segunda-feira, 10 de abril de 2017

O indivíduo na multidão


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Fotografia: Bob Wolfenson - Internet

Desde sempre somos incentivados a ter alguém e ser alguém com quem se queira estar. Isso sempre me soou estranho, forte, ditatorial. Não há a possibilidade de ser feliz só? Como assim? Estou próximo dos trinta anos e não ter uma namorada é, no mínimo, estranho. ‘Nem interesse em alguma garota?’, ‘Você namora escondido!’, ‘Não existe solteiro convicto.’,... Já ouvi expressões como essas e outras que não valem a pena citar.
Estar só significa para muitos uma maneira da vida o punir por algum erro que desconhecemos. Isso sempre me pareceu vazio, mesmo não sabendo defini-lo à minha maneira. Precisaria todo um preparo para chegar a uma definição próxima e vinda do meu interior, com o mínimo de influência externa o possível. E tudo ocorreu de forma curiosa.
Vivo cercado de pessoas todo o tempo. Prezo muito os momentos de solidão. Aliás, solidão tem pra mim um significado singular. É o momento de um contato real comigo mesmo, de autojulgamento, de um monólogo longo e inquietante, de uma cobrança conscientizadora. Apaixonante! Autoconhecimento. É o momento em que me apaixono por mim mesmo e, às vezes, me odeio também. Esses momentos sempre me soaram negativo, egoísta. As pessoas ao meu redor pensavam assim e queriam me moldar da mesma forma. Sempre foi muito cansativo tentar me adequar.
Tenho gostos peculiares para as pessoas do meu convívio social. Portanto, não é incomum que me sinta só na presença deles – ao participar de suas atividades sociais. Sempre me pergunto: ‘O que é que vim fazer aqui? Não quero estar aqui.’ Isso sim é perturbador. Sempre os convido para eventos que me interesso, mas dificilmente aceitam. Cada um cria suas desculpas e depois de ter passado a data expressam algum tipo de arrependimento por não ter ido, talvez para me fazerem sentir melhor e não tão ‘jogado de escanteio’.
Agradeço a Bob Wolfenson pela contribuição na construção de uma teoria sobre a beleza de estar só. Falo sobre Bob porque me interessei por sua exposição e não tinha companhia para ir à abertura. Fui só. Quando cheguei me senti deslocado. Inicialmente perturbador. Protagonizei altos diálogos mentais. Para não me sentir tão só me acompanhei de uma taça de espumante, mas logo a abandonei. Compreendi que minha alegria era estar onde queria, como desejava e em minha própria companhia e de alguns que chegaram e conversavam brevemente, como visita de beija-flor. Foi libertador.
Vivo em paz comigo e a multidão. Posso, e sou, um indivíduo preparado, ou mais capacitado, para estar só por escolha e, ao mesmo tempo, ter alguém para transbordar. É isso. Cresci para mim, além de mim. Posso colecionar novas pessoas que chegarão, continuar a zelar pelas que me rodeiam e ainda desejar estar só. Me sinto mais leve. Eu cansei de ter medo de ficar sozinho.

