sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O que você precisa saber antes de morar em mim

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Se os meus olhos são as janelas da minha alma, minha boca é a porta e, o beijo [...] – a chave. Peço que repare na bagunça e pense, pense muito bem antes de entrar. A casa é pequena, mas comporta muitas coisas. Os cômodos do meu coração estão abarrotados de tentativas, repletos de receios, e guardam pilhas intermináveis das minhas mais vulneráveis expectativas.
Agora me responda: Tem certeza que quer entrar? Se a resposta for positiva, peço que entre com calma. Na sala do meu coração você encontrará centenas de filmes, que me fizeram rir e chorar – no abrigo de outros braços. Músicas que embalaram altos e baixos – com outros amores. Muitas fotos de viagens que fiz e coisas que quis, mas que hoje não passam de antigos e distantes rumores.
Na cozinha você sentirá o cheiro de muitos jantares. Temperos que eu costumava adorar e hoje já não posso suportar. Velas apagadas pela ação implacável do tempo. Talheres que alimentaram outras bocas e taças que embriagaram outros corpos.
Meu banheiro exala o cheiro de tantos perfumes, sabonetes e loções – quanto de decepções. Fios de cabelos distintos entopem o ralo do esgoto, enquanto escovas de dente diversas ocupam o chão. A água do meu chuveiro já lavou outros suores e o espelho sobre a pia já refletiu dias melhores.
O quarto do meu coração é o cômodo mais bagunçado, guarda tantas lembranças boas – quanto amores dilacerados. Nele você encontrará todo o prazer que dei e recebi. Todas as lágrimas que derramei e todas as alegrias que senti. Vários livros de cabeceira. Roupas por todos os lados. Noites em que fui feliz, e outras em que desejei dormir e nunca mais ter acordado.
Agora preciso que me diga: Tem certeza que quer continuar? Sim? Então caminhe até o quintal. Lá você verá quem fui e quem sou. Os espinhos que colhi, quando flores plantei e os fracassos que colhi – quando esperanças semeei. Mas verá também um pedaço de terra fértil, que resistiu bravamente e, anda precisando – urgentemente – de água, adubo, calor e amor.
Agora me responda com toda a sinceridade que reside em ti: Deseja assumir a responsabilidade de revitalizar a minha horta? Quer me ajudar a varrer o chão, lavar os pratos e pintar as paredes? Está disponível para me auxiliar na troca dos móveis e com a nova decoração? Carregará comigo todo o lixo para fora? Quer – do fundo do seu coração – habitar o meu?
Sim? Perfeito, cuide bem de tudo – a casa agora também é sua.



Sobre Fellipo Rocha

Fellipo Rocha é poeterapeuta, músico e idealizador da página Corpoesia. Além disso, escreve pelos sorrisos que perde, todas as vezes em que não sai de casa.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O desabafo de uma consciência negra




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Prefiro fugir à regra. Não gosto de expressar minha opinião a respeito de assuntos ‘polêmicos’, mas vez por outra é necessário abrir mão de certos hábitos. Muito me incomoda ter um tempo determinado para tratar qualquer assunto. É como se a sociedade, como um todo, dissesse: ‘Não! Agora não é hora de falar sobre violência doméstica, vamos focar em preconceito racial. Mesmo milhares de mulheres e crianças sendo violentadas, abusadas, mal tratadas diariamente.’ E vice-versa. Por outro lado, compreendo que é preciso aproveitar as brechas do sistema para se discutir o tema.
Há anos observo nos discursos das conversas informais, na mídia, no comércio a proliferação do preconceito do preconceito. Considere a argumentação de Fernando da Mota Lima, ex-professor da Universidade Federal de Pernambuco:

