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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Esperança é o que mais dói

Imagem: Repeodução


Fabrício Carpinejar

É me acomodar no avião e já adormeço. Nem espero o comissário fechar as portas.

Durante conexão de Galeão para Salgado Filho, escorado na janela, pronto para babar, escuto uma mulher chorando na poltrona da frente.

Sempre vou acordar quando ouvir uma mulher chorando. Meu sono não resiste a mulher chorando.

Ela soluçava ao telefone:

– Você disse que a gente moraria junto depois que terminasse seu treinamento. Você mentiu, você só está me enrolando com promessas. Promessa dói. Esperança dói.

Não alcançava qual o contexto da conversa, mas sua frase produziu muito sentido.

Esperança dói!

Eu quase chorava junto. Ela estava coberta de sentimento mais do que coberta de razão.

Concordava com ela: não minta com esperanças. Minta com qualquer outro sentimento, menos com esperança. Não ofereça esperança se não acredita na relação.

Pense bem antes de falar, pense se realmente deseja cada verbo. Cuidado com aquilo que sonha em voz alta.

Todas as palavras são estrelas cadentes. Prometer é sério, prometer é se comprometer.

Não adianta dizer que só falou, alegar que não fez nada de errado e lavar as mãos no vento. Falar é fazer.

Entenda que a esperança é o que mais machuca. Não há maior tortura do que gerar esperança em vão: é oferecer para tirar.

Não estimule projetos se não está disposto a cumprir, se não é sincero, se não é verdadeiro.

Não diga da boca para fora pelo prazer da hora, pelo romantismo, pelo arrebatamento.

Imaginar já é concretizar. Se não tem segurança com sua companhia, não iluda. Não fique fantasiando casa própria, filhos, cachorro, viagens ao Exterior. Não insufle o porvir para agradar. Não disfarce o pouco sentimento com a eternidade. Não chame o futuro impunemente. Não apele para a emoção à toa.

A fantasia é uma responsabilidade do casal. Pois o amor é o que se vive somado ao que se conversa somado ao que se planeja.

Ao fortalecer intenções, permite que ela ou ele passe a esperar dali por diante.

Somos crianças no amor, ansiosas pela confirmação das expectativas. Enxergamos o que imaginamos, trabalhamos para conseguir o que imaginamos.

Esperança é também parte importante do namoro. Esperança é também lembrança do namoro. Esperança é também memória do namoro. Esperança é também realidade do namoro.

O que foi idealizado a dois é um patrimônio da intimidade, um marco da confiança.

Ninguém sofre numa separação por aquilo que aconteceu, sofrerá por aquilo que não vai mais acontecer. Sofrerá pela perda da esperança mais do que pela perda do amor.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 24/6/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 17839

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Deixa assim ficar subentendido



Imagem: Reprodução


Eles se falam diariamente. Trocam mensagens, sorrisos. Mas tudo fica no paraíso das entrelinhas. Todos à sua volta já perceberam que há ali um ar de amor. Eles medem muito o quê dizer um para o outro. Querem se ver constantemente, mas sem marcar. Contam com o acaso. Arrumam-se de maneira diferente ao saírem de casa e saem pelas ruas como que procurando algo. Ficam com os corações ansiosos. Quando se veem, por acaso, o brilho no olhar se acende. Se cumprimentam, as palavras saem meio trêmulas e simulam terem se topado na rua acidentalmente. Aliás, a coincidência costuma ser um ‘empurrãozinho’ do Criador para que os desejos se concretizem. Demonstram uma preocupação peculiar um com o outro. A mesma pergunta sai simultaneamente de suas bocas, bem como as respostas. Sorriem pela situação do ridículo. O tempo para. O universo à sua volta não existe mais. Os olhares dizem o que a boca teima em não externar. Olho, boca, olho novamente, mãos e novamente o olho. Como somos desajeitados quando amamos! O assunto desaparece. Não! O assunto não desaparece, ambos sabem exatamente o que dizer, mas o subentendido é mais interessante. Eles se enamoram nas entrelinhas. Está mais que declarado que são eternos admiradores um do outro. Sim! Porque o amor reside por muito tempo na admiração. E olha que quem passa e não os conhece consegue ver isso! Não seria preciso virar o mundo de cabeça pra baixo para entender essa relação. Por que quando há amor não se necessita compreender absolutamente nada. Ah! Já ia me esquecendo. Muitos se perguntam o porquê não declaram logo que se amam e vão ser felizes.  Mas há um cuidado muito especial na decisão de ambos. A beleza do amor no caso deles está na subjetividade. Não se magoam, conhecem perfeitamente o defeito do ser amado, sabem suas preferências, anseios e até o motivo da voz do outro estar com uma entonação diferente. Hora de disfarçar, um conhecido em comum está chegando. Mas o disfarce é a maneira mais natural de demonstrar que há algo especial entre os dois. Despendem-se com vontade de continuar ali entre troca de olhares e pausados silêncios. E já imaginam o que vão dizer no próximo encontro ‘acidental’. Pegam o celular e pensam numa desculpa para continuar a conversa por troca de mensagens. E o sorriso se abre a cada resposta recebida...