Espaço com expressõs de mentes anônimas e famosas. Aqui você encontra músicas, filmes, poesias, crônicas, pesquisas, frases ou todas elas na mesma postagem. Doses diárias de reflexão para você que tem a sensibilidade de compreender que a vida é uma arte sem fim.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Como serão seus últimos 10 anos de vida?
Um vídeo sobre decisões. Curto o suficiente para nos fazer refletir por um longo período...
quinta-feira, 24 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
A insustentável leveza de ser negro
![]() |
| Douglas Rafael da Silva Pereira / Imagem: Página Oficial de DG na Internet |
Mais uma vez não consigo dormir por mais um capítulo da injustiça humana,
injustiça de uma instituição que deveria zelar por minha segurança . Carregamos
um fardo pesado na história deste país, da desigualdade produzida pela elite
alva deste ‘reino’. Dessa vez um jovem de 26 anos, dançarino, negro, residente
de uma comunidade fluminense, com todas as características do estereótipo
criado dos bandidos desse país. Me perdoem a indelicadeza, mas bem sabemos onde
estão os verdadeiros bandidos desta nação e que cargos ocupam. Mais uma vez
levantamos a bandeira ‘Somos todos...’. Sim! Somos ‘Amarildos’, ‘Cláudias’ e,
agora, ‘Douglas’. Outra vez um negro marca pontos no índice de vítimas da
violência urbana. Eis a guerra civil que não consigo ver o seu fim.
Presencio pela enésima vez uma mãe clamando por justiça, por verdade. Tal
verdade que apenas seu filho morto sentiu em seus últimos momentos de vida.
Verdade que todos nós sabemos, conhecemos, e insistimos em dizer que está tudo dentro da normalidade. Sinto
muito, mas não é normal pessoas morrerem por serem confundidas com bandidos.
Não é normal um agente preparado para zelar por nossa segurança agir precipitadamente
e matar um inocente. Não é legal ligar a TV e testemunhar mais uma vida perdida
pelo erro tático de uma instituição que deveria ser exemplo de legalidade e
esquema de segurança. Não desejo mais ver qualquer que seja a pessoa - negra,
asiática, indígena, caucasiano, de qualquer origem - vítima de um descaso como
esse. Quem lidera as manifestações como demonstração de revolta ao tratamento
que o Estado impõe é o mesmo povo que paga o salário de quem deveria estar ali
para os proteger, e jamais oprimir.
O curioso é que estes homens que vestem a farda e são ‘símbolo’ da
segurança muitas vezes tem sua origem nas comunidades. Ou será que somos
ingênuos de acreditar que os filhos da burguesia almejam tal cargo? Tais homens
deveriam, mais do que ninguém, saber que nem todos que estão nas comunidades
estão a serviço da ‘badidagem’. O que precisamos é de seres com princípios.
Pessoas que não reproduzam o preconceito da elite com ações autoritárias e subjugadoras.
Precisamos de humanidade! Nunca trarão a
vida de Douglas de volta. O que nos resta é esperar pela verdade, que já
sabemos, mas a justiça ainda prefere se fazer de cega. Aliás, é completamente
compreensível tal reação.
Ser negro no Brasil é sair de casa e não saber se iremos voltar vivos,
pois podemos facilmente ser confundidos com bandidos e não ter direito a defesa.
Ser negro no Brasil é não saber se teremos uma morte digna, ou seremos
assassinados por engano e jogados numa vala qualquer. Ser negro no Brasil é ser
taxado de cognitivamente insuficiente. Ser negro no Brasil é ser olhado com
preconceito por outro negro. Ser negro no Brasil é viver com desconfiança e
insegurança. Ser negro no Brasil é ser alvo de piadas na roda de amigos numa
mesa de bar. Ser negro no Brasil é carregar um fardo pesado demais.
terça-feira, 22 de abril de 2014
O que o brasileiro médio sabe da América Latina?
A elite brasileira, a imprensa e a escola há muito
tempo têm parte nessa nossa ignorância sobre a região do mundo na qual
estamos inseridos
Por Wagner Iglecias, em Carta Maior
No ofício de professor universitário e ligado a um programa de pós-graduação sobre Integração da América Latina sempre que posso recomendo à garotada de graduação que assim que, tiverem tempo e algum dinheiro, metam uma mochila nas costas e saiam pelo nosso continente.
Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o que e o quanto de América Latina o brasileiro médio sabe. Mas posso apostar que é muito pouco. Provavelmente menos até do que nossos vizinhos conhecem sobre o nosso país. E de maneira ainda mais superficial. E isso é sim um problema. Num mundo globalizado e dividido em grandes blocos como hoje, nada mais estratégico do que a aproximação com as nações com as quais um país tem identidades históricas, geográficas, culturais e econômicas.
Suponho que os séculos em que América hispânica e a América lusitana estiveram mutuamente de costas uma para a outra colaboraram para nossa ignorância sobre o que se passa aqui pertinho da gente.
Aliás, o próprio termo América Latina é invenção forânea, europeia. Coisa de franceses, no início do século XIX. Dizem que Napoleão III desejava assenhorar-se desta parte do mundo recém-liberto do jugo espanhol e português. Queria impedir que a Inglaterra, anglo-saxônica, o fizesse. Daí o recurso napoleônico à nossa latinidade em comum, entre nossos jovens países desta parte do mundo com a França.
Mas bote-se aspas nesse “em comum”, já que naquela altura do campeonato por essas bandas talvez só a pequena elite branca descendente de espanhóis e portugueses tivesse alguma identidade cultural e linguística com a nobreza europeia. De resto, éramos nações predominantemente indígenas, negras ou mestiças.
A França, a bem da verdade, chegou até a emplacar um governo no México já independente. Botou no poder Maximiliano de Habsburgo, um nobre austríaco, que governou aquele país entre 1864 e 1867, mas que acabou deposto e assassinado por nacionalistas mexicanos. Foi um projeto frustrado, e quem na verdade conseguiu levar a América Latina para sua área de influência foi a Inglaterra, e, mais tarde, os EUA.
A elite brasileira, portanto, há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. Mas para além de séculos de História olhando pro Atlântico e de costas para a América Latina, nossa escola e nossa imprensa também têm suas parcelas no desconhecimento quase completo que o brasileiro médio tem sobre nossos vizinhos. É pouquíssimo o que se ensina sobre América Latina para nossas crianças e adolescentes. Provavelmente o assunto mais abordado seja a Guerra do Paraguai, sempre naquela versão oficial de que Solano Lopez era um terrível ditador que pôs em risco a soberania de três jovens nações democráticas como Argentina, Brasil e Uruguai.
Heróis de esquerda ou de direita da libertação da América Latina, como San Martin, Sucre, Hidalgo, Artigas, O´Higgins ou Simón Bolívar, provavelmente jamais foram citados na maioria das nossas escolas. Bolívar, aliás, que mais do que um brilhante militar foi um pensador com sólida formação intelectual, passa inclusive em brancas nuvens em muitos cursos de Ciência Política das universidades brasileiras, os mesmos nos quais Jay, Madison e Hamilton, pais fundadores dos EUA, são leitura obrigatória.
E a imprensa? Quantos correspondentes do jornalismo pátrio temos na América Latina? Muito poucos. Dizem que no passado foram até mais, não sei. Quais os temas historicamente recorrentes nas nossas tevês, revistas e jornais sobre nossos vizinhos? Copa Libertadores da América de futebol, crise econômica argentina, o regime cubano, o comércio popular na fronteira paraguaia, o tráfico de drogas, a Copa do Mundo de 1970 no México…e vamos parando por aí. O brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona, Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último, provavelmente odeia os outros três.
Fato é que não sabemos quase nada da região do mundo na qual estamos inseridos. Nossa elite branca e endinheirada sempre olhou para a Europa (primeiro Lisboa, depois Paris e Londres), e de algumas décadas pra cá tem Nova York e Miami como parâmetros. Não que as elites argentina, venezuelana ou mexicana, ou qualquer outra, sejam muito diferentes. Mas enfim, nossa elite tem como modelo os países ricos, e nutre ódio mortal por Cuba e seu regime socialista.
