segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A ALEGRIA VESTE A TRISTEZA



Fabrício Carpinejar


Tenho uma predileção por uma frase de Federico Fellini: para a sombra existir, o sol deve estar a pique na cabeça.
Sem a luz, o escuro não se forma. Sem o escuro, a luz não tem sentido.
O mesmo acontece com a alegria.
Dentro da alegria mais genuína, mais intensa, mora a sombra da tristeza. A tristeza só existe em função da alegria. É o medo de perder a felicidade que faz com que você se esforce para mantê-la.
Não há alegria inteira, nem tristeza pura, uma depende da outra. Podemos transpirar euforia, mas sobreviverá uma pontinha de melancolia lá no fundo de nosso riso. Porque mantemos a consciência de que a alegria, por mais duradoura que seja, vai passar. Que ela logo se transformará em nostalgia, e que não estaremos mais plenos como daquele jeito de novo – e isso não é ruim e nem é bom, é inevitável da experiência. A tristeza dentro da alegria nos permite pensar e entender o quanto aquele momento é importante e que precisamos aproveitá-lo enquanto dura.
A alegria é esta vontade de ser para sempre que termina. A tristeza vem nos consolar a aceitar que o fim de uma lembrança não significa o fim de nossa vida.
De igual forma, dentro da tristeza mais severa, da depressão mais aguda, é possível notar a presença de uma alegria discreta, retraída, tímida. Tudo pode soar péssimo, mas um abraço, um quindim, um filme, o telefonema insistente de um amigo é capaz de nos devolver a vontade de dar a volta por cima. A simplicidade é terapêutica, a banalidade nos cura dos grandes males da solidão. Haverá sempre o sol por detrás das nuvens escuras dos pensamentos suicidas. Na sombra mais espessa de nosso temperamento, coexistem os raios solares minúsculos do contentamento, das dádivas da rotina e dos pequenos prazeres. Estaremos desolados com o tempo fechado e chuvoso do rosto, não enxergando nenhuma saída, mas a alegria se conservará perto e nos mostrará que a tristeza também passará, que é uma fase e um ciclo para absorver separações, desentendimentos e traumas. A lágrima brilhará como uma vidraça limpa e iluminada.
Se a tristeza é saudade dentro da alegria, a alegria é esperança dentro da tristeza. Nenhum sentimento é definitivo e completo.
A luz veste a sombra, a sombra veste a luz. A alegria costura a tristeza, a tristeza costura a alegria. Alfaiates que se revezam no longo pano dos dias.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p. 72
Porto Alegre (RS), 27/09/2015 Edição N°18307

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Acho que vou falar com você


Márcio Rodrigues

É, acho que vou. Acho que vou te falar sobre como fico feliz quando te vejo postar alguma notícia boa e como ouço todos as músicas que você compartilha. E como dou risadas das bobagens. Acho que vou dar voz às coisas que faço por você em silêncio.

Eu já abri a sua janela no chat tantas vezes que nem cabem nos dedos das mãos. Eu já me sabotei no meio do “digitando…”, eu já revi todas as suas fotos antigas do perfil. Já conheci parte do seu passado através da timeline do seu Instagram. E sim: aquele like numa foto de milhões de semanas atrás foi sem querer; mas nem sei se percebeu ou se fui só mais uma curtida a fim de curtir você.

Acho que vou falar com você. Acho que vou te contar como quero seu bem e como torço pelas suas vitórias. Acho que vou te contar que mesmo aqui de longe eu me sinto perto de você; acho que vou te falar que você pode ter a mim para contar suas coisas, mesmo que já tenha contado mil vezes, mesmo que não tenha a quem contar.

Eu não quero só pra mim o que sinto por nós dois.

Acho que vou encontrar uma maneira de falar com você e descobrir se aquela que comenta “<3” nas suas fotos tem um lugar a mais na sua vida além de um número numa rede social como eu; preciso dar uma chance pra minha intuição vencer.

