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sábado, 28 de junho de 2014

Manobra de recomeço


Imagem: Reprodução


Começar de novo. Todos nós temos essa oportunidade, pelo menos uma vez na vida. Queremos que nossas relações sejam duradouras. Vez por outra essas relações terminam, ou ocorre uma pausa. Ou nos prendemos dentro de um planeta particular para fugir da realidade. Muitos quando percebem que a estrada está difícil, e sem retorno, resolvem correr para o acostamento. Miguel me ensinou isso através de uma de suas curiosas personagens. Mas é preciso recomeçar. Aliás, recomeçamos todos os dias, assim como também morremos todos os dias. Já falei sobre isso anteriormente. Recomeçar é sinônimo de ressuscitar. Ter a oportunidade de fazer novo de novo, realizar diferente, seguir o caminho que não quisemos seguir da primeira vez. Mas isso não quer necessariamente dizer que estivemos de tudo errado. Tudo é uma questão de ponto de vista. A mesma estrela cadente não cai, morre, duas vezes. Não diferente disso, não desejamos fazer as mesmas escolhas que nos conduziram para o recomeço. Pois queremos sempre acertar. Mas, vez por outra é preciso retornar, digo, recomeçar. Às vezes tenho a impressão que o mundo está louco demais para tal manobra. Por isso as pessoas seguem desenfreadas suas trilhas pessoais. Esses têm medo de não chegar ao objetivo se não correrem. Grande bobagem! Todos nós iremos chegar ao fim dessa grande estrada. Uns menos exaustos que outros por terem a paciência de parar, ver que aquele não era o caminho e redefinirem a rota. A arte do viver necessita de algumas vírgulas – já escrevi sobre isso também -, redefinições, coragem, humildade. Eis o ponto fundamental! Só recomeça sem medo quem tem humildade. Reiniciar exige o reconhecimento de escolhas mal sucedidas. É um grande aprendizado! Sem dizer que recomeçar é mais fácil. Já carregamos conosco toda a experiência do que foi vivido. Estamos capacitados para romper barreiras que antes não parecia possível. E se for preciso recomeçar novamente o faremos, pois sabemos que de alguma forma chegaremos ao nosso destino.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Minha relação com a vírgula


Imagem: Reprodução


Tenho uma amiga que não perde a oportunidade de dizer que sou um homem cheio de teorias. Acredito que todos sejam. O que tenho mesmo é o hábito de abrir um monte de portas e não fechar nenhuma. Quando estava no Ensino Médio fiz um texto na aula de redação que pensei ser a obra prima de todos os meus trabalhos escolares. Toda minha dedicação, pesquisa, leituras, influências estavam ali. Todo o meu pensamento e reflexão condensado nas poucas linhas daquela folha. Tinha certeza de que seria bem avaliado por aquele exercício. Doce engano! O professor disse que faltavam vírgulas. Não compreendi, mas aceitei a disciplina. Ele sabia o que dizia, apesar de ser exageradamente exigente. Passei a prestar mais atenção às pontuações. Passei a utilizar a vírgula descompassadamente. Já na faculdade, no último período, uma das professoras que mais admirava elogiou minhas redações e pediu para que tomasse cuidado com o excesso de vírgulas. Aquelas palavras ecoaram em meus pensamentos por um longo tempo. ‘Tome cuidado com as vírgulas!’ Desde então, relacionei as vírgulas com minhas constantes pausas para reflexão, mania de enumerar coisas e acontecimentos, aquele hábito de abrir várias portas e não fechar nenhuma, tentar explicar o que não consigo. É como se ela tivesse me aconselhado: ‘Muito cuidado com seus pensamentos, teorias. Há portas que merecem estar sempre fechadas. Tais portas uma vez abertas inquietam toda nossa existência.’ Ela até hoje não sabe que interpretei assim aquele simples conselho ortográfico. Mais tarde, ao ter como companheira de trabalho uma professora de Português pude perceber que minha ligação com a vírgula era ainda mais forte que imaginava. Num momento de conversa na sala dos professores, ela me falava o quanto achava ser exagerada no uso de vírgulas. Apaixonei-me instantaneamente por aquele ser. Era como se estivesse me vendo no espelho. E como é bom perceber que não está sozinho neste vasto mundo! Nosso debate a esse respeito disso foi valioso, proveitoso. Ponderamos e rimos muito. Acredito que se alguém disser que ama vírgula pesará muito mais que dizer ‘eu te amo’. Amo vírgula! E uso porque amo pensar, pausar, enumerar, considerar, explicar, teorizar... Gosto que as portas estejam abertas para passar livremente por todas elas. Seria interessante causar uma grande revolução ortográfica e tornar obrigatório o uso de vírgulas sem medidas. Até mesmo colocá-la no lugar do ponto final. Que loucura! Para isso existe a reticências. Mas essa é outra história, outra relação...