Detesta também governos de esquerda mais recentes da região, como nos casos de Venezuela e Argentina. Os termos venezuelização e argentinização, cada vez mais usados em nosso país, que o digam. Nossa elite talvez até nutra alguma simpatia pelo uruguaio Mujica, que apesar de esquerdista tem sua agenda liberal de governo, calcada em direitos civis como união homoafetiva e legalização da maconha. E nossa elite não tem formação e informação suficientes para compreender outros governos de esquerda do continente, como a Bolívia ou o Equador. Na dúvida, porém, dá-lhe adjetivos como populistas e caudilhos a quaisquer governantes nacionalistas que surjam na vizinhança.
Para a grande maioria de nós, brasileiros, seja nossa elite, seja o cidadão médio influenciado por ela, países como a Bolívia e o Peru são no máximo destinos turísticos exóticos. Colômbia e Venezuela, para além dos estereótipos propagados na imprensa, seriam apenas rota de passagem nas viagens aos EUA. O Equador e os países da América Central são tão conhecidos entre nós quanto a Tailândia, Moçambique ou a Bulgária. E o que dizer de Guiana e Suriname, que a rigor não são latino-americanos culturalmente falando, mas que se proclamam cada vez mais sul-americanos? Bem, para o brasileiro médio, talvez a Guiana e o Suriname sejam tão familiares quanto Netuno e Plutão. É uma pena!
(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.
Fonte: Revista Forum
Por Wagner Iglecias, em Carta Maior
| O
brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona,
Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último,
provavelmente odeia os outros três. Fonte: IPS |
No ofício de professor universitário e ligado a um programa de pós-graduação sobre Integração da América Latina sempre que posso recomendo à garotada de graduação que assim que, tiverem tempo e algum dinheiro, metam uma mochila nas costas e saiam pelo nosso continente.
Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o que e o quanto de América Latina o brasileiro médio sabe. Mas posso apostar que é muito pouco. Provavelmente menos até do que nossos vizinhos conhecem sobre o nosso país. E de maneira ainda mais superficial. E isso é sim um problema. Num mundo globalizado e dividido em grandes blocos como hoje, nada mais estratégico do que a aproximação com as nações com as quais um país tem identidades históricas, geográficas, culturais e econômicas.
Suponho que os séculos em que América hispânica e a América lusitana estiveram mutuamente de costas uma para a outra colaboraram para nossa ignorância sobre o que se passa aqui pertinho da gente.
Aliás, o próprio termo América Latina é invenção forânea, europeia. Coisa de franceses, no início do século XIX. Dizem que Napoleão III desejava assenhorar-se desta parte do mundo recém-liberto do jugo espanhol e português. Queria impedir que a Inglaterra, anglo-saxônica, o fizesse. Daí o recurso napoleônico à nossa latinidade em comum, entre nossos jovens países desta parte do mundo com a França.
Mas bote-se aspas nesse “em comum”, já que naquela altura do campeonato por essas bandas talvez só a pequena elite branca descendente de espanhóis e portugueses tivesse alguma identidade cultural e linguística com a nobreza europeia. De resto, éramos nações predominantemente indígenas, negras ou mestiças.
A França, a bem da verdade, chegou até a emplacar um governo no México já independente. Botou no poder Maximiliano de Habsburgo, um nobre austríaco, que governou aquele país entre 1864 e 1867, mas que acabou deposto e assassinado por nacionalistas mexicanos. Foi um projeto frustrado, e quem na verdade conseguiu levar a América Latina para sua área de influência foi a Inglaterra, e, mais tarde, os EUA.
A elite brasileira, portanto, há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. Mas para além de séculos de História olhando pro Atlântico e de costas para a América Latina, nossa escola e nossa imprensa também têm suas parcelas no desconhecimento quase completo que o brasileiro médio tem sobre nossos vizinhos. É pouquíssimo o que se ensina sobre América Latina para nossas crianças e adolescentes. Provavelmente o assunto mais abordado seja a Guerra do Paraguai, sempre naquela versão oficial de que Solano Lopez era um terrível ditador que pôs em risco a soberania de três jovens nações democráticas como Argentina, Brasil e Uruguai.