Acho que vou falar com você só pra ver se acabo com essa minha loucura e começo com a minha felicidade. Acho que vou falar com você mirando a volta da paz para os meus dias e, quem sabe, te ter também – imagina? Mas quer saber? Ainda que eu não te tenha, acho que vou falar com você só pra te contar o quanto eu já te quis e ainda quero. Eu não consigo adivinhar como você vai reagir quando eu falar com você, mas eu já consigo sentir alegria só por dividir com você tudo aquilo que sempre guardei pra mim.

E mesmo que não fosse com você, eu acho que deveria falar. Eu preciso parar de matar minhas possibilidades antes mesmo que elas nasçam, preciso parar de me sentir coagida diante da beleza das outras pessoas, preciso parar de me diminuir diante de tudo e vendo algo dentro de mim só aumentar. Preciso parar de ter medo de tentar.

Acho que vou falar com você.

Devo começar com um ‘oi, tudo bem?’ ou talvez eu nem cumprimente e já comece falando o que penso, sei lá. Por Deus, onde vende o manual de como falar com alguém sem parecer uma pessoa desesperada?
No fim das contas, eu não tenho nada de muito incrível pra te falar além do meu desejo em te mostrar quem eu sou; além de deixar claro que você pode falar comigo quando quiser também. Acho que vou falar com você. As pessoas precisam saber quando alguém gosta delas.

Fonte: Entenda Os Homens

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

ENTRA OU SAI


Fabricio Carpinejar














Se deseja o bem do outro, amar é decidir.
Há aquele que não quer se afastar, só que não suporta ficar perto.
Há aquele que não consegue permanecer longe, porém não se esforça para conviver.
Há aquele que não sai definitivo de sua vida, muito menos entra de verdade.
Há aquele que não se despede e também não assume as dificuldades do recomeço.
Há aquele que não larga as lembranças, entretanto não promete mais nada.
Há aquele que não está junto, mas não está longe.
Há aquele que sente saudade quando distante e reclama do ódio quando perto.
Há aquele que não desaparece e tampouco ressurge, que não destrói de uma vez por todas a relação, tampouco reconstrói os laços.
Há aquele que não pretende se encontrar para não sofrer, só que não para de telefonar e mandar mensagens.
Há aquele que tortura com amor, bate com o beijo, perdura a mala em gaveta.
Há aquele que não esquece o passado e também não desobriga a sua companhia a seguir em frente.
Aquele é você.
Não resolve, não se define, nem vem nem vai, sempre em cima do muro das palavras.
Sem esperança, sem fé, sem confiança, prende a pessoa pelo ressentimento. Empaca romances, não liberta seu prisioneiro para a possibilidade de novos amores.
A relação se transforma num purgatório, numa cobrança insolúvel de dívidas, que jamais serão quitadas pois não existem dias felizes para fazer esquecer as datas infelizes.
Se deseja o bem do outro, amar é também desistir.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Estes não são seres humanos, nossos irmãos e irmãs?

O grau de civilização e de espírito humanitário de uma sociedade se mede pela forma como ela acolhe e convive com os diferentes. Sob este aspecto a Europa nos oferece um exemplo lastimável que beira à barbárie. O menino sírio de 3-4 anos afogado na praia da Turquia simboliza o naufrágio da própria Europa. Ela sempre teve dificuldades de aceitar e de conviover com os “outros”.

Geralmente a estratégia era e continua sendo esta: ou marginaliza o outro, ou o submete ou o incorpora ou o destrói. Assim ocorreu no processo de expansão colonial na Africa, na Asia e principalmnete na América Latina. Chegou a destruir etnias inteiras como aquela do Haiti e no México.

