possa ir à festa do trabalho sozinho e se divertir com outras pessoas como ela. Que os presidentes não precisem de primeira-dama e que seja comum ser admirado por estar bem consigo mesmo. Que cessem as más impressões de que alguém é depressivo ou incompleto por estar sozinho. E que, mais do que nunca, a felicidade possa ser a única companhia necessária a alguém que optou por ela exclusivamente.


Para fins de direito de imagem, a foto usada no post não é de minha autoria e o autor não foi identificado.

Fonte:  Casal Sem Vergonha

sábado, 11 de outubro de 2014

Espero nunca trocar os meus amigos pelos meus amores

por Frederico Elboni
Imagem: Reprodução


As coisas se sucedem, a gente muda com a gente e com os outros. Saímos do colégio franzinos, e vamos à vida. Largamos os encontros diários das possíveis amizades, e cada vez mais os amigos viram colegas e os colegas possíveis conhecidos. Alguns casam, outros viajam, trabalham muito ou criam em si uma mentalidade de uma velha de 70 anos.
Apesar de todos essas mudanças quero continuar com os mesmos valores, os mesmos sonhos e ser imune as mudanças que sociedade tentará me impor. Prometo, pra mim, que sempre serei eu, simples, bobo e articulador de todas as minhas virtudes com um sorriso no rosto.
Espero também não ouvir de ninguém que mudei. Sei que os tempos ficam escassos, os amigos raros, as felicidades dribladas nos cotidianos cada vez mais rotineiros e os trabalhos incessantes. A gente cresce e muda de opinião, de amigos, de vivências… Mas não podemos mudar de essência. Espero ter maturidade para continuar sempre assim. Mesmo quando eu conquistar o mundo ou coração de alguma louca por aí.
Amigos, daqueles que são possíveis de contar até na mão esquerda do Lula, deixo aqui escrito um texto atemporal. Algo que tem como objetivo deixar a nossa amizade forte e intacta, e que quando eu, por um acaso ou por uma louca vestida de tenista, me desviar do que sempre fomos, venham aqui e puxem a minha orelha.
Peço desculpas pelos momentos que faltei nas viagens programadas, ou quando peguei no pé de vocês para largar a namorada pentelha e vir comigo para alguma jornada louca das minhas. Peço desculpas com as piadas bestas regadas de pouco esmero e muita sacanagem. Peço desculpas pelas ligações bêbadas durante a madrugada com histórias de pouca compreensão. Peço desculpas pelo ímpeto arredio e pela cara de bunda quando, sem motivos genuínos, não me deixavam ficar no ataque durante o nosso religioso futebol do final de semana.
Apesar dos pesares espero que as nossas desavenças tenham sido agregadoras de fortalecimento. Então, caso um dia eu não esteja mais aqui lembrem desse texto. Pois além de ser charmoso, acho que seria bem a minha cara deixar um testemunhal sensual desses. Quero poder vê-los sempre que possível para bebermos e lembramos das histórias que trilhamos juntos. E assim espero nunca trocar os meus amigos pelos meus amores. Sejam eles o meu trabalho ou as mulheres.

Fonte: Entenda Os Homens

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Considerações de Dickinson...

"Eu sou Ninguém - e Você?
É Ninguém também?
Somos um par então... Cautela!
Ou nos trancam numa cela!
Como é triste ser Alguém!
Tão público quanto um sapo -
Que coaxa o próprio nome
Para um atônito charco!"

  - Emily Dickinson

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

TODO PRESENTE PIORA COM A IDADE



Fabrício Carpinejar

Quando somos crianças, adoramos o suspense na hora de receber presente.

Sonhamos, aproveitamos a véspera, a fantasia somente melhora a festa.

Perguntamos com curiosidade, na expectativa de resolver a charada, de entender o que será dado.

Abrimos o pacote com surpresa. Soltamos gargalhadas, susto, gritos.

Os pais narram os nossos movimentos, descrevem a nossa emoção:

- O que será, ai meu Deus? O que é isso?