 Já houve quem observasse, não sem razão, que o brasileiro é portador do pior tipo de preconceito: o de acreditar que não tem preconceito. Por que é o pior? Porque a consciência do que somos, a consciência do que pensamos e sentimos é o primeiro passo necessário para que mudemos o que temos de pior. O preconceito – de raça, de gênero, de classe, de região e nacionalidade – está entre o que temos de pior. Ele alimenta, nas condições sociais rotineiras, as atitudes de discriminação e intolerância contra o outro objeto do preconceito. Nos tempos de crise, ele é instrumento pernicioso a serviço de ideologias e grupos sociais intolerantes e violentos.
Um exemplo da inconsciência do nosso preconceito extraído do balaio onde ajuntei uma infinidade: a senhora recifense, mãe de duas adolescentes louras e lindas, orgulhosa de dizer que não tinha preconceito racial. Um acaso feliz – ou infeliz, depende do ponto de vista – fez com que um dia as filhas se apaixonassem por dois negros. O mundo caiu sobre a consciência perplexa da mãe, que mobilizou todas as suas forças e recursos para suprimir a paixão inter-racial. Não obstante, continuou afirmando de pés juntos que não alimentava nenhum preconceito de cor, apenas não tolerava que suas filhas se apaixonassem por negros.

Mota Lima trata de uma das questões mais perigosas da sociedade atual. O cidadão afirma não ter preconceito por nenhum grupo minoritário, mas suas ações diante de uma situação em que há a oportunidade de miscigenação, seja ela racial, cultural, social ou outras, incomoda sua consciência imediatamente. E ainda assim alega não ser preconceituoso. Presenciei algo parecido quando uma conhecida ao ilustrar que uma família perfeita era constituída por pessoas brancas, loiras e de olhos azuis. Ao se dar conta do erro consciencioso que havia cometido encerrou a sentença com a célebre expressão: ‘Mas não sou preconceituosa. Inclusive tenho vários amigos negros.’ Quantas vezes não ouvimos essa forma de remediar as feridas do preconceito?! Não é tal comentário resultado do contínuo trabalho da mídia que mantêm a hegemonia cultural de influência europeia? Resultado das opiniões servidas prontas pelas ondas da TV e ‘empurradas goela abaixo’ da sociedade na ‘ideologia do embranquecimento’.
Há sim preconceito numa sociedade em que notícias e dados como estes são noticiados nos jornais, e se fazem necessárias campanhas humanitárias para se chamar atenção para a violência contra negros:

Em todo o país, 7 jovens são mortos a cada duas horas _ o tempo de uma sessão de cinema. São 82 jovens mortos por dia, 30 mil por ano, todos com idades de 15 a 29 anos. E, entre os jovens assassinados, 77% são negros (somando aqui os pretos e pardos, pelos critérios do IBGE).
Os números de homicídios são do Mapa da Violência, estudo realizado desde 1998 pelo sociólogo Julio Jacobo Weiselfisz com base em dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. A versão 2014 do Mapa traz as últimas informações disponíveis, referentes ao ano de 2012, e foi realizada em conjunto com a Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Em dez anos, de 2002 a 2012, os homicídios de jovens negros cresceram 32,4%; os de jovens brancos, 32,3%. Considerando a relação com a população, entre jovens negros a taxa de homicídios por cem mil habitantes cresceu 6,5%; entre jovens brancos caiu 28,6%.
 
Seriam tais dados apenas ‘coisas da cabeça’ de um negro, ou qualquer outro cidadão, que pensa a sociedade? Seria um tipo de paranoia? Se assim for, a indústria farmacêutica bioquímica está perdendo um grupo expressivo de transtornados mentais.
E quanto à cota para negros, é uma forma de perpetuar o preconceito? Uma forma de dizer que o negro não é capaz de conquistar seus ideais acadêmicos com ‘seu próprio esforço’? Participo da opinião do companheiro de longa data, Felipe Andrade, Historiador pela Universidade Federal de Juiz de Fora:

Sou a favor de cotas baseadas no critério de afrodescendência como medidas paliativas a fim de corrigir uma realidade de forte desigualdade socioeconômica e de discriminação racial praticada há pelo menos quatro séculos em nosso país. Veja bem, são medidas paliativas, ou quebra galho no bom português, pois o correto seria aprimorar os serviços de saúde, educação, previdência e ampliar a acessibilidade à cultura, lazer, mercado de trabalho a fim de melhor servir e incluir a todos. Com uma boa educação de base, cotas talvez não seriam necessárias.
Porém, enquanto isso não acontece, procuro enxergar as cotas como um pedido de desculpas incipiente dirigido aos negros pela sangrenta e horrível história de dominação, tortura e estigmatização escrita pelos portugueses e, infelizmente, até hoje pela nossa sociedade.
Não sou negro então não sou capaz de descrever os olhares tortos, piadas racistas, acusações levianas ou mesmo a desconfiança simplesmente baseada na cor da pele - mas sou capaz de imaginar. Eu mesmo parei pra refletir na questão das cotas para concursos públicos pois me peguei pensando "Isso não fere o princípio de igualdade? As cotas em universidades já não são o bastante?" Não. Nada é o bastante. Não se trata de tratamento desigual, afinal um candidato negro às vagas públicas é ferido pela desigualdade desde o berço, sendo rotulado, vigiado e perseguido pelos agentes do Estado como marginal, criminoso, pessoa inapta. Quantos negros foram aptos a se sobressair em meio a uma sociedade que lhes mostra o punho fechado, disposta a condená-los sob o pressuposto da culpabilidade implícita? Logo, um concorrente negro a vagas públicas não está em pé de igualdade comigo. Ele tem todo um contexto anterior que reduziu suas chances e que deve ser levado em conta. Contexto esse que se estende a seus antepassados, conforme discuti a pouco.’

É preciso amadurecer. A discussão é necessária, é uma assunto para se ter dentro de casa, pois a omissão fará seu filho, assim como muitos indivíduos que conheço, ter um discurso desarticulado que possibilita a sociedade impor suas ideologias de formas brutais e sutis, com um discurso falso de igualdade que na realidade não existe.
Igualdade é você poder entrar num restaurante e perguntar ao garçom, ou cozinheira, negro se eles estão ali porque querem ou por falta de opção e receber a resposta de que trabalham ali por questão de vocação, como destacou Taís Bianca. Igualdade é entrar num ambiente considerado ‘elegante’ e não ser observado com olhares preconceituosos porque é negro ou de classe social inferior. Igualdade é estar num ambiente cultural e não contar nos dedos quantos negros frequentam o lugar.  Não desejo mais foliar revistas e me sentir representado apenas em campanhas de Políticas Sociais do Governo. Não quero mais nossos atores e atrizes recebendo roteiros de personagens que na sinopse destaca que aquele papel é para um negro.
Criolo disse em certa entrevista que o que nos salvou foi ser um ‘ninguém’ por longo tempo de nossa história. Ou éramos ignorados, chicoteados ou encosto de porta, literal e figurativamente falando. E nos sobrou a beleza das artes, que para muitos é a fraqueza da alma. A cultura negra é uma das expressões mais fortes desse planeta. E novamente cito Mota Lima:

‘O preconceito alimenta-se antes de tudo de paixões humanas postas a serviço de interesses políticos e econômicos. O que nesse ponto destaco de positivo é o fato de que hoje nenhuma nação do Ocidente, aqui compreendidas suas extensões periféricas, adota políticas de Estado baseadas no preconceito ou qualquer outro tipo de intolerância. Essa é uma conquista que credito ao mito baseado numa perspectiva universalista, também à difusão do saber socioantropológico na sociedade contemporânea.’

Li há alguns anos um artigo que se iniciava com perguntas de autoanálise pertinentes. Desde então as faço rotineiramente: Será que conseguimos reconhecer em nós mesmos tendências para o preconceito? Por exemplo, tiramos conclusões a respeito da personalidade duma pessoa com base na cor da pele, nacionalidade, origem étnica ou tribo — embora não a conheçamos? Ou conseguimos avaliar cada pessoa segundo suas qualidades únicas? Treino-me diariamente. Aguardo ansiosamente o dia em que o preconceito terá sido eliminado para sempre.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A ÚLTIMA VEZ

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Fabrício Carpinejar

Se já é difícil dar adeus quando não se ama, imagina quando se ama.

Não é simples colocar um marcador de página numa história de amor e abandonar a leitura.

Reconhecer que jamais terminaremos aquele romance. Não haverá recompensa por aquilo que se leu até ali. Ninguém nos contará o que aconteceu.

