domingo, 18 de maio de 2014

Sobre loucura e sanidade romântica







Todos aguardamos o momento exato, para muitos demora, mas chega. Assumir sentimentos, atitudes, decisões é uma grande luta. Aprender a andar de bicicleta para quem nunca subiu numa por medo é uma batalha. É vencer medos insuportáveis e gigantescos. Assumir! Eis algo difícil para muitos, e não me excluo dessa afirmação. Antes disso, temos que nos aceitar, compreender. E é tão difícil quanto aprender braile. Tenho andado aqui à espera para começar. Mas começar o quê? Como? Com quem? Muitos julgam que uma pessoa perfeita é aquela que sempre sorri. Isso é um grande erro. Essas pessoas parecem criar uma defesa para qualquer tipo de aproximação, inclusive um amor verdadeiro. Um romance que nunca acontece. Suas ações soam impecáveis, mas são exatamente o mesmo que você. É como se dançassem sozinhas numa festa aguardando inconscientemente um par, mas ainda sim sorriem para não parecer desesperadas, ansiosas. Há muito amor por aí nos dias de hoje, pena estar tão disfarçado, ou muitos com medo de demonstrá-lo. Muitos sem saber externá-lo. E fica aquela sensação do beijo, o verdadeiro primeiro beijo, que nunca veio, a ausência daquele tom de voz sereno, daquele chamado pelo seu nome que soa tão particular, a sensação de se sentir ridículo e, ao mesmo tempo, engraçado quando está ao lado de quem ama. E começa a planejar uma história que dificilmente se realizará. Porque românticos são loucos, poucos e têm sido medicados para demonstrarem sanidade.

sábado, 17 de maio de 2014

Corpo feminino, beleza e diversidade na mídia



À medida que as mulheres passaram a obter vitórias políticas, conseguindo a igualdade jurídica, a discriminação foi deslocada para outros campos. E um tema que merece atenção é o da aparência feminina, pois envolve uma mudança no enfoque do corpo da mulher na mídia.

Por Cynthia Semíramis

Mulheres ainda são avaliadas primeiro – e principalmente – por sua aparência, e não por suas atitudes e qualidades. Resquício de uma época na qual mulher não podia estudar nem trabalhar, a aparência feminina era fundamental para enfeitar o ambiente e se destacar. Porém, os tempos mudaram e hoje não faz o menor sentido adotar a aparência física como critério principal para a avaliação da vida de uma mulher, e de sua atuação profissional.
Um homem não vai ser considerado menos profissional se for careca, idoso ou andar como um pato. Caso não use as roupas da moda, será visto como excêntrico, não como indigno de confiança profissional. Uma mulher será criticada em toda a sua aparência (peso, roupas, esmalte, batom, rímel, sombra, cor e corte de cabelo, espessura e formato da sobrancelha, sapatos, bolsa, brincos, colares e pulseiras) antes de ser avaliada pelo que tem a dizer. Seu peso e sua aparência são tratados como assuntos públicos, como se ela estivesse o tempo todo precisando primeiro ser aprovada como enfeite, e só depois, segundo o ideal de beleza vigente, pudesse ser avaliada e aprovada como profissional.
Essa desigualdade na abordagem da aparência faz com que as mulheres não tenham a mesma igualdade de oportunidades que os homens. A avaliação é feita por critérios desiguais em razão de gênero, e a necessidade de atender a essa pressão faz com que mulheres sejam fortemente prejudicadas em sua vida social e profissional.

Ideal de beleza ignora a diversidade de corpos
Ao longo do século XX, o padrão de beleza criado a partir das medidas da média das mulheres deu lugar ao ideal de beleza, que valoriza um tipo de corpo bem distante da média da sociedade. Em 1950, uma mulher de 1,60m e 63kg era modelo de beleza; atualmente a modelo tem de ter mais de 1,75m e pesar 50kg ou menos. A modelo de 1950 tinha o corpo parecido com o das mulheres de sua época; a de hoje tem o corpo bem distante da realidade da maioria das mulheres.
O modelo ideal de beleza atual, incentivado pelos meios de comunicação de massa, é extremamente limitador: para ser bonita é necessário ser jovem, extremamente magra, alta e com traços europeizados (pele, cabelos e olhos claros, cabelos lisos). Basta andar na rua para perceber que é raríssimo alguém ter todas essas características – e praticamente impossível tê-las ao mesmo tempo.
Trata-se de um modelo que ignora a diversidade racial e cultural brasileira. É absurdo que, para ficar em um exemplo, cabelos escuros e crespos sejam vistos como inadequados e necessitem ser clareados e alisados para se enquadrar em um ideal de beleza que nega a história das brasileiras. Porém, é esse ideal de beleza altamente excludente e alienante que é tratado como único modelo a ser seguido se as mulheres quiserem obter respeito social e profissional.

