sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não sei dizer “eu te amo”


Não sei dizer “eu te amo”
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Leia em tela cheia!

[Você pode ler este texto ao som de I Won’t Let You Go]

Eu te vejo aflita quando se trata dos meus sentimentos. Morde os lábios e fica com os olhos cheios de lágrimas porque ainda não me ouviu dizer que te amo. Não se preocupe, pequena. Eu sou fechado mesmo, mas aqui dentro, tudo é seu. Eu só sou sem jeito com as palavras. Prefiro que minhas ações falem por mim, porque tenho medo de morder a língua de novo.
É que o meu tipo de amor é diferente do seu, que cresceu vendo as princesas Disney e, querendo ou não, ainda carrega a inocência dos contos de fada. Não acho isso uma coisa necessariamente ruim, mas te faz esperar o tal príncipe encantado – o que pode me deixar abaixo das expectativas.
Olha, pequena, dentro do meu abraço, eu espero que você perceba que eu sou louco por você. Muito mais além do que qualquer forma verbalizada poderia expressar. E esse sou eu, no meu modo mais intensivo, tentando fazer você feliz. E eu sei que isso é difícil, mas peço que tente perceber a diferença gritante do meu antes e depois de você.
Percebeu? Notou como, com você, eu rio mais para o mundo e que eu não sou mais tão quieto num canto?
É isto que você faz comigo: Uma pessoa melhor, mas eu não saberia falar isso sem gaguejar ou trocar as palavras, me atrapalhar todo. Por isso, deixo meus beijos te mostrarem como eu te quero. E os meus olhos tem a função de te dizer que eles são só seus.
Eu te amo com tudo de mim, pequena. É um amor genuíno, acredite. Concreto. Forte.
Eu só não sei dizê-lo.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

HUMILHAÇÃO NO AMOR É SOBERBA


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Fabrício Carpinejar


Nunca me senti humilhado ao correr atrás de uma mulher, ao mandar mensagens e insistir, a tentar de tudo e me oferecer inteiro.
Você só se humilha no amor se está mentindo. Porque se fala a verdade está em paz.
Você só se humilha no amor se oferece o que não pode dar. Porque as falsas promessas não duram nem uma semana.
Você só se humilha no amor quando não acredita naquilo que diz. Porque se está fazendo o que deseja não tem motivos para se envergonhar.
Você só se humilha no amor se não tem saída. Porque não entendeu que ficar com o outro é uma escolha.
Você só se humilha no amor quando acha que recebe pouco. Porque a cobrança vem disfarçada de entrega.
Você só se humilha se tem segundas intenções. Porque o coração puro é a festa do acaso.
Você só se humilha no amor ao perguntar e responder ao mesmo tempo. Porque o ódio não deixa ninguém ouvir.
Você só se humilha no amor com chantagem emocional. Porque o convite é uma procura honesta.
Você só se humilha se não espera um retorno. Porque já prepara a vingança.
Você só se humilha no amor se não sabe reagir às críticas. Porque não cansa de se elogiar e não aprendeu a dividir os méritos.
Você só se humilha no amor se não admite alguém ser mais importante em sua vida. Porque se entregar é deixar a vaidade de lado.
Você só se humilha no amor se o sentimento é ressentimento. Porque a emoção sincera desarma qualquer preconceito.
Você só se humilha no amor se está disputando quem tem razão. Porque a humilhação é a derrota de um jogo imaginário.
Você se humilha no amor ao perceber que está perdendo o espaço. Porque amar é dar espaço.
Você só se humilha no amor se tem o orgulho ferido e não perdoa mágoas. Porque a felicidade traz o esquecimento.
Você só se humilha no amor se não tem fé na palavra. Porque a convicção cria a cumplicidade.
Você só se humilha no amor se não tem gratidão. Porque agradecer é mais corajoso do que se desculpar.
Você só se humilha no amor quem se vê melhor do que o outro. Porque o amor é a igualdade da fraqueza.
É preciso ser muito arrogante para se sentir humilhado no amor. É preciso ser muito soberbo para se sentir humilhado no amor.
Você só se humilha se não tem humildade para defender o amor, até depois do fim, até esgotar as possibilidades.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O que podemos aprender quando estamos na merda