Não participaremos do final feliz: os filhos, a velhice lado a lado, a casa cheia de netos. Não estaremos juntos na derradeira linha. É morrer sem ter morrido. É desaparecer estando onipresente.

O livro de sua imaginação ficará fechado para sempre. A relação terminou antes do fim do amor. O leitor terminou antes da obra. Não descobriremos qual será o desfecho.

Não queira viver o dia de uma despedida com a consciência de que é uma despedida.

É uma cirurgia sem anestesia. Será cortado, será remexido por dentro, será costurado, sentindo cada pontada e rasgo, antecipando cada movimento com os olhos abertos. A pele vai doer como um osso, a sensibilidade pedirá piedade, o ouvido apanhará qualquer frase como uma possível sentença salvadora.

Melhor que a despedida seja involuntária, desconhecida, desavisada. Melhor que seja abrupta, de repente, improvisada.

Pois se despedir é sofrer com tudo que lhe tornava feliz. É abrir os braços para a mágoa como se viesse uma alegria em nossa direção.

É um esforço para decorar o estranho momento em que abandonaremos uma vida tão desejada.

O nós é a primeira partilha – o plural perderá seu domínio. Voltará a chamar a pessoa que ama pelo nome, como se não a conhecesse. Não mais de Meu Amor. Não mais de Minha Paixão.

É entrar pelo quarto pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É olhar pela régua que mantém a janela aberta da cozinha pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É abrir o guarda-roupa pela última vez, reconhecer o estalo da divisória de madeira, e ter noção de que será a última vez.

É fechar o registro do chuveiro pingando pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É ajeitar as almofadas do sofá pela última vez, e ter noção de que será a última vez.

É ouvir a respiração perto pela última vez, copiosa, irrefreável, e ter noção de que será a última vez.

É abraçar pela última vez e não soltar porque é realmente a última vez.

É beijar pela última vez e soluçar porque enfim chegou a inacreditável última vez.

É uma coleção de instantes definitivos. Preciosos. Sábios.

Despedir-se é guardar. Guardar é cuidar. Cuidar é nunca deixar de amar.

Quem faz questão de se despedir, quem faz questão de inventar uma despedida, é quem ainda ama. Ama muito. Ama demais. Ama loucamente.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 16/11/2014 Edição N°17985

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Uma carta ao Colégio Santo Agostinho...





Imagem usada por alunos do Colégio Santo Agostinho externando o sentimento diante da decisão de fechamento da instituição.
Há alguns anos, quando ainda muito jovem, certa mãe decidiu que seu filho estudaria numa escola ‘experimental’. Sua escolha foi o Colégio de Aplicação – Unidade Santo Agostinho. Inicialmente, seu filho rejeitou tal decisão, como muitos fazem no processo de transição do Ensino Fundamental para o Médio. Por respeitar temerosamente sua mãe acatou tal decisão sem questionar verbalmente. Quando retornou do primeiro dia de aula ela o perguntou o que tinha achado do colégio. Para não desapontar, respondeu que havia achado um máximo os novos colegas de classe e estrutura do estabelecimento escolar, apesar de não ter interagido com ninguém. Tudo para não decepcioná-la. Essa foi a única experiência em que a omissão seria uma dádiva.
Com o passar dos dias seus colegas foram se transformando em generosos e valiosos amigos. Os professores revelaram-se grandes mestres – e posteriormente - grandes amigos e companheiros de luta. Os funcionários queridos companheiros. Colegas contemporâneos, futuros alunos preciosos e admiráveis. Grandes histórias guardam e guardarão as paredes de tal instituição. Grandes conquistas envolveram o processo de desenvolvimento daquele jovem e tantos outros.
Sua formação acadêmica ficou intimamente entrelaçada com o colégio. Pouco tempo depois, retornou na condição de professor. Nessa oportunidade aprendeu ainda mais coisas valiosas. Fortaleceu vínculos, instituiu novos e aprendeu para toda uma vida lições fundamentais. Era como se fosse necessário completar o ciclo, disseminar o melhor que havia absorvido. Foi exatamente isso que ele tentou fazer. Ficou ainda mais apaixonado pelo universo educacional. Conquistou cerca de quatro corações puros para a disciplina que defende e ama – História. Eis o maior presente para um professor, alunos que se tornam companheiros de luta!
Esse aluno recebe com muito pesar a notícia que o Colégio que contextualizou fatos memoráveis não mais existirá em sua forma física. Lamenta que a instituição encerre sua trajetória abruptamente. Se sente órfão. Curioso como necessitamos de uma estrutura física, algo palpável, para confirmar aquilo que está cuidadosamente guardado nas caixinhas de nossas memórias! Mas não é apenas isso, desejamos a todas as gerações as maravilhas que protagonizamos. Há a necessidade de que se repita com outros o aprendizado que tivemos o privilégio de ter. Triste saber que acabou. Triste ver a tristeza de ex-alunos, colegas, companheiros de luta, mães e pais que desejam o melhor para sua prole. Permanece a gratidão por tudo que foi realizado até agora. O tal aluno é quem vos escreve. Penso que o Colégio Santo Agostinho fez um trabalho similar a de uma borboleta - ‘polenizou’, nos fez ver o sistema de uma maneira diferente e teve um ciclo de vida relativamente curto. Mas cumpriu sua principal missão: mudar a realidade de muitos. Que bom ser um dos beneficiados! Permanece a gratidão e o gosto de ‘queríamos muito mais’.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ex-coordenador do DSM, a 'bíblia' da psiquiatria, admite: "Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais"