Infância direcionada para os cuidados com a aparência
Um dos efeitos da obsessão em obrigar mulheres a ter o corpo perfeito está na pressão exercida durante a infância. Ao invés de brincar ou estudar, as meninas são incentivadas a perseguir um corpo ideal desde tenra idade.
Antes de aprender a ler, meninas já aprenderam a usar batom e a ter medo de engordar. É cada vez mais comum encontrar maquiagem e tintura para cabelos específicos para crianças. Saltos altos, tratamentos estéticos e gestos limitados para não sujar roupas ou borrar a maquiagem já são rotina para muitas meninas. Estudar, ter vida social e tentar ser feliz são valores secundários: o que importa é aprenderem a controlar e alterar o próprio corpo para obter a aparência perfeita.
Durante a puberdade, incapazes de aceitar as mudanças em suas formas e o aumento do grau de gordura corporal, muitas meninas se entregam a dietas de emagrecimento, às vezes até dificultando ou impedindo o processo metabólico natural que levará à menarca. O impacto em suas vidas varia de problemas com autoestima e insatisfação duradoura com seu corpo, passando pelo desenvolvimento de distúrbios alimentares e anorexia, podendo chegar à morte.

Igualdade de gênero, violência e declarações de direitos
A pressão para construir e manter o corpo perfeito resulta em violência física e psicológica. Tentar atingir um modelo inatingível gera angústia, estresse e sensação de inadequação. A pretexto de modificar quem não se enquadra no modelo, estimula-se a zombaria e a agressão, chegando ao ponto de agressão física (como os “rodeios de gordas” na Unesp, no qual universitários perseguiam e agrediam suas colegas que estavam acima do peso considerado ideal).
Além da questão da violência, há também a violação do princípio da igualdade. Não é possível ter igualdade de gênero em um sistema que, desde a tenra idade, força as meninas a se perceberem como fisicamente inadequadas e dificulta a inclusão social feminina. Também há a violação dos princípios de proteção ao desenvolvimento físico e mental das crianças e adolescentes.
Declarações de direitos são fundamentais no combate a todo tipo de discriminação contra mulheres, inclusive quando gera violência psicológica. Dentre as diversas declarações e convenções, destacamos a Convenção de Belém do Pará (1994), dedicada a combater a violência contra mulheres. O artigo 6º declara o direito de a mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação, e o artigo 8º, g, considera dever do Estado incentivar os meios de comunicação a formular diretrizes adequadas de divulgação que contribuam para a erradicação da violência em todas as suas formas e enalteçam o respeito pela dignidade da mulher.