terça-feira, 14 de março de 2017

Pode sair, nem senti sua presença




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“Não tenho interesse em falar com você. Sua presença não significa nada pra mim. Não estou interessado em ouvir uma palavra que sai da sua boca. Quando pergunto se está ‘tudo bem’ é por pura educação forçada. Não sei nem a cor dos seus olhos. Não me recordo onde o conheci e porque continua a insistir uma amizade/relacionamento comigo. Não entendo como sua ficha ainda não caiu. Será que não percebe que meu diálogo com você se limita a ‘aham’, ‘sei’, ‘uhm’, ‘prossiga’ (com cara de poucos amigos)?! Sou M-O-N-O-S-S-I-L-Á-B-I-C-O! Isso quer dizer muita coisa. Não compreender esse tratamento é falta de interpretação da vida.
Agora me pergunta: ‘Por que você nunca falou isso claramente?’ Na verdade, detesto ter que ficar me explicando para pessoas como você. Tenho preguiça, muita preguiça. Ah... E quando estou rindo não é de você, muito menos para você. Sou realmente indiferente. Sua presença não me faz diferença. Para você estou constantemente atrasado, tenho muito trabalho, estou sempre ocupado.
 Já falei que nem sei a cor dos seus olhos, né?! Pois é, nem suas roupas reparo. Nem sei se está careca, com peruca, mudou o cabelo. Para te dizer a verdade, se me perguntar seu nome agora vou custar a lembrar. Te bloqueio da minha mente. Não há qualquer registro seu em meu mundo particular. Poderia me fazer um favor? Visto que não existe no meu mundo particular, poderia se retirar da minha presença física. E não se preocupe em dizer ‘tchau’. Nem vou me lembrar que um dia esteve aqui.”
 Tudo isso era o que o casal da mesa ao lado no restaurante dizia um ao outro silenciosamente, ao estar cada um com seu celular na mão verificando suas atualizações pessoais sem se olhar durante o almoço.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Os cérebros estão ocos. A empatia foi pro saco. A tolerância virou algo descartável

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 No tutorial de hoje vamos ensinar a construir relações com baixo limiar de tolerância. Você vai precisar de cola, barbante, cartolina, caneta e tesoura sem ponta. Recorte a cartolina em formato retangular e cole o barbante formando um cordão. Escreva em letras garrafais “RESPEITO É BOM E EU GOSTO”. Coloque no pescoço e use na rua, em casa e no trabalho focando exclusivamente no que você acredita merecer e ignorando quem à sua volta anseia pelo mesmo. Simples e prático: está pronto o mecanismo que tem nos tornado cada vez mais alheios ao outro, submersos em egocentrismo mimado.
Escutamos desde cedo que o nosso direito termina quando começa o do outro. Sempre achei essa máxima um tanto furada. Criança, pensava como havia sido relapsa a pessoa que elaborou tal teoria, sem ao menos nos deixar mapeadas as delimitações dessa suposta fronteira. Eu, por exemplo, achava que ao xingar meu irmão ele tinha o direito de replicar a injúria na mesma moeda. Ele, por sua vez, sentia-se credenciado a reagir com pontapés aos meus desaforos. “É desproporcional” eu gritava, pedindo socorro à minha mãe, que punia ambos nos tirando a TV. Meu irmão acreditava ter sido injustiçado, afinal quem começou merecia o pior castigo. Eu não me conformava com a equidade de tratamento dispensada a xingamentos e chutes. Minha mãe não tinha dúvidas de que estava certa. Três cabeças, três sentenças, e eu ainda procurando a demarcação desse limite que estipula até onde cada um pode ir.
Em uma sala pequena, entre pessoas da mesma família, com criação e valores semelhantes, eu já percebia a complexidade inerente ao convívio. Acomodar de maneira minimamente respeitosa nossas crenças, comportamentos e ideologias em uma sociedade multifacetada, portanto, não é tarefa das mais fáceis. Nós caminhamos desejando ser bons, mas tropeçamos em nossos próprios preconceitos. Falhamos no propósito de ser mais complacentes com aquilo que é estranho ao nosso mundo, mergulhados em ideais rígidos do que é certo ou errado. De repente nos vemos no meio de um fogo cruzado, munidos do desejo incontrolável de provar que temos razão, feridos pela fúria dos que tentam o mesmo do lado oposto.
A falta de maleabilidade com causas que destoam das nossas tem edificado muros entre nós — simbolicamente tão perigosos quanto aquele que criticamos do alto de nossa poltrona enquanto assistimos ao jornal. Alimentamos um misto de má vontade com ego inflado, de prepotência com apreço pelo confronto, de indisposição em ouvir com necessidade de falar e chegamos ao inevitável desfecho: culturas, vontades e histórias atropeladas pelo trator da intransigência. Porque olhar os outros com olhos menos severos dá trabalho. E, tragicamente, tripudiar muitas vezes dá prazer.
Eu não sei mensurar se machuca mais não ter a quimioterapia tratada com dignidade por conta de um turbante ou ver um símbolo de luta contra a subjugação do seu povo ser banalizado. Não sei dimensionar dor, categorizar discussões como quem coloca etiqueta em potes de plástico. Não sei se grafite é arte, se comprar cachorro é monstruosidade, se fui mais lesada pela direita ou pela esquerda. Se não há consenso sequer sobre se o vestido é azul e preto ou branco e dourado, como esperar um olhar linear sobre todas as subjetividades que nos cercam? Mas é preciso um pouco de disponibilidade em compreender as pessoas e toda a carga de vida que as acompanha. Enquanto insistirmos em pisotear aqueles que fogem dos padrões que sacramentamos como corretos, perdemos humanidade. A empatia respira por aparelhos. Mas é possível que se recupere.