Heróis de esquerda ou de direita da libertação da América Latina, como San Martin, Sucre, Hidalgo, Artigas, O´Higgins ou Simón Bolívar, provavelmente jamais foram citados na maioria das nossas escolas. Bolívar, aliás, que mais do que um brilhante militar foi um pensador com sólida formação intelectual, passa inclusive em brancas nuvens em muitos cursos de Ciência Política das universidades brasileiras, os mesmos nos quais Jay, Madison e Hamilton, pais fundadores dos EUA, são leitura obrigatória.
E a imprensa? Quantos correspondentes do jornalismo pátrio temos na América Latina? Muito poucos. Dizem que no passado foram até mais, não sei. Quais os temas historicamente recorrentes nas nossas tevês, revistas e jornais sobre nossos vizinhos? Copa Libertadores da América de futebol, crise econômica argentina, o regime cubano, o comércio popular na fronteira paraguaia, o tráfico de drogas, a Copa do Mundo de 1970 no México…e vamos parando por aí. O brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona, Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último, provavelmente odeia os outros três.
Fato é que não sabemos quase nada da região do mundo na qual estamos inseridos. Nossa elite branca e endinheirada sempre olhou para a Europa (primeiro Lisboa, depois Paris e Londres), e de algumas décadas pra cá tem Nova York e Miami como parâmetros. Não que as elites argentina, venezuelana ou mexicana, ou qualquer outra, sejam muito diferentes. Mas enfim, nossa elite tem como modelo os países ricos, e nutre ódio mortal por Cuba e seu regime socialista.
Detesta também governos de esquerda mais recentes da região, como nos casos de Venezuela e Argentina. Os termos venezuelização e argentinização, cada vez mais usados em nosso país, que o digam. Nossa elite talvez até nutra alguma simpatia pelo uruguaio Mujica, que apesar de esquerdista tem sua agenda liberal de governo, calcada em direitos civis como união homoafetiva e legalização da maconha. E nossa elite não tem formação e informação suficientes para compreender outros governos de esquerda do continente, como a Bolívia ou o Equador. Na dúvida, porém, dá-lhe adjetivos como populistas e caudilhos a quaisquer governantes nacionalistas que surjam na vizinhança.
Para a grande maioria de nós, brasileiros, seja nossa elite, seja o cidadão médio influenciado por ela, países como a Bolívia e o Peru são no máximo destinos turísticos exóticos. Colômbia e Venezuela, para além dos estereótipos propagados na imprensa, seriam apenas rota de passagem nas viagens aos EUA. O Equador e os países da América Central são tão conhecidos entre nós quanto a Tailândia, Moçambique ou a Bulgária. E o que dizer de Guiana e Suriname, que a rigor não são latino-americanos culturalmente falando, mas que se proclamam cada vez mais sul-americanos? Bem, para o brasileiro médio, talvez a Guiana e o Suriname sejam tão familiares quanto Netuno e Plutão. É uma pena!
(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.
Fonte: Revista Forum
segunda-feira, 21 de abril de 2014
'Herói' Tiradentes nunca se colocou a favor da abolição da escravidão e deve ser alvo de piadas
Enforcado aos 21 de Abril de 1792, foi entronizado no panteão nacional pela República e muito especialmente cultuado sob a última ditadura que vivemos, entre 1964 e 1985. O fato de ter sido um militar de tropa paga, com patente de alferes (leia-se, subtenente), certamente tem a ver com essa entronização e a exacerbação das celebrações em sua homenagem.
Talvez sua naturalidade mineira tenha colaborado para reforçar esse processo de mitificação, que poderia ter alcançado personagens militares de outros movimentos do passado colonial de maior enraizamento social e impacto político, como foram a Conspiração dos Alfaiates, na Bahia, em 1798, e a Revolução Pernambucana, de 1817. Arrisco a conjecturar, portanto, que a celebração do alferes Tiradentes exprime a importância que Minas Gerais teve e tem na vida política nacional - e, alto lá, aqui quem escreve é um paulista, com muito orgulho.