E o coração dispara.

Pode avisar a criança de presente com antecedência de um mês e ela enlouquecerá todo dia.

Já, quando adultos, o suspense somente piora o presente.

É alguém adiantar que ganharemos algo e esperamos o melhor do melhor.

E nunca é.

E nos decepcionamos.

Superfaturamos a imaginação.

Quando criança, valorizamos o gesto. Quando crescemos, valorizamos o resultado.

Quando criança, qualquer coisa serve. Quando crescemos, esperamos demais.

Esperamos um terno e recebemos um cinto.

Esperamos um perfume e recebemos um desodorante.

Esperamos um tênis e recebemos um par de meias.

Não vale a pena avisar o aniversariante que comprou algo, que é a sua cara, que vai adorar.

Não diz nada antes, apenas entrega sem falar.

Adulto não sabe brincar de ser feliz.

Ouça o comentário na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O MAIOR PRÊMIO DO AMOR

O MAIOR PRÊMIO DO AMOR

Fabrício Carpinejar

O que é mais complicado: uma entrevista de emprego ou uma conversa de reconciliação?

Em ambas, temos que cuidar de cada palavra, conter a prepotência, esconder o ressentimento, é preciso ter esperança e fé na medida certa, e apresentar sobriedade e segurança nos gestos e nas atitudes.

O correto é responder somente o que foi perguntado, com clareza e convicção. Não é recomendado falar demais, o que pode despertar assuntos incômodos, e tampouco falar de menos, capaz de transmitir indiferença.

As duas situações são muito idênticas, paradoxalmente semelhantes. São avaliações de nosso temperamento. Um lapso pode indicar a perda da vaga ou o desmoronamento do sonho.

No recrutamento profissional, é abusar do riso que entregamos o nervosismo e caímos no terreno do deboche. Na reconquista amorosa, é uma frase equivocada e todas as brigas e desentendimentos voltam com força total.

São negociações de alto risco, mas considero a reconciliação como a mais tensa e delicada.

Porque na entrevista de emprego, seremos contratados pela primeira vez. Existe um desconhecimento otimista de nosso passado, um voto de confiança. Contamos com cartas de recomendação e um currículo resumido. O que prevalece é a vontade de trabalhar.

Já na volta afetiva estamos sendo recontratados. Não há nenhuma indicação de terceiros, nem a mínima possibilidade de mentir. O outro nos conhece e não tem como enganar. Não há modo de disfarçar nossos problemas e defeitos. Não somos flores perfumadas. O único caminho viável é o da sinceridade. Convencer nossa companhia de que, na soma de erros e acertos, acertamos mais. É uma avaliação do legado, acima dos prognósticos.

Se o motivo da separação foi infidelidade e deslealdade, não tente dividir a culpa. Assuma sozinho o peso das falhas. Se o motivo da separação é estresse e desgaste, o ideal é usar o nós no discurso e repartir a responsabilidade.

Quem busca ter vantagem na discussão acaba reabrindo as feridas e pisando em ovos. Procurar culpados não adianta nada, ainda é se omitir. O que desarma a raiva é se importar com o sofrimento de nossa companhia e valorizar a construção a dois (os fracassos e sucessos).

É o momento de humildade generosa: eu também errei, fui imaturo, desculpa por tudo o que magoei.

Há duas operações fundamentais que não podem faltar: ouvir sem interromper e falar pausadamente não fazendo brincadeiras.

Preparar-se para reatar os laços deve ser levada a sério como uma seleção de Recursos Humanos. É o equivalente a um concurso público. Preocupados em resolver logo a pendência sentimental, esquecemos nossas condições físicas e psicológicas.

Antes do acerto de contas, durma oito horas, converse com os amigos, alimente-se direito. Marque em um lugar neutro para conter a passionalidade e o extremismo e evitar os gritos e as ofensas. Vista roupas leves e confortáveis, leve a garrafinha d’água e esteja disposto a atravessar longas horas quebrando a cabeça e resolvendo cálculos metafísicos. Não dá para chegar cansado e com fome, que somente trará intolerância, imposição e impaciência. O desastre é resultado do descuido. Na grande parte das vezes, o conflito vem da exaustão emocional: a vontade de acabar o sofrimento de qualquer jeito, mesmo que seja do pior jeito.