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Allen Frances

      Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...

Os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos.

R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

El País

 

Fonte: PsiBr

domingo, 16 de novembro de 2014

Coisas de Calunga...

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 "Viva a experiência de descobrir novidades, como uma criança pequena. Saia deste casulo de coisas já vividas, porque toda manhã é um dia completamente novo. Cada segundo, uma surpresa e uma oportunidade.
Não olhe com olhos de ontem, porque o ar está renovado, as folhas estão frescas, tudo está diferente de antes, e teus olhos podem te enganar. Tuas ideias podem te enganar.
Teu problema de ontem, hoje, pode apresentar uma nova perspectiva. Tua perda de ontem pode trazer, hoje, um novo ganho. Será que tú vais enxergar?" 

 -  Calunga

sábado, 15 de novembro de 2014

Coisas de Vinícius...

        Gosto quando as coisas acontecem de maneira natural como nessa manhã. Foi uma revelação. Um susto. Uma descoberta. Um talento talvez sempre escondido, guardado. Eu ia fazer uma vitamina de banana quando uma delas escorregou da minha mão. Mas antes que ela caísse e peguei-a com a outra mão. E o reflexo foi tão intenso que em seguida lancei-a ao ar novamente pegando com a outra mão. Em seguida joguei a outra banana para o alto e comecei assim o malabarismo. Com apenas duas bananas. Mas minha habilidade parecia tão natural que resolvi aumentar a dificuldade incluindo a maça que talvez entrasse na vitamina (aí, no caso, seria vitamina de banana com maça e não apenas vitamina de banana). De modo que o malabarismo era básico, duas bananas e uma maça. Mas estava tão fácil que mesmo sem nunca ter feito isso antes, resolvi colocar a mexerica na jogada. E quando fui ver o melão também estava no ar. E como a melancia é parente do melão, ela exigiu sua participação. Rapidamente os pratos, copos e talheres (incluindo facas) também estavam no ar. E é claro que quando eu joguei pra cima o liquidificador eu estava testando minha capacidade/habilidade/talento. E como achei-o leve quis aumentar a dificuldade com a participação do microondas. Em seguida entraram a geladeira e o fogão umbilicado pelo botijão de gás. E a máquina de lavar só entrou porque seu barulho da centrifugação me tirava a concentração, de modo que potencializei tal centrifugação fazendo-a rodar junto com as roupas. Deve ser isso que chamam talento. Não é trabalho, é um dom natural! Nesse momento enquanto escrevo isso com uma mão, por exemplo, equilibro a cama com a testa e giro todos os móveis de casa com a outra mão. E como sou ambicioso, acabei de chamar o elevador com o pé em busca de testar tal talento na rua com carros, caminhões, casas, árvores e etc.

   - Vinícius Piedade