A importância de Minas, porém, é insuficiente para o fato de Tiradentes ser um "herói" verdadeiramente popular. Explicaria apenas o empenho das elites em celebrá-lo, mas não o da população em geral.
O entendimento dessa popularidade certamente tem a ver com o perfil, as contradições e a trajetória do próprio personagem. Ele, como já demonstrou Kenneth Maxwell, esteve longe de ser o líder da Conspiração Mineira de 1788-89, ou um pobretão em meio à gente bem posicionada socialmente.
Tiradentes jamais se colocou a favor da abolição da escravidão, como bradam algumas lideranças políticas mineiras e magistrados pátrios da atualidade Luiz Carlos Villalta, professor da UFMG, sobre a imagem popular de Joaquim José da Silva Xavier
Todavia, foi o maior ativista do movimento e aquele que o levou da esfera privada, das reuniões secretas, para o espaço público, corporificado nos caminhos, nas tavernas, nas casas das meretrizes etc.
Um tipo meio fanfarrão, é certo. Mas, ao mesmo tempo, um personagem capaz de juntar, no discurso político, a consciência de ser um homem de origem europeia nascido na América (como se diria à época, um "mazombo"), propugnando o direito e a capacidade de gente como ele participar do governo, à denúncia da espoliação colonial materializada no monopólio comercial metropolitano e no arrocho tributário.
Foi igualmente hábil e lúcido para misturar textos e autores diferentes, indo do padre Antônio Vieira - um jesuíta, o maior orador sacro que já passou pelo púlpito cristão - ao abade Raynal, grande filósofo das luzes, passando ainda por um livro que continha leis do nascente Estados Unidos da América.
Boquirroto, arguto, mediador cultural, Tiradentes conseguia ainda cultivar amizades entre homens marcados por ressentimentos mútuos, como o padre José da Silva Rolim (contrabandista, comerciante de escravos, concubinário e valentão) e o contratador de impostos Joaquim Silvério dos Reis (o traidor, nosso "Judas"!).
Foi capaz, ademais, de superar ele mesmo inimizades, como aquela que norteava sua relação com Tomás Antônio Gonzaga. Teve a hombridade de não incriminar seus companheiros de infortúnio quando os conspiradores foram presos.
Celebremos o Tiradentes, e sempre nos lembremos que, como muitos de nós, ele 'carregou algo na cabeça', isto é, foi corno Luiz Carlos Villalta, professor da UFMG, sobre Joaquim José da Silva Xavier
Tiradentes, por sua vez, morreu resignado, traído e supliciado, em grande paralelo com Jesus Cristo. Figura melhor para cair no gosto popular não haveria! Um autêntico brasileiro avant-la-lettre. Traduzindo, antes que houvesse uma identidade brasileira constituída e oposta à lusitana, ele trazia os "cacos" que seriam juntados ao longo dos séculos 19 e 20 e que fazem parte do que entendemos como o "ser nacional".
Celebremos, portanto, o Tiradentes. E sempre nos lembremos que, como muitos de nós, ele "carregou algo na cabeça". Isto é, foi corno, ao mesmo tempo em que prometia pagamento às prostitutas para depois da Revolução. Quer melhor brasileiro do que este, justamente alguém que, como nós mesmos, merece ser alvo de nossas próprias piadas?
Fonte: Notícias - UOL
TIRADENTES: UM HERÓI INVENTADO
Assim como, depois de
1889, Zumbi dos Palmares foi elevado a herói, Tiradentes teve sua
façanha inventada e logo, reconhecida, sendo transformada em dia de
feriado nacional.Todos os anos, dia 21 de abril, escolas, repartições públicas, empresas privadas, indústrias de todo tipo, comércios e outros serviços, fecham as portas para mais um feriado instituído pelo governo federal. Mas alguém lembra que feriado é este? Alguns diriam: “Ora, é o ‘dia’ de Tiradentes”. Dentre estes alguns, poucos diriam ao acrescentar que é feriado comemorativo a Tiradentes: “é feriado de Tiradentes, aquele herói que lutou pela independência do Brasil e foi morto e esquartejado”. A realidade mostra que ninguém sabe quem realmente foi Tiradentes e que a população pouco sabe a respeito, pois o feriado contenta a quase todos. Mas será que Tiradentes foi esse herói que os livros escolares apresentam aos alunos? Será que o objetivo de Tiradentes e dos outros inconfidentes era realmente a independência do Brasil? Será que este “herói” morreu em 21 de abril de 1792? Será que Tiradentes foi um herói nacional? A historiografia recente mostra que este homem não foi nada do que dizem ser.