O limite maior da cultura européia ocidental é sua arrogância que se revela na pretensão de ser a mais elevada do mundo, de ter a melhor forma de governo (a democracia), a melhor consciência dos direitos, a criadora da filosofia e da tecnociência e, como se isso não bastasse, ser a portadora da única religião verdadeira: o cristianismo. Resquícios desta soberba aparece ainda no Preâmbulo da Constituição da União Européia. Aí se afirma singelamente:

“O continente europeu é portador de civilização, que seus habitantes a habitaram desde o início da humanidade em suecessivas etapas e que no decorrer dos séculos desenvolveram valores, base para o humanismo: igualdade dos seres humanos, liberdade e o valor da razão…”

Esta visão é somente em parte verdadeira. Ela esquece as frequentes violações destes direitos, as catástrofes que criou com ideologias totalitárias, guerras devastadoras, colonialismo impiedoso e imperialismo feroz que subjudaram e inviabilizaram inteiras culturas na Africa e na América Latina em contraste frontal com os valores que proclama. A situação dramática do mundo atual e as levas de refugiados vindos dos países mediterrâneos se deve, em grande parte, ao tipo de globalização que ela apoia, pois configura, em termos concretos, uma espécie de ocidentalização tardia do mundo, muito mais que uma verdadeira planetização.

Este é o pano de fundo que nos permite entender as ambiguidades e as resistências da maioria dos países europeus em acolher os refugiados e imigrantes que vêm dos países do norte da Africa e do Oriente Médio, fugindo do terror da guerra, em grande parte, provocada pelas intervenções dos ocidentais (NATO) e especialmente pela política imperial norteamericana.

Segundo dados o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) somente neste ano 60 milhões de pessoas se viram forçadas a abandonar seus lares. Só o conflito sírio provocou 4 milhões de desalojados. Os países que mais acolhem estas vítimas são o Líbano com mais de um milhão de pessoas (1,1 milhão) e a Turquia (1,8 milhões).

Agora esses milhares buscam um pouco de paz na Europa. Somente neste ano cruzaram o Mediterrâneo cerca de 300.000 pessoas entre imigrantes e refugiados. E o número cresce dia a dia. A recepção é carregada de má vontade, despertando na população de ideologias fascistóides e xenófobas, manifestações que revelam grande insensibilidade e até inumanidade. Foi somente depois da tragédia da ilha de Lampedusa, ao sul da Itália, quando se afogaram 700 pesoas em abril de 2014 que se colocou em marcha uma operação Mare Nostrum com a missão de rastrear possíveis naufrágios.

A acolhida é cheia de percalços, especialmente, por parte da Espanha e da Inglaterra. A mais mais aberta e hospitaleira, apesar dos ataques que se fazem aos acampamentos dos refugiados, tem sido a Alemanha. O governo filo-fascista de Viktor Orbán da Hungria declarou guerra aos refugiados. Tomou uma medida de grande barbárie: mandou construir uma cerca de arame farpado de quatro metros altura ao longo de toda fronteira com a Sérbia, para impedir a chegada dos que vêm do Oriente Médio. Os governos da Eslováquia e da Polônia declararam que somente aceitariam refugiados cristãos.

Estas são medidas criminosas. Todos estes sofredores não são humanos, não são nossos irmãos e irmãs?  Kant foi um dos primeiros a propor uma República Mundial (Weltrepublik) em seu último livro A paz perpétua. Dizia que a primeira virtude desta república deveria ser a hospitalidade como direito de todos e dever para todos, pois todos somos filhos da Terra.

Ora, isso está sendo negado vergonhosamente pelos membros da Comunidade Européia. A tradição judeo-cristã sempre afirmou: quem acolhe o estrangeiro, está hospedando anonimamente Deus. Valham as palavras da física quântica que melhor escreveu sobre a inteligência espiritual – Danah Zohar: ” A verdade é que nós e os outros somos um só, que não há separatividade, que nós e o ‘estranho’ somos aspectos da única e mesma vida”(QS:consciência espiritual, Record 2002, p. 219). Como seria diferente o trágico destino dos refugiados se estas palavras fossem vividas com paixão e compaixão.