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Shit happens. Merdas acontecem. Contingit stercore, em latim. Nas melhores famílias – e nas piores também. A única diferença é a profundidade e a maciez do monte de merda. Uns dias, a gente pisa e mal suja a sola do chinelo. Outros dias, a única coisa que nos resta fazer é abrir os dedos, mais ou menos naquele espírito do clássico “está no inferno, abraça o capeta”. Afundou o pé na merda, abre os dedinhos e deixa ela te possuir.
Pode parecer loucura – e talvez até seja –, mas a merda tem o seu valor. E uma função social pra lá de nobre. Em primeiro lugar, ela é adubo – ou seja, é uma propulsora da fertilidade. E é justamente por isso que não é de se espantar que as melhores ideias geralmente surjam quando estamos na merda. Em segundo lugar, considerando que toda merda nada mais é do que um ex-prisioneiro agora liberto, apesar de fedida, ela é a representação da esperança e da iniciativa. Se ela está descontente dentro de um intestino qualquer, fará barulho até conseguir sair. E é isso que você, cara pálida, deveria fazer toda vez que se sentisse aprisionado – seja por um trabalho sacal ou por um relacionamento sanguessuga.
Mas é que a gente se julga tão superior que tem certeza de que pode controlar a merda. Esteja ela no intestino, esteja na cabeça. Agora é hora de focar no trabalho, depois eu resolvo essa merda. Agora eu quero descansar, depois eu dou um jeito nessa merda. Agora eu tô me divertindo, depois eu penso nessa merda. Mas de nada adianta maturar a merda. Seja dentro do intestino, seja dentro da cabeça, demorar a colocá-la no mundo só vai fazer o processo ainda mais doloroso. Só vai lhe render ou um par de hemorroidas, ou um par de noites mal dormidas. Só vai lhe fazer morrer de constipação ou morrer de desgosto. Só vai fazê-lo sujar as calças na frente da escola inteira e, então, entender que já é tarde demais.
E aí a gente aprende. Quem está na merda invariavelmente aprende. Cedo ou tarde, voluntária ou involuntariamente. A ser mais humilde. A ser mais sincero. A ser mais solidário. A se preocupar mais consigo mesmo. A ser mais comprometido com a própria felicidade. Não há processo de crescimento que não envolva estar na merda, meu amigo. Dar a volta por cima é arte. Estar na merda faz parte.

Nota da autora, que aprendeu essa historinha com uma amiga do trabalho: Era uma vez um passarinho friorento e perdido num pasto no inverno. Eis que uma vaca passa e caga nele. A princípio, ele fica bravo – afinal, está afundado em merda. Mas quando a merda começa a esquentá-lo, ele fica feliz. Tão feliz a ponto de cantar. É quando o gato descobre o passarinho escondido na merda e o come. Morais da história: nem sempre quem caga em você é seu inimigo. Nem sempre quem te tira da merda é seu amigo.


Sobre Bruna Grotti

Alguém que não sabe mais do que você. Que não fez mais do que você. Que não sentiu mais do que você. Mas que, talvez, tenha um pouquinho mais de tato com as palavras pra transformar banalidades em crises existenciais e motivos de choro.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Vida em compotas