Uso, pois, excertos de uma entrevista na TV Capixaba, do Espírito Santo do historiador Clério José Borges de Sabt Anna, concedida a Marcelo Carlos em 21 de abril de 2008:
“Joaquim José da Silva Xavier, o nosso Tiradentes, herói nacional a partir da data da proclamação da República era considerado um vilão até 15 de Novembro de 1889. Tiradentes foi apenas um bode expiatório de uma revolução que estava mais preocupada com o quinto do ouro das Minas Gerais que era enviado à Portugal. Tiradentes nasceu na Vila de São Jose Del Rei (atual cidade mineira de Tiradentes) em 1746, porém foi criado na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto). Tiradentes era alferes, na hierarquia militar antiga, a patente de oficial abaixo de tenente. Participaram da tentativa de derrubar o governo português, por exemplo, dois coronéis, Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antônio de Oliveira Lopes, e dois poetas famosos até hoje, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.
A clássica imagem de Tiradentes (de barba e cabelo comprido) é fictícia. Ele nunca possuiu cabelos compridos, nem barba. Seja em sua época de militar (posto em que os membros do exército devem moderar sua quantidade de pelugem pelo rosto), seja em seu período na prisão (os pelos eram cortados a fim de evitar piolhos), ou mesmo no momento de sua execução (todos os condenados à forca deveriam ter a cabeça e a barba raspadas). A lembrança de Tiradentes e de seu movimento se tornaram importantes, a ponto de receberem interesse nacional, a partir da Proclamação da República (15/11/1889). Nesse momento, os novos governantes (Marechal Deodoro e Marechal Floriano) necessitavam criar um novo país, com novos valores, novas idéias e, especialmente, uma nova história e novos heróis, dos quais todas as pessoas deveriam se orgulhar e se submeter. A imagem cabeluda se construiu, para se assemelhar a figura do condenado à de Jesus Cristo, aumentando seu tom de mártir, vítima e herói bondoso. Para fazer com que as pessoas tivessem o seguinte pensamento: "da mesma forma que Cristo morreu pela humanidade, Tiradentes morreu para salvar o Brasil" E todos se orgulhariam do sujeito, da terra que ele supostamente defendeu, e procurariam espelhar-se em seu caráter heróico.”
Tiradentes é um herói inventado.
A partir de 15 de novembro de 1889, houve um trabalho significativo por parte do governo republicano nacional para transformar Tiradentes em herói nacional, precursor da Independência do Brasil, caracterizando-o como Cristo, sendo Tiradentes um ser quase sobrenatural, que apesar de todas as imperfeições, deveria inspirar as virtudes do homem, sendo um verdadeiro mártir, símbolo da resistência, da divisão, da independência do Brasil. Tudo isso para substituir a figura de Dom Pedro I, que a 7 de setembro de 1822 proclamou a independência, indispondo-se com o pai, Dom João VI e com a terra em que havia nascido, Portugal. Queriam os republicanos, substituir todas as figuras nacionais de relevo, obviamente monárquicas (sistema de governo, até 1889, utilizado pelo Brasil), por criaturas inventadas, revolucionários anarquistas, homem fictícios, verdadeiros semideuses inexistentes.