Leonardo Boff escreveu Hospitalidade:direito e dever de todos, Vozes 2005.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AMOR NÃO É APEGO (NEM SOFRÊNCIA, POR FAVOR)

por Cristina Parga

A questão é simples e complexa (...): amor de verdade não dói. Ele inunda o coração e se basta sozinho. Já o apego traz sofrimento, porque guarda dentro de si o medo da perda. Da rejeição. De "ficar sem a pessoa", de "ficar sozinho". O amor não pode ter medo de perder porque não perde nunca – ele existe indiferente da reciprocidade. Existe em si mesmo.

Desde pequenos fomos ensinados a pensar em amor e apego como quase sinônimos, e a encarar com alguma benevolência um ciúme "saudável", ou o medo de perder o amado(a) como prova de que realmente o que se sente é amor. Séculos de literatura, arte e poesia na nossa sociedade ocidental nos moldaram a pensar assim – isso desde as dores do amor romântico do jovem Werther, passando por Lady Gaga,  até os cantores atuais da sofrência. (...)
É claro, eu, como a maior parte dos mortais, compreendo racionalmente a diferença entre os dois sentimentos – mas daí a separar apego e amor dentro do coração, são outros quinhentos. Lembro de ouvir palestras e ler sobre o assunto e literalmente passar por cima dele – afinal, eu entendia a ideia mas não via como colocar em prática. Era abstrato demais. Algo que só pessoas muito evoluídas espiritualmente ou com décadas de análise talvez pudessem sentir. Mas não. Um dia aconteceu. E foi num sonho.
Parênteses: Alguns dos nossos melhores insights vêm nos sonhos – não levante correndo para engolir um café e correr para o escritório. Tire pelo menos uns 5 minutos para ouvir o que o seu mundo interno tem a dizer quando você dorme e a consciência relaxa.
Anos depois de um término, sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo de algum país distante. Abro o pacote e encontro um casaco cinzento e antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias passadas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.
No sonho, vestida com aquele casaco de tantas guerras, percebia que era eu quem ele buscava. A pérola invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha. E que ele, debaixo de tantos brasões e realizações, de tantas máscaras a que a vida nos obriga a usar para vencer no mundo, também era. The real deal. O czar medroso, generoso e puro que se esconde por trás da armadura, para não doer mais. É, mas não sabe. Nem quer saber. Quando irá acordar, Meu Deus?
Nunca – diz meu coração. E de repente me sinto aliviada, sem aquele peso. Porque não preciso de mais nada. O que sinto é suficiente – e enorme o bastante para me fazer querer viver muito mais. Ainda no sonho, passo por aquela rua, aquela casa. Fecho as janelas do táxi, fecho os olhos. Deixo ir.
Estou na praia, sozinha. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com cada uma delas pesando suave na mão, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele (sobre)vive. Esse dia não vai chegar, olho para o mar e sei. Mas isso não muda nada. Nem me faz querer nada que não seja pura oferta da vida, do mar. Do mundo.
Querer, querer. Só queremos. Queremos ter tudo – e vivemos presos no medo de perder o que "conquistamos". Escuto as ondas indo e vindo e me sinto livre – ainda estou inteira. Cada vez mais. Nossas memórias passam pelo espelho das águas como flashes, mas não trazem saudade – o tempo-espaço é acessível a qualquer fechar de olhos. A cada onda que se quebra no horizonte.
(...) Dizem que o todo sofrimento vem do desejo (...), e que o caminho para sair da prisão do apego e da dor é deixar ir. Aprender a se bastar. E ficar genuinamente feliz com o crescimento do outro – mesmo que ele tenha escolhido viver longe de você.
Fácil falar, não é? Mas eu juro que num segundo, dentro de um sonho, foi fácil – e a partir daí foi ficando cada vez mais natural.
Porque amor de verdade não precisa do outro. Afinal, o outro está sempre contido dentro do amor. Não como um fantasma – mas como uma constância que faz nosso coração bater mais rápido em cada respirar de maresia, em cada linha de um poema. E não, não dói. A felicidade do outro passa a ser sua também, porque é impossível sentir algo que te completa e expande tanto e ser mesquinho, querendo aprisionar o que só existe quando há entrega – e para haver entrega é preciso haver liberdade.
Amor de verdade é gratuito e autossuficiente, eterno no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?
Não, você não lembra. Mas não faz mal. Eu lembro por nós dois.