O esforço compensa. Ser chamado de volta é o maior prêmio do amor. Maior do que a sedução.

Colunista do site www.vidabreve.com
Quarta-feira
08/10/2014
Imagem: Reprodução




 
 
 
Fabrício Carpinejar

O que é mais complicado: uma entrevista de emprego ou uma conversa de reconciliação?

Em ambas, temos que cuidar de cada palavra, conter a prepotência, esconder o ressentimento, é preciso ter esperança e fé na medida certa, e apresentar sobriedade e segurança nos gestos e nas atitudes.

O correto é responder somente o que foi perguntado, com clareza e convicção. Não é recomendado falar demais, o que pode despertar assuntos incômodos, e tampouco falar de menos, capaz de transmitir indiferença.

As duas situações são muito idênticas, paradoxalmente semelhantes. São avaliações de nosso temperamento. Um lapso pode indicar a perda da vaga ou o desmoronamento do sonho.

No recrutamento profissional, é abusar do riso que entregamos o nervosismo e caímos no terreno do deboche. Na reconquista amorosa, é uma frase equivocada e todas as brigas e desentendimentos voltam com força total.

São negociações de alto risco, mas considero a reconciliação como a mais tensa e delicada.

Porque na entrevista de emprego, seremos contratados pela primeira vez. Existe um desconhecimento otimista de nosso passado, um voto de confiança. Contamos com cartas de recomendação e um currículo resumido. O que prevalece é a vontade de trabalhar.

Já na volta afetiva estamos sendo recontratados. Não há nenhuma indicação de terceiros, nem a mínima possibilidade de mentir. O outro nos conhece e não tem como enganar. Não há modo de disfarçar nossos problemas e defeitos. Não somos flores perfumadas. O único caminho viável é o da sinceridade. Convencer nossa companhia de que, na soma de erros e acertos, acertamos mais. É uma avaliação do legado, acima dos prognósticos.

Se o motivo da separação foi infidelidade e deslealdade, não tente dividir a culpa. Assuma sozinho o peso das falhas. Se o motivo da separação é estresse e desgaste, o ideal é usar o nós no discurso e repartir a responsabilidade.

Quem busca ter vantagem na discussão acaba reabrindo as feridas e pisando em ovos. Procurar culpados não adianta nada, ainda é se omitir. O que desarma a raiva é se importar com o sofrimento de nossa companhia e valorizar a construção a dois (os fracassos e sucessos).

É o momento de humildade generosa: eu também errei, fui imaturo, desculpa por tudo o que magoei.

Há duas operações fundamentais que não podem faltar: ouvir sem interromper e falar pausadamente não fazendo brincadeiras.

Preparar-se para reatar os laços deve ser levada a sério como uma seleção de Recursos Humanos. É o equivalente a um concurso público. Preocupados em resolver logo a pendência sentimental, esquecemos nossas condições físicas e psicológicas.

Antes do acerto de contas, durma oito horas, converse com os amigos, alimente-se direito. Marque em um lugar neutro para conter a passionalidade e o extremismo e evitar os gritos e as ofensas. Vista roupas leves e confortáveis, leve a garrafinha d’água e esteja disposto a atravessar longas horas quebrando a cabeça e resolvendo cálculos metafísicos. Não dá para chegar cansado e com fome, que somente trará intolerância, imposição e impaciência. O desastre é resultado do descuido. Na grande parte das vezes, o conflito vem da exaustão emocional: a vontade de acabar o sofrimento de qualquer jeito, mesmo que seja do pior jeito.

O esforço compensa. Ser chamado de volta é o maior prêmio do amor. Maior do que a sedução.

Colunista do site www.vidabreve.com
Quarta-feira
08/10/2014