Amiga falando do irmão com quem divide um apartamento:
Ele é uma pessoa boa, linda, incrível, tolerante,
generosa… mas não lava a louça! Sai da mesa e deixa a louça lá, como se
ela fosse magicamente se lavar sozinha, e quem tem que lavar sou eu!
Depois de já ter cozinhado tudo!
* * *
No nosso dia a dia, temos poucas oportunidades práticas de
ativamente não-estuprar, não-roubar, não-torturar,
não-cometer-genocídio.
Não-matar não é uma decisão consciente que tomo todo dia e da qual
posso ter orgulho. Somente não-estuprar não faz de mim uma pessoa boa.
* * *
O mal é a falta de empatia. O mal são os olhos cegos e os ouvidos
moucos. O mal é a desatenção e o autocentramento. O mal é aquilo que
sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que
não ouvi, que não sei como fui esquecer.
O que é um batedor de carteiras comparado ao honesto pai de família
que não enxerga nada a sua volta? Que não vê a esposa insatisfeita e
desesperada, as filhas confusos e autodestrutivos, a sócia abrindo a
garrafa de uísque cada vez mais cedo?
O mal não é arrancar a Anne Frank do sótão: o mal é cruzar todo dia
pelo porteiro com o braço engessado e nunca perguntar, nunca se
preocupar, nunca nem reparar.
O mal não é ser dono de uma fazenda com duzentos escravos: o mal é
ser contra uma nova estação do metrô porque vai destruir as arvorezinhas
da sua praça e nunca te ocorrer das centenas de milhares de
trabalhadores que não têm carro, passam horas e horas em ônibus e terão
suas vidas significativamente melhoradas por uma nova estação.
O mal não é a estrela da morte explodir Alderã: o mal sou eu relaxar
do longo dia de trabalho curtindo um filme, depois de um belo jantar
feito por minha irmã, e nunca me passar pela cabeça que ela teve um dia
igualmente longo de trabalho, ainda por cima fez o jantar e agora está
sozinha tirando a mesa e lavando a louça, e ainda perdendo a chance de
ver o filme!
* * *
Eu poderia tentar argumentar: foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…
Mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.
Gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima
memória e é muito distraída. Mas não: minha péssima memória e minha
extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que
não diga respeito a mim.
Eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer
networking, o dinheiro que emprestei pra uma amiga, o endereço da
nigeriana com quem flertei na praia.
Eu esqueço de lavar a louça (“puxa, fiquei aqui distraído com o
filme, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro
dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo
bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que
pediu minha ajuda (“caramba, essa mensagem está na minha caixa de
entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinho.”)
Mas não tem problema: na minha cabeça, sempre me absolvo. Afinal,
sou o protagonista do filme da minha vida e tudo o que eu faço sempre se
justifica.
É um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.
Quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:
'Poxa', será que ele não vê que estou com pressa? Respeito as leis do
trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!
Não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer
e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo
totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é
muita injustiça).
Hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que
precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.
Mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa.
* * *
Ser bom é não é apenas ajudar minha irmã a lavar a louça.
Ser bom é tornar-me uma pessoa para quem seria intolerável sentar
para assistir um filme enquanto minha irmã lava toda a louça sozinha.
* * *
Minha ex-mulher é de uma pequena e próspera cidade no interior da
Amazônia. Veio morar comigo no Rio e se deparou, pela primeira vez, com a
população de rua em nossas calçadas.
Nunca amei tanto minha ex-esposa quanto naqueles momentos em que a
mera visão de uma criança de rua já era o suficiente para levá-la às
lágrimas.
Sabe por quê? Porque é.
Com o tempo, para não enlouquecer, para poder funcionar como ser
humano, minha ex-esposa foi criando a mesma couraça de insensibilidade
social que quase todos os cariocas e paulistanos já trazem do berço.
É uma educação do olhar: você se treina para não ver, para não se importar, para não cair de joelhos paralisada pelo horror.
Mas, se precisamos ser monstros insensíveis para funcionar em sociedade, talvez essa sociedade é que não devesse funcionar.
Talvez fosse o caso de derrubar e fazer outra.
* * *
Esse texto foi reescrito e republicado em janeiro de 2014,
para melhorar a argumentação, excluir trechos fracos e tornar a
linguagem menos sexista. Confira aqui minhas dicas pessoais sobre como escrever de forma menos sexista.
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As ilustrações desse texto são obras da artista portuguesa
Maria Helena Vieira da Silva (1908-92), atualmente em exposição no
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // se gostou,