cristinaparga

CRISTINA PARGA
Autora de "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, romance, no prelo). Mestranda em Letras, assistente editorial, escritora, redatora, jornalista e insone. Living on coffee and flowers..
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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

QUANDO O RISO DÓI


POR FABRÍCIO CARPINEJAR

Faremos alguém feliz quando descobrirmos que ele pode ser feliz também em nossa ausência. Quando o amor abdica da aura de condenação.

As ameaças românticas sempre giram na subtração do contentamento com a distância. Se quem amamos não está conosco, será infeliz.

Pois o riso do outro, sem a nossa presença, significaria que ele não nos valoriza, identificado como dispensa, alta traição, insensibilidade diante da dedicada dependência. Sentimos ciúme desproporcional, a ponto da gargalhada sem a nossa autoria doer como uma lágrima.

Não é verdade, o nosso par é capaz de ser bem feliz separado.

Há o desejo perverso de que o outro se dane afastado. Mas é uma ansiedade infantil de possessividade.

Não somos a única fonte de felicidade de uma pessoa. Ela foi feliz antes de nos conhecer e será também depois. Esta noção salva casamentos, elimina restrições e chantagens, acentua o livre-arbítrio, valoriza a relação.

Não é que ela está comigo porque não consegue ser feliz longe, é que, mesmo podendo ser feliz longe, ainda é mais feliz comigo.

Somos a melhor opção, não a única. Somos a companhia predileta, não a que restou.

O certo é se enxergar o destino de uma alegria, em vez de sua viciada origem.

No momento em que condicionamos o bem-estar, prosperamos o pânico.  Funda-se a convivência pelo medo de perder o que se tem, jamais pela confiança de ter sido escolhido e eleito todo dia.

Não podemos sequestrar a felicidade do outro no casamento ou no namoro, como se fosse nossa, como se só dependesse de nossa proximidade, vinculando a alegria ao egoísmo dos laços.

Maturidade é ser indispensável justamente por deixar a porta aberta.

sábado, 22 de agosto de 2015

NINGUÉM É SOLTEIRO POR OPÇÃO

por Mario Feitosa

Vivíamos um mundo de pessoas acompanhadas, fosse de quem fosse. A questão era não estar sozinho, porque a solidão era mórbida.
De uns tempos p'ra cá, tudo mudou! Hoje é bonito ser solteiro, mas somos mesmo solteiros por opção?!

OKAY, mea culpa: não existe "ninguém", assim como não existe "todo mundo". É fato que "toda generalização é perigosa, inclusive esta", como bem disse Alexandre Dumas, mas também é fato que sempre há regras, ainda que nelas hajam exceções. Se o que segue é a tal regra ou a tal exceção, aí são outros quinhentos.

Ninguém é solteiro por opção, como já escrachei no próprio título, mas sim por falta dela. Levante a mão aí quem deixaria passar a paixão mais visceral, pela pessoa mais incrível do mundo, quase desenhada pela imaginação, a troco da tão lindamente vendida "solteirice satisfeita", que, no fundo, [pela boca de um solteiro satisfeito], não é muito diferente de pilhas de livros, jantares solitários, conversas psicóticas com bichos de estimação e muito, mas muito Chico Buarque. Toda a pseudo-filosofia que corre em torno da solteirice satisfeita, de "Conhece-te a ti mesmo" (Tales de Mileto), "Seja sua melhor companhia" (Jô Soares), "Ame-se em primeiro lugar" (autor desconhecido), não só é verdade, como, na verdade, é saudável p'ra (caramba)! Mas não é mérito ou louvor dos "solteiros satisfeitos"; é, e deve ser, a máxima absoluta de qualquer pessoa, saudável ou não, mentalmente. Quem não se ama não ama, não a outra pessoa, mas não ama o mundo, não ama os animais, não ama arte... Quem não ama, não vive! E quem não vive, vivendo, vira zumbi! E zumbi é feio demais!!!