 Texto extraído do site Revista Bula

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ainda mais sobre felicidade



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Há tempos venho tentando elabora algo concreto sobre algumas questões deixadas de lado nesse caminhar que é o viver. Tenho recusado muitos convites – que sempre quis recusar, mas não o fazia para manter o status social -, para reuniões sociais, happy hour e outras ocasiões. Imagino que essa recusa tem causado desconforto em meus convidantes. E em alguns casos, para mim totalmente libertador.
Recordo-me do tempo de colegial em que fizemos uma pesquisa sobre a biografia da literária Clarice Lispector.  Um dos pontos altos de nossa pesquisa foi a descoberta, a nível pessoal, da personalidade curiosamente singular dessa escritora. Segundo nossas investidas na vida privada da autora, Clarice tinha o hábito de ser convidada para jantares na casa de seus amigos íntimos. Até aí tudo bem. A grande questão é que costumeiramente ela decidia ir embora antes do jantar ser servido e sem dar explicações, como manda o ‘protocolo’. Nunca me esqueci disso. Ficou marcado como tatuagem em minha memória. Depois disso, nunca mais encontrei referências sobre essa informação. Repetíamos o fato durante a Feira Cultural como um mantra. Era aprova de que havíamos feito uma relevante pesquisa. Sempre quis ter a personalidade e coragem dessa mulher. Me aprimorei ao ponto de recusar convites, não sendo preciso sair antes do jantar ser servido. Em tempos de fotos em redes sociais para comprovar o quanto somos desejados, amáveis e sociáveis isso é completamente exótico. Isso me fez pensar sobre a felicidade e necessidade de esfregá-la na face alheia. O que é ser feliz?
Recordo-me das palavras de Clóvis de Barros Filho: “Vamos nos acostumando a admitir que, no momento em que a vida é vivida, temos que suportar inconvenientes para que alguma coisa melhor advenha. Mas não tem advindo. Portanto, faço um convite à vida. Um convite à realidade, às coisas como elas são. E ainda preferirei que elas sejam alegradoras. Se, com isso, eu tiver que pagar a pena do castigo eterno, da criatividade comprometida, de uma aposentadoria curta, de uma existência pouco longeva ou de um final de semana sem graça, pouco importa. Eu ainda prefiro a alegria de uma semana inteira de trabalho do que happy hour de sexta-feira depois das 18 horas, apenas para fazer uma pequena observação.”
Não posso resumir minha felicidade a momentos exclusivamente selecionados como, por exemplo, finais de semana, feriados prolongados e dias santos. A minha felicidade cabe em todo o instante. Sim. No trabalho árduo, no ócio, na solidão escolhida, no momento que desejo dividir com alguém, no prazer de não se explicar, no agir, no observar, na ausência e presença de responsabilidade. A felicidade é propriedade e receita particular de cada indivíduo. Busque a sua. Te convido a uma realidade alegradora.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre o adiar