Conforme Thais Nívea de Lima Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais, dissertou na Revista Brasileira de História, “há muito tempo os jornais têm dado espaço ao tema da Inconfidência Mineira, quase sempre para a exaltação de Tiradentes como herói e mártir, usando-o como modelo em discursos em geral de natureza nacionalista e/ou moralista. A história de Tiradentes passou a ocupar espaço na imprensa com o crescimento do movimento republicano na segunda metade do século XIX e, mais ainda, com a instalação da própria República. Desde então, artigos, poemas, reportagens, ensaios e outras modalidades de textos têm sido publicados prodigamente, sobretudo no momento da celebração da morte do herói, a 21 de abril”. Relata ainda “Se a Inconfidência Mineira tem sido elemento de suporte a uma determinada construção historiográfica e a projetos e posicionamentos políticos desde as últimas décadas do século XIX, Tiradentes desponta como seu símbolo, síntese das idéias das quais o movimento seria o precursor, no Brasil. Ele se tornou, talvez, o personagem mais popular da história nacional, adquirindo contornos heróicos e status de mito político. Apesar de muito marcada pela ação dos republicanos e de seus interesses, a construção desse perfil de Tiradentes não se deveu apenas a eles. Da popularidade presumida à transformação em herói e mito político, Tiradentes percorreu um caminho sulcado pela ambiência cultural de seu próprio tempo e pela herança deixada por ela em tempos posteriores. Muitas de suas representações foram, sem dúvida, construídas e manipuladas”... “Alguns poucos trabalhos têm buscado esse manancial e têm aberto as fronteiras para os avanços neste campo. José Murilo de Carvalho já havia indicado alguns caminhos para a pesquisa dessa problemática, discutindo, em ‘A formação das almas’, a construção do mito de Tiradentes pelos republicanos no final do século XIX. Seguindo a trilha traçada por Maurice Agulhon para a França, Carvalho tratou da apropriação, no Brasil, de um conjunto de símbolos e mitos republicanos de matriz francesa, no processo de estruturação da República brasileira. Inspirados por esse trabalho, temos, já na década de 90, as análises de Eliana Dutra e de Sérgio Vaz Alkmin, que se preocuparam, especialmente, com o processo de formulação de uma imagem sacralizada e cristianizada da Inconfidência Mineira e de Tiradentes, tomando como base os relatos dos frades que assistiram os inconfidentes em seu período de prisão no Rio de Janeiro. Esse tipo de abordagem representa, de fato, um retorno aos documentos, a valorização de uma pesquisa empírica mais apurada, a busca de uma nova leitura, de aspectos ainda não tratados nestas fontes que, apesar de já muito utilizadas, ainda têm muito a revelar”. Diz ainda: “ficam claros alguns aspectos importantes na construção do perfil heróico de Tiradentes, que acaba por utilizar suas fraquezas, sua situação social inferior, e até mesmo seus supostos erros, como elementos de valorização de sua pessoa e de sua atuação. No fim, todos acabam por concordar que, pela morte, ele superou todas as restrições, qualquer que fosse sua natureza, e fez despontar, postumamente, todas as suas "verdadeiras" qualidades. Não é difícil perceber as possibilidades de aceitação dessa representação — e, também, de sua manipulação — junto ao público em geral, a partir de uma percepção deste Tiradentes que, apesar de pobre e fraco, poderia simbolizar as conquistas de toda uma nação.” Thais Fonseca ainda crítica os que tentam inutilmente alimentar a estória de que Tiradentes foi realmente um herói: “Especialmente em Minas Gerais, os jornais acabaram por tornar-se porta-vozes de uma versão oficial da história, e de uma posição francamente favorável à exaltação patriótica de Tiradentes. Entre os que foram pesquisados, o único ainda remanescente, o Estado de Minas, mantém essa postura, não obstante publique entrevistas com historiadores da vertente revisionista, em matérias nas quais procura polemizar as divergências historiográficas. Mas a "voz" do jornal se faz ouvir, por meio de editoriais e de algumas colunas assinadas, dos seus quadros fixos. E nelas, não raro, apela-se ainda para os clássicos defensores de uma história da nação: ‘O Brasil é o único país da América em que existe, há mais de um século, uma campanha sistemática de desmoralização do precursor da independência.’ Essa frase de Waldemar de Almeida Barbosa resume um dos paradoxos da historiografia brasileira. Paradoxo que não chega a ser espantoso porque volta a comprovar o complexo de inferioridade e síndrome de catástrofe que envolvem a cultura nacional. Esse é o pretexto para o jornalista, ferrenho defensor de uma representação heróica de Tiradentes, retomar sua série de investidas contra o que ele considera paradoxos da historiografia brasileira, ou seja, o revisionismo”.