 Quantas vidas cabem numa única existência? Tenho me perguntado isso nos últimos anos, quando comecei a perceber as guinadas que a soma dos dias dá; as viradas de página que o tempo permeia.
 Outro dia li numa revista uma entrevista com Maitena Burundarena, escritora argentina, em que dizia que estava em sua quarta (ou quinta? Não me lembro agora...) vida. Pois já tinha vivido tanto, e se transformado tanto, que considerava estar vivendo a quarta vida.
 Daí que pensei que é isso mesmo. Que"etapa de vida" é um termo simples demais para definir o quanto a VIDA pode mudar. Então divagando um tantinho mais (eu e minhas viagens...) fico imaginando a existência toda como um panelão de geleia que a cozinheira apura e divide em compotas: uma, duas... dez, doze... e vamos vivendo cada compotinha_ cada qual com seu sabor_ pra no final termos vivido o panelão todo.
Sendo assim, a compota de hoje não terá o mesmo sabor daquela primeira ou segunda; do mesmo modo que o sabor atual não será igual o último. Também não dá pra misturar, querer um tantinho da que já experimentei na que acabei de começar... isso azeda, amarga, tira a pureza! Cada potinho é singular_ não deve ser embaralhado com saudade ou ansiedade. 
 Gostei disso. Porque a gente se afoba demais. Vai colocando a colher na boca e dizendo de cara que não gosta, que preferia a anterior. Não dá nem tempo de acostumar o olfato, o paladar... pensa logo que não aprecia e pronto, faz azedar de birra. Nãooo... Caaaalma... Dê tempo de esfriar, de passar no pão com delicadeza, de separar o sabor doce que tá lá no fundo... Porque bem lá no fundo, se você souber esperar e sentir, vai reconhecer a essência daquilo que lhe traz paz, as notas do que lhe faz feliz. O problema é que a gente é afobado mesmo, quer tudo pra ontem. E recusa o pote sem experimentar tudo. Tudo mesmo. E fica imaginando que lá na frente vai ter mais requinte. R.e.q.u.i.n.t.e... Que é que vale isso? Se não aprender a degustar tudo certinho, com paciência e aceitação, não há requinte no mundo que lhe baste meu amigo... O que conta são as experiências_interiores_ muito mais que exteriores. Tem muito idoso no segundo pote (cheio de r.e.q.u.i.n.t.e...) e muita criança de dez anos_ felizinha_ na quinta compotinha (de sabedoria).
 Infelizmente tem hora que a gente tem que tapar o nariz e engolir na marra. Fazer o quê se não há remédio? Virão dias em que preferiríamos morrer de fome. Isso é capricho, ninguém lhe pede pra enfiar goela a baixo o pote todo. É aos poucos que a gente prova e aprende. É aos poucos que vai dando certo, ficando melhor, mais degustável... Entendeu?

 Quanto a mim, penso que estou no quinto ou sexto pote.
 Tive uma infância rica. Queria ser artista. Era uma mistura de atriz, bailarina de circo, jornalista e escritora. Sonhava acordada e criava histórias _no papel e na cabeça_ esperando os primos (coitados!) chegarem nas férias pra iniciarmos os ensaios. Enfim, era uma sonhadora... A compota foi doce.
 Por volta dos doze anos experimentei sabores agridoces; mais ácidos, mais amargos. Foi bom (pra evoluir), embora no momento não tivesse consciência disso (nunca temos).

 Depois tive sorte. Sabe gosto de sonho? De apreciar de olhos fechados? Os quatro anos de faculdade foram assim. Uma surpresa cheia de sabores novos, especiais, leves, deliciosos.

 Daí veio a formatura e, ao contrário da anterior, abri um pote de gosto seco, áspero, oco. Foi o começo da vida adulta, o fim das farras, o inicio profissional numa cidade nova, com mais asfalto e menos afeto.

 Mas é claro que vieram dias melhores. E o que era árido tornou-se manteiga... Foi o tempo de casar, viajar, ter filho. O sabor familiar veio trazer alento ao meu paladar. De textura macia, temperatura morna e gosto conhecido, reconheci meu lugar. Não há nada no mundo que conforte mais a alma que sentir-se em casa...

 Hoje, de vez em quando sinto meu mundo de manteiga azedar. Faz parte. Mudam-se as referências, despeço-me de lugares importantes, sinto medo, desesperança, aflição... (como todo mundo). Como criança mimada, recuso algumas colheradas e não cresço como gostaria. Prefiro o que é conhecido, a temperatura morna, o conforto do que é familiar.

 Porém, sei que não será sempre assim. O ciclo da vida impõe despedidas, mudanças drásticas, evolução.  Hão de existir outros potes esperando por mim; e temo que seus sabores não sejam tão fáceis, macios ou confortáveis. Mas quando provar, desejo ter paciência de esperar. De reconhecer lá no fundo o sabor conhecido, ou mais doce que puder ser.

 Porque ele (Ele) estará lá. Só é preciso ter fé, acreditar... e não ter medo de experimentar.
                                                                                                                             
                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

Fonte: A soma de todos os afetos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CORAÇÃO DURO DE ROER

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Fabrício Carpinejar

É desaconselhável conviver com alguém logo depois de uma separação. As mulheres têm razão.

Não há condições de ser agradável, de ser sociável, de ser carinhoso.