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A maioria das pessoas inicia o ciclo anual com inúmeras promessas. O atravessar da zero hora mais parece um portal milagroso, na verdade completamente ilusório. O primeiro dia é de ressaca física ou moral. O segundo lembrando-se das desventuras da travessia. O terceiro é analisando as possibilidades viáveis das promessas feitas. A partir do quarto dia é rotina. É esquecimento. É adiamento. Talvez essa seja um dos males mais comuns à humanidade.
Não sabemos mais aproveitar nosso tempo de maneira satisfatória. Focalizamos no trabalho, ou no amor, às vezes em nada. Saímos desvairados pela vida. Compartilhamos links nas redes sociais sobre o tempo que perdemos e na prática não aproveitamos nada. Tenho a impressão que quem realmente aproveita não compartilha, pois não há tempo para os dois. Registram os melhores momentos para si mesmos, numa prática admiravelmente egoísta da memória. Não fazem questão de provar que são felizes. Até pouco tempo julgava pessoas que não se importavam com as redes. Hoje as compreendo. Sinceramente, queria assim ser. Quem sabe elas cumprem suas metas?! Frustram-se menos?! Quanta coisa temos adiado?
O fato é que deixar para depois não é um bom negócio. O café fica com gosto de passado, não há mais encanto, anoitece, acostuma-se com a saudade, tudo e nada mudam. Não podemos guardar o tempo para usá-lo depois, como se faz com dinheiro, alimento, combustível e várias outras coisas. É inútil tentar guardar o tempo deixando de usá-lo. É inútil desperdiçar o tempo. O tempo que não usamos está perdido para sempre.
Por isso, o conselho é: aproveite seu tempo com o que realmente importa e não te trará arrependimento. Aproveite todos os dias. Isso mais parece ‘papo de tia’ ou aqueles textos reflexivos que gostamos de escrever na adolescência. Mas a verdade é que Renato ecoa em minha mente: ‘Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou’... Mas ainda temos tempo. Não queira repetir as mesmas promessas para o próximo ciclo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Combinado


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Então você vem. Está tudo certo. Estou à sua espera. Além das malas, traga o que não tem tamanho. Traga o que não tem dimensão. Traga o invisível aos olhos. Sim! É uma exigência da minha parte. Na minha ‘casa’ não cabe rancor, mal dizer e discórdia. Coisas como essas são pesadas demais.
Desejo que venha leve. Sim! Quase flutuando. Chega logo. Mas venha com luz interna que extrapola pelos olhos. Vem com brilho. Com dignidade. Chega mais, na humildade. Achegue-se com bom humor. Vem na parceria. Deixe o julgamento com os juízes. Quando julgamos carregamos um fardo pesado demais. E já disse que te quero ver suave. Chega logo! E de coração aberto. Traga amor. Não esquece. Muito amor. Aqui já tem. Mas cabe sempre mais. Muito mais. Por favor, amor sem fim.
Ah... Alegria. Tenho certeza que lhe sobra. Cordialidade, por favor. Tenho uma queda especial por pessoas cordeais. Conquiste-me para a vida inteira. Não esconde o jogo, sei que há muita generosidade nessa mala. Use bastante. Tolerância, respeito, use. Use. Aliás, dê exemplo, crie tendência. É curioso como que quando uma pessoa vê a outra usando respeito trata logo um jeito de mostrar que o tem também. Diria que é contagioso. Um contágio necessário.
Seja agradável. Bastante. Tenho certeza que consegue. Sorria nas piadas sem graça. Não por falsidade, mas pela graça de quem a conta corajosamente no risco de sua sem graceza. Esteja aberto a opiniões diversas. Lembre-se: o diverso nos faz crescer. Aprendemos isso há algum tempo já. Tomara que não tenha esquecido. Ocupe seu espaço sem atrapalhar o outro, sem tentar diminuí-lo. Isso é feio. E se isso acontecer, vou preferir que vá embora - ou nem venha. Aliás, quando estiver chegando o momento de você ir embora me faça te pedir para ficar um pouco mais. Permita-me sentir saudade com antecedência. Deixe-me desejar que volte, antes mesmo de ir.
Então está combinado. É quase nada. Arrumei a ‘casa’. Preparei o coração. Estou esperando sua chegada tão sonhada. Vesti o melhor sorriso. Já está tudo perfumado esperando você. Está faltando você para ficar perfeito.