Os que ficaram pasmos com a desconstrução feita em relação a figura mítica de Tiradentes, espantar-se-ão ainda mais com o estudo de Laura Pinca, no artigo “Tiradentes, o bode expiatório” para a Associação Cultural Montfort, o qual transcrevemos integralmente abaixo:
“Novos estudos históricos apresentam uma inconfidência mineira diferente daquela que nos narram os livros didáticos.
Embora a historiografia oficial considere a inconfidência mineira (1789) como uma grande luta para a libertação do Brasil, o historiador inglês Kenneth Maxwell, autor de "A devassa da devassa" (Rio de Janeiro, Terra e Paz, 2ª ed. 1978.) que esteve recentemente no Brasil, diz que "a conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa", e que objetivava, não a independência do Brasil, mas a de Minas Gerais.
Esses novos estudos apresentam um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória. Segundo Maxwell, Joaquim José da Silva Xavier não foi senão o "bode expiatório" da conspiração. (op.cit., p. 222) "Na verdade, o alferes provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais amplos do movimento." (p.216) O que é natural acreditar. Como um simples alferes (o equivalente a tenente, hoje) lideraria coronéis, brigadeiros, padres e desembargadores?
A Folha de S. Paulo publicou um artigo (21-04-98) no qual se comentam os estudos do historiador carioca Marcos Antônio Correa. Correa defende que Tiradentes não morreu enforcado em 21 de abril de 1792. Ele começou a suspeitar disso quando viu uma lista de presença da Assembléia Nacional francesa de 1793, onde constava a assinatura de um tal Joaquim José da Silva Xavier, cujo estudo grafotécnico permitiu concluir que se tratava da assinatura de Tiradentes. Segundo Correa, um ladrão condenado morreu no lugar de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida pela maçonaria. Testemunhas da morte de Tiradentes se diziam surpresas, porque o executado aparentava ter menos de 45 anos. Sustenta Correa que Tiradentes teria sido salvo pelo poeta Cruz e Silva (maçom, amigo dos inconfidentes e um dos juízes da Devassa) e embarcado incógnito para Lisboa em agosto de 1792.
Isso confirma o que havia dito Martim Francisco (irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva): que não fora Tiradentes quem morrera enforcado, mas outra pessoa, e que, após o esquartejamento do cadáver, desapareceram com a cabeça, para que não se pudesse identificar o corpo.
"Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria pelo Brasil". Como só tinha uma, talvez Tiradentes tenha preferido ficar com ela.”
A proclamação da república, em 1889, iniciou a desvalorização da história nacional, tentando seus precursores, inventar personagens e dignificá-los para assim poderem justificar em seus atos, a grandeza de feitos inexistentes. Mentiras que documentos contrariam. Atribui-se a Tiradentes um falso perfil, falsos atos, quando na verdade não existe nem mesmo a certeza de que ele tenha sido morto na data em que se celebra o feriado nacional. 120 anos de mentira. A ele Floriano Peixoto atribui igualmente uma célebre frase, mas que ele nunca disse (ao menos não deixou comprovação alguma disso), mas que foi copiada tal qual a Redentora, a Princesa Dona Isabel, disse em 1888, quando assinou a lei Áurea: “mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar uma raça”, adulterando-se e copiando-se a frase como sendo proferida por Tiradentes, que teria dito: “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria pelo Brasil”.
Diante de tantos argumentos, estudos históricos de relevância, complicações, revisões dos textos e artigos escritos, torna-se ridículo alimentar uma farsa que ainda se mantém pela ignorância popular e pelas mentiras republicanas. Seria 21 de abril o dia da Mentira?
– Texto originalmente publicado no blog “Monarquia Já”.
21 de abril deveria, sim, ser feriado. Mas um feriado em reconhecimento à sabedoria da grande Rainha Dona Maria I de Portugal (1734-1816), que destruiu a Inconfidência Mineira e fez com que os criminosos inconfidentes caíssem por terra.
sábado, 19 de abril de 2014
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