Separado não admite visitas por mais de uma hora que já começa a sofrer com flashbacks.

Só consegue ser educado por uma hora. Depois disso, o desespero e a saudade tomam conta dele.

O que ele mais quer é ficar sozinho para poder se derramar. Reservar-se o direito da antipatia das lágrimas.

Depois que chora, até deseja chamar o convidado de volta, porém já é tarde.

Não há dor maior do que a separação. Quando foi amor. Quando é amor. Aliás, os tempos verbais se embaralham: ontem parece hoje, o amanhã parece ontem.

Impossível determinar se ama ou amou, nada deixou de acontecer na pele.

Além da falta de apetite e do desleixo característico, o separado alucina. Arca com infinitas crises de ansiedade, de susto, de apreensão. É uma fissura incontrolável: seu desejo é resolver a dor de qualquer jeito, e qualquer jeito é voltando para sua ex de qualquer jeito.

Olha para a janela como quem aguarda um ônibus. Encara a porta como quem espera um trem. Está atrasado de si.

Aguenta apagões consecutivos de consciência, como se estivesse sendo assaltado a cada meia hora. O separado foi terrivelmente roubado, não descobriu ainda o que levaram. Descobrirá pouco a pouco, dia a dia, despertar a despertar. Talvez tenha sido latrocínio e ele seja um fantasma pela casa.

É uma confusão mental entre o que foi e o que poderia ser. Ele lembra e imagina simultaneamente, sem definição precisa das fronteiras. De vez em quando, recorda uma experiência comovente a dois, uma conversa de cozinha, juras na cama, vindas de um passado remoto; em outras, delira o que estaria fazendo naquele instante, que palavras seriam ditas, qual música estariam ouvindo. Vive uma avalanche intermitente de sensações antigas e novas com o mesmo peso, incapaz de decifrar o que realmente é verdadeiro.

Isso quando não apanha do lado turvo do relacionamento – as discussões, as decepções, o choque de identidades –, coisas que não gostaria de ter enfrentado e que não entende como não conseguiu remediar a ponto de salvar o casamento.

Tudo o que conta aos amigos e familiares é o contrário do que sente. Reclama e ofende sua companhia para se convencer de que decidiu acertadamente, mas o que deseja é simplesmente receber o beijo e o abraço dela de volta. Inviabiliza, de modo racional e inútil, as chances de reconciliação, entretanto é o que anseia. Cria uma oposição desastrada para prevenir sua passionalidade.

Como não pode ter o que quer, mendiga milagres. Posta frases e indiretas no Facebook e no Twitter, ainda que ela esteja bloqueada, acreditando numa comunicação sobrenatural.

Nem trabalha, muito menos descansa. Reconstrói cenas de ciúme ou de redenção, fraqueja com filmes, não consegue ler um livro, manter o foco, sua atenção oscila para uma única obsessão: ligar ou não ligar, retornar ou se manter firme no propósito de se distanciar.

O separado é um doente. Deveria ser internado. Posto numa cama com soro. Sua cabeça não dá trégua, porque enfrenta um impasse entre sua razão e sua emoção, numa queda de braço que resulta sempre em fratura.

Está com o osso fora do lugar. O coração é um osso agora. Duro de roer.

Se fosse um cachorro, enterrava. Se fosse um cachorro, mas não é.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 07/12/2014 Edição N°18006

domingo, 7 de dezembro de 2014

O mal é a falta de atenção




Amiga falando do irmão com quem divide um apartamento:
Ele é uma pessoa boa, linda, incrível, tolerante, generosa… mas não lava a louça! Sai da mesa e deixa a louça lá, como se ela fosse magicamente se lavar sozinha, e quem tem que lavar sou eu! Depois de já ter cozinhado tudo!

Maria Helena Vieira da Silva



* * *
No nosso dia a dia, temos poucas oportunidades práticas de ativamente não-estuprar, não-roubar, não-torturar, não-cometer-genocídio.
Não-matar não é uma decisão consciente que tomo todo dia e da qual posso ter orgulho. Somente não-estuprar não faz de mim uma pessoa boa.