Não vejo nada de errado, ou feio, mas também nem louvável, em pedir uma mesa para um num restaurante bacana, e, pedir minha garrafa do meu vinho favorito, meu prato predileto, e pedir que acendam velas, enquanto puxo um caderno e caneta, e começo a escrever loucamente, lá no restaurante bacana, ou ponho os fones de ouvido, e bato os pés, ouvindo minha banda favorita da noite, enquanto aprecio meu jantar maravilhoso. Claro que os olhos dos casais vão me comer, enquanto como. Aliás, isso é o que mais acontece, e não só me divirto, como acho terrível que, com uma pessoa do lado, ou à frente, eu consiga ser mais interessante, misterioso, que seja bizarro ou fascinante que aquela pessoa. Sério: se você saiu para jantar com seu marido, namorado, encontro, e consegue tirar os olhos dele p'ra contemplar a minha "solidão satisfeita", troca de par ou fica sozinha, porque eu, "solteiro satisfeito", se tenho um par de olhos à minha frente, ou ao meu lado, só tiro os meus de dentro deles p'ra ir ao banheiro, e olha lá se não vou de fralda, p'ra não ter que levantar.

Assim como no restaurante, não vejo nada de estranho em ir para a balada para beber e dançar, e curtir um show ou DJ ou o cheiro da noite [eu sou apaixonado pela noite], ou mesmo só para sair de casa, da minha pilha de livros, dos meus jantares solitários, das minhas conversas psicóticas com meu cachorro e de muito, mas muito Chico Buarque, e não "pegar" ninguém [na boa, eu pego doença, não pessoas... Cada um sabe de si, do seu momento, todo mundo com mais de dezoito é adulto e sabe de suas escolhas... Eu, sabendo das minhas, não "pego" ninguém], e voltar p'ra casa bêbado e cansado no táxi, sozinho, porque é "solteiro satisfeito", "solteiro convicto" e, sim, a gente faz isso com uma freqüência assustadora, porque, no fundo, todo "solteiro satisfeito" é livre p'ra (caramba)! E essa liberdade, sim, é nosso louvor.

Como "solteiros satisfeitos", acho que falo por todos, não aceitamos meias-companhias, meias-paixões, ou gente bicho-de-pelúcia, p'ra abraçar quando se está carente. Acho que todo "solteiro satisfeito" já perdeu tempo, saliva e esperança em meios romances, e, hoje, sem saco, perto ou depois dos trinta, não deixa ninguém entrar se não tiver potencial suficiente de ficar, porque no fundo todo "solteiro satisfeito" é um amante visceral, e não gosta de expôr suas vísceras ao léu. Esse é outro ponto louvável na nossa "solteirice satisfeita". Melhor sozinhos do que mal acompanhados [e é aqui que me estarrece a moça da mesa ao lado, ignorando a companhia p'ra assistir minha solteirice].

Agora, defesa da tese, e me condenem os "solteiros satisfeitos" que discordarem: se a mulher dos meus sonhos aparecer, toda minha pseudo-filosofia de "solteiro satisfeito" vai-se embora num piscar de olhos, ou melhor, num encontro de olhos, e eu vou Caetanear toda minha Buarquice, como o próprio Chico fez quando escreveu: "Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor. E dou risada do grande amor. Mentira!". Bem disse Tom: "fundamental é mesmo o amor", seja ele o próprio, ao tal bicho de estimação que, coitado, ouve suas teorias, seus murmúrios e suas sandices toda noite, "entre copas", ao mundo, à arte, enfim. Amor é bom, sempre que for de verdade.

Ninguém é, por fim, solteiro por opção, senão por falta dela, porque quando há uma opção adequada, ninguém quer ficar solteiro ;).

MARIO FEITOSA

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado?.

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