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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vidas Secas


Pesquisa mostra que preferimos levar choques a passar 15 minutos com nossos pensamentos. Nada ilustra melhor a secura dos tempos. 
 
 
 
 
a persistência da memóra
Reprodução do quadro "A Persistência da Memória", pintura de 1931 de Salvador Dalí



Cabeça vazia é a oficina do diabo, dizia a minha vó e a vó de todos os meus amigos de infância. Ter tempo demais, sem exatamente ter o que fazer, é a mola propulsora para as crianças pintarem as paredes com pasta de dente, plantarem ovos no quintal ou roubarem os cigarros do pai.
Quando adultos, a lei e a ordem nos impedem de tapear o tempo com os velhos recursos infantis, e por isso preferimos tapeá-lo jurando não termos tempo para nada – ao menos para começar as tarefas adiadas desde a adolescência, como começar a ler Em Busca do Tempo Perdido.
Mas a verdade é que temos tempo de sobra. Temos tempo demais. Por isso estamos sempre conectados e em busca de listas salvadoras sobre as dez coisas que não podemos morrer sem fazer, conhecer, ouvir, lembrar ou esquecer.
Tempos atrás, perdíamos o sono e nos deparávamos à noite com nosso maior inimigo: o silêncio. Nada contra o silêncio, mas é ele, e nada mais, o maior delator de nosso fantasma mais primitivo: a consciência de que temos tempo de sombra, temos tempo demais, e não sabemos o que fazer com ele quando é noite, estão todos dormindo e as ruas, imersas em silêncio. Diante da noite, não há meio-termo entre matar ou morrer. Antigamente assaltávamos a geladeira. Ou ligávamos a TV para assistir ao Corujão. Ou escrevíamos cartas a amantes ou desafetos num impulso de empolgação que se desmancharia nas primeiras luzes do dia e da razão.
Hoje vamos à internet. Ali, encontramos uma legião de insones armados com facões e outros objetos pontiagudos para matar, estraçalhar, estripar o tempo de sobra. O tempo, delatado pelo silêncio, é nosso maior delator: não temos nada de bom para pensar. Por isso a paz não nos interessa. Ela nos leva ao silêncio, que nos leva a nós mesmos, e esse encontro é não só indesejado: é insuportável.
No livro Vidas Secas, Graciliano Ramos descreve uma cena em que Fabiano, o sertanejo do romance, perde uma aposta para o Soldado Amarelo. Quando percebe, está só, sentado na sarjeta, falido, bêbado e sem argumento para explicar em casa que o dinheiro para os mantimentos fora gasto em finalidades menos nobres. É a chegada ao inferno sem escaladas: em silêncio, Fabiano busca um resquício de bom pensamento para se acalmar. Em vão, conclui: a vida seria mais suportável se houvesse ao menos uma boa lembrança. Ele não tinha. Sua vida era seca. Infrutífera. Vulnerável. Como ele.
Em tempos de secura do ar, de reservatórios, de ideias ou desculpas convincentes sobre nossas faltas, eu deveria voltar a Graciliano Ramos, mas confesso que ando ocupado demais matando o tempo que juro não ter. Todos os meus objetos pontiagudos estão empenhados a matar o tempo na internet, mais especificamente no Facebook, espécie de redutor do muro que antes separava o que sentíamos e o que pronunciávamos.
Com ele, não faz o menor sentido ter uma ideia e não dividi-la. Não compartilhá-la. Não lançá-la para ser curtida. As ideias trancafiadas nos pesam: elas nos levam ao silêncio e às desconfianças, entre elas a de que não são originais, não valem ser ditas, não valem a atenção, não valem uma nota, não valem um post. Tarde demais: quando pensamos em dizer, já dissemos. Em conjunto, essa produção industrial de bobagens e reduções explícitas da realidade replicadas na rede nos dão a sensação de preenchimento. De tempo encurtado. De tempo útil. De vida bem vivida.
Vai ver é por isso que, em um estudo recente publicado na revista Science, as pessoas diziam preferir causar dor a si mesmas do que passar 15 minutos em um quarto sem nada para fazer além de pensar. No experimento, os cientistas das Universidades da Virgínia e de Harvard confinaram cerca de 200 pessoas em um quarto sem celular nem material para ler ou escrever e concluiu: mais de 57% das pessoas acharam difícil se concentrar; 80% disseram que seus pensamentos vagaram; metade achou a experiência desagradável. E, o mais estarrecedor: dois terços, sem ter o que fazer diante do silêncio, resolveram se entreter dando choques em si mesmos – um deles estraçalhou o próprio tédio com 190 choques. Nada poderia ser mais revelador dos nossos dias.
Pois ontem passei uma hora e quarenta minutos parado num ponto de ônibus à espera de um ônibus que não veio. Passaria uma hora e quarenta minutos me autoimolando se não fosse meu celular, que tanto relutei a conectar à internet. Foram quase cem minutos contatando meio mundo que me desse uma palha de conversa, em aplicativos de mensagem instantânea, sobre a vida, sobre a seca, sobre o tempo que nos resta e não concede tempo para nada, nem para ler os livros e as revistas que apodreciam em conjunto na minha mochila.
Se quer saber a dimensão do tempo, fique um minuto em silêncio, diziam os sábios, que talvez não suportassem passar 15 minutos sem conferir as últimas mensagens no celular a apitar nos bolsos das melhores famílias. Os meus vibram e apitam mesmo quando estão vazios. Sintomas da abstinência, manifestada toda vez que coloco o celular para carregar e me lembro de que nossas vidas pedem barulho e transbordamento o tempo todo. Elas estão secas demais para suportar 15 minutos de silêncio.


Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Colocar o mundo no mudo



Imagem: Reprodução

Recebemos diariamente frases que tem como objetivo nos fazer refletir sobre nossas ações, decisões, pensamentos. É uma enxorrada de expressões que nos trazem à realidade, ou fazem refletir nos seres que realmente devemos, ou queremos, ser. Mas uma, especialmente, me chamou a atenção. ‘Coloca o mundo no mudo e escuta o seu coração!’ Curioso! Levando em consideração que o coração muitas vezes é traiçoeiro, verteria o final da frase para ‘ouça sua consciência’. Acredito que seria mais sensato. O coração costuma ser muito implusivo, para não dizer indisciplinado. Mas a questão não é essa. O que me chamou a atenção foi ‘colocar o mundo no mudo’. Este é deveras um exercício difícil. Há alguns dias coloquei o mundo no mudo, antes de conhecer essa frase. Mas meu planeta interno estava muito mais barulhento que o mundo externo. Era uma porção de vozes incompreensíveis, barulhentas, questionadoras, agitadas, exigentes, eloquentes. Colocar o mundo no mudo! Como calar todas aquelas vozes aparentemente incontroláveis? Muitas vezes estamos tão acostumados com a zoeira diária que o silêncio torna-se perturbador. Mas o silêncio é necessário, nele conseguimos nos concentrar,definir melhor nossas ações, esclarecer algumas nossas muitas dúvidas. Não estamos habituados à tranquilidade, acho que já falei sobre isso. Esse assunto me parece tão recorrente que se não escrevi, expressei verbalmente várias vezes nas rodas de conversas entre amigos. Colocar o mundo no mudo! Um desafio que temos de enfrentar para encarar tudo racionalmente, com mais serenidade. Acho que jamais esquecerei essa frase. Quando colocamos o mundo no mudo a nossa consciência grita. E como grita! Isso faz parte de um exercício diário, quanto mais nos silenciarmos tanto mais nossa consciência se acalmará. Até chegar o ponto dela se tranquilizar quando o som do mundo estiver desligado. Aí alcançaremos o equilíbrio. Nosso equilíbrio é controlar, e poder viver, o silêncio. É bom silenciar o mundo que dita tantas regras, cada uma de acordo com seus interesses. Um mundo que berra descontroladamente. O mundo é um dos principais culpados pelo nosso descontrole, nossos maiores confrontos internos. Mundo, vasto mundo, como disse bem Drummond. Colocar o mundo no mudo! Desejo que se torne rotina.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Deixa assim ficar subentendido



Imagem: Reprodução


Eles se falam diariamente. Trocam mensagens, sorrisos. Mas tudo fica no paraíso das entrelinhas. Todos à sua volta já perceberam que há ali um ar de amor. Eles medem muito o quê dizer um para o outro. Querem se ver constantemente, mas sem marcar. Contam com o acaso. Arrumam-se de maneira diferente ao saírem de casa e saem pelas ruas como que procurando algo. Ficam com os corações ansiosos. Quando se veem, por acaso, o brilho no olhar se acende. Se cumprimentam, as palavras saem meio trêmulas e simulam terem se topado na rua acidentalmente. Aliás, a coincidência costuma ser um ‘empurrãozinho’ do Criador para que os desejos se concretizem. Demonstram uma preocupação peculiar um com o outro. A mesma pergunta sai simultaneamente de suas bocas, bem como as respostas. Sorriem pela situação do ridículo. O tempo para. O universo à sua volta não existe mais. Os olhares dizem o que a boca teima em não externar. Olho, boca, olho novamente, mãos e novamente o olho. Como somos desajeitados quando amamos! O assunto desaparece. Não! O assunto não desaparece, ambos sabem exatamente o que dizer, mas o subentendido é mais interessante. Eles se enamoram nas entrelinhas. Está mais que declarado que são eternos admiradores um do outro. Sim! Porque o amor reside por muito tempo na admiração. E olha que quem passa e não os conhece consegue ver isso! Não seria preciso virar o mundo de cabeça pra baixo para entender essa relação. Por que quando há amor não se necessita compreender absolutamente nada. Ah! Já ia me esquecendo. Muitos se perguntam o porquê não declaram logo que se amam e vão ser felizes.  Mas há um cuidado muito especial na decisão de ambos. A beleza do amor no caso deles está na subjetividade. Não se magoam, conhecem perfeitamente o defeito do ser amado, sabem suas preferências, anseios e até o motivo da voz do outro estar com uma entonação diferente. Hora de disfarçar, um conhecido em comum está chegando. Mas o disfarce é a maneira mais natural de demonstrar que há algo especial entre os dois. Despendem-se com vontade de continuar ali entre troca de olhares e pausados silêncios. E já imaginam o que vão dizer no próximo encontro ‘acidental’. Pegam o celular e pensam numa desculpa para continuar a conversa por troca de mensagens. E o sorriso se abre a cada resposta recebida...