Maria Helena Vieira da Silva



* * *
O mal é a falta de empatia. O mal são os olhos cegos e os ouvidos moucos. O mal é a desatenção e o autocentramento. O mal é aquilo que sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que não ouvi, que não sei como fui esquecer.
O que é um batedor de carteiras comparado ao honesto pai de família que não enxerga nada a sua volta? Que não vê a esposa insatisfeita e desesperada, as filhas confusos e autodestrutivos, a sócia abrindo a garrafa de uísque cada vez mais cedo?
O mal não é arrancar a Anne Frank do sótão: o mal é cruzar todo dia pelo porteiro com o braço engessado e nunca perguntar, nunca se preocupar, nunca nem reparar.
O mal não é ser dono de uma fazenda com duzentos escravos: o mal é ser contra uma nova estação do metrô porque vai destruir as arvorezinhas da sua praça e nunca te ocorrer das centenas de milhares de trabalhadores que não têm carro, passam horas e horas em ônibus e terão suas vidas significativamente melhoradas por uma nova estação.
O mal não é a estrela da morte explodir Alderã: o mal sou eu relaxar do longo dia de trabalho curtindo um filme, depois de um belo jantar feito por minha irmã, e nunca me passar pela cabeça que ela teve um dia igualmente longo de trabalho, ainda por cima fez o jantar e agora está sozinha tirando a mesa e lavando a louça, e ainda perdendo a chance de ver o filme!

Maria Helena Vieira da Silva



* * *
Eu poderia tentar argumentar: foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…
Mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.
Gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída. Mas não: minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.
Eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer networking, o dinheiro que emprestei pra uma amiga, o endereço da nigeriana com quem flertei na praia.
Eu esqueço de lavar a louça (“puxa, fiquei aqui distraído com o filme, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que pediu minha ajuda (“caramba, essa mensagem está na minha caixa de entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinho.”)
Maria Helena Vieira da Silva



Mas não tem problema: na minha cabeça, sempre me absolvo. Afinal, sou o protagonista do filme da minha vida e tudo o que eu faço sempre se justifica.
É um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.
Quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:
'Poxa', será que ele não vê que estou com pressa? Respeito as leis do trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!
Não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é muita injustiça).
Hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.
Mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa.

Maria Helena Vieira da Silva



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Ser bom é não é apenas ajudar minha irmã a lavar a louça.
Ser bom é tornar-me uma pessoa para quem seria intolerável sentar para assistir um filme enquanto minha irmã lava toda a louça sozinha.

Maria Helena Vieira da Silva



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Minha ex-mulher é de uma pequena e próspera cidade no interior da Amazônia. Veio morar comigo no Rio e se deparou, pela primeira vez, com a população de rua em nossas calçadas.
Nunca amei tanto minha ex-esposa quanto naqueles momentos em que a mera visão de uma criança de rua já era o suficiente para levá-la às lágrimas.
Sabe por quê? Porque é.
Com o tempo, para não enlouquecer, para poder funcionar como ser humano, minha ex-esposa foi criando a mesma couraça de insensibilidade social que quase todos os cariocas e paulistanos já trazem do berço.
É uma educação do olhar: você se treina para não ver, para não se importar, para não cair de joelhos paralisada pelo horror.
Mas, se precisamos ser monstros insensíveis para funcionar em sociedade, talvez essa sociedade é que não devesse funcionar.
Talvez fosse o caso de derrubar e fazer outra.

Maria Helena Vieira da Silva



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Esse texto foi reescrito e republicado em janeiro de 2014, para melhorar a argumentação, excluir trechos fracos e tornar a linguagem menos sexista. Confira aqui minhas dicas pessoais sobre como escrever de forma menos sexista.
Maria Helena Vieira da Silva



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As ilustrações desse texto são obras da artista portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-92), atualmente em exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // se gostou, assine minha newsletter e receba meus novos textos por email

sábado, 6 de dezembro de 2014

A parábola da boneca de sal

por Alex Castro

“quem é você?”

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era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu compreendê-lo. perguntou ao mar:

“quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

* * *

a história pode ter várias mensagens. uma delas é aprender a não fazer perguntas idiotas. outra, que todo conhecimento tem um custo. também outra, que a verdadeira compreensão só pode se dar de dentro. ou, melhor, que só saindo de si mesma, só através do desapego, é possível uma verdadeira compreensão do outro, do universo, de qualquer coisa.