Combatendo a discriminação em razão de aparência
O combate às discriminações legitima a atuação do Estado em duas frentes: estímulo a políticas públicas de combate à discriminação e incentivo à introdução de mudanças nas áreas de educação e mídia para modificar as relações de poder que estereotipam e patrocinam comportamentos prejudiciais às mulheres.
O Estado brasileiro vem agindo por meio da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), desenvolvendo atuação específica para questionar e combater os estereótipos sobre mulheres divulgados em anúncios publicitários e programação televisiva. É importante lembrar que o Estado não está censurando nem proibindo, está apenas questionando os valores que são transmitidos pelos meios de comunicação. Ao questionar, propõe mudança de paradigma para que a mídia combata a violência simbólica contra mulheres.
A atuação da SPM, embora louvável e juridicamente correta, ainda é insuficiente. É necessário haver mais envolvimento da sociedade civil e dos demais poderes da República, a exemplo do que ocorre em outros países. Na Suécia, anúncios que exploram o corpo feminino ou que usam mulheres para vender produtos não ligados ao corpo feminino são pichados e sofrem repúdio público. Na Espanha, os desfiles de moda seguem regras para impedir a participação de modelos desnutridas ou jovens demais. Na Inglaterra, anúncios de maquiagem e produtos tidos como rejuvenescedores são retirados de circulação se fica evidente o excesso de manipulação digital da imagem, caracterizando propaganda enganosa.
O Ministério Público de São Paulo tem interferido na indústria da moda com bons resultados. Ao exigir modelos negras nas passarelas e proibir algumas participações (modelos abaixo de 16 anos ou magras demais), abriu espaço para maior diversidade de mulheres nas passarelas.
É necessário ampliar esse tipo de iniciativa para outras áreas. Anúncios publicitários ainda são bastante discriminatórios e o Conar, apesar da pressão da sociedade civil, pouco tem feito para modificar esse quadro. Falta diversidade nas revistas e na televisão: a aparência física da maioria das apresentadoras de telejornais, atrizes e modelos está bem distante da média da população e não representa a diversidade das regiões e dos corpos das mulheres brasileiras.
O descaso com que são recebidas as críticas à falta de diversidade na mídia faz crer que é necessário forçar a implementação de cotas para estimular a diversidade feminina. Também é o caso de efetivamente punir propaganda enganosa ou discriminatória em razão de aparência. Em suma, é necessário agir não só por meio de políticas públicas, mas judicialmente, para impedir que seja incentivado um ideal de beleza excludente que atua para controlar os corpos e restringir a vida das mulheres.
Mulheres são muito mais do que corpos, e corpos são muito mais do que aparência estética. É importante lembrar disso para combater o controle do corpo feminino através da imposição midiática de um modelo estético opressor, que ignora a diversidade e que não contribui para uma vida com mais liberdade para as meninas e mulheres.

Fonte: Revista Fórum

sexta-feira, 16 de maio de 2014

HOMUSDIGITUS

HOMUSDIGITUS

     Dia destes entrei num elevador. Tinha 4 pessoas. Todas digitando o celular. Em seguida,  entro no estúdio e vejo 3 colegas na mesma posição. No metrô não é muito diferente. Cada vez tem mais pessoas com o celular na mão.
    
 Eu ainda resisto um pouco. O aplicativo mais avançado do meu celular se chama Bina.  Tento não me deixar levar, porque desconfio que andar freneticamente  pendurado ao celular possa  ser neurotizante  e além disso,  já navego bastante.   

Vejo que todo mundo se queixa da velocidade do tempo e acho que isto é causado principalmente por esta tecnologia que me parece nos fazer querer ocupar todos os segundos do dia. Então não se suporta ficar apenas sentado num banco de metrô, ou numa praça. Tira-se o celular do bolso, (da bolsa muito mais, pois as mulheres são mais adeptas) e vá teclar.  As mulheres se utilizam, também, do celular na via pública para fugirem de olhares e cantadas. É uma forma de ficarem alheias ao que gira em volta e assim, sentirem-se mais seguras.

Voltando ao assunto, acho que queremos, cada vez mais, a resposta rápida. Quando clicamos e não abre imediatamente ficamos irritados. Não temos mais paciência nem com as máquinas mais velozes. Não conseguimos ler uma página de um livro sem perder a concentração. Para se ler é preciso paciência. Já não a temos.   

     Tenho pensado numa maneira de dar uma freada no tempo, já que ando descobrindo que  tempo é ouro. Achar uma forma de desacelerar, diminuir este ritmo vertiginoso. 

Na semana que passou,  fui assistir a uma peça e a atriz deu o seguinte aviso: “óh, to de olho em vocês!!! Se estiverem digitando, a cara de vocês vai ficar iluminada!!!”  é isso mesmo. As pessoas deixam no silencioso, mas não conseguem ficar sem teclar. Cinema, teatro, show. Teclar, fotografar, colocar na rede, no grande campeonato de felicidades que é a rede, para que todos saibam, para que todos vejam. 

 Andei observando também um casal num  restaurante, (tá, eu sou fofoqueiro)  um de frente pro outro, com iphones gigantescos, digitando ferozes até o momento em que ele parou com aquilo e colocou a mão na frente do visor do celular da mulher, com delicadeza, mas interrompendo a função dela. Ela concordou em parar, mas a cara de desagrado foi fulminante.  15 minutos depois já estavam os dois possuídos novamente pela teclagem. 

Desconfio de que esta parada esteja esquisita.  Desconfio, mas não tenho certeza. Isto tudo pode ser também o começo de um caminho para uma nova forma. Um novo ser. O ser que nos tornaremos.

 Pode ser que, num futuro talvez não muito distante, o homenzinho das placas de trânsito  venha a  ser simbolizado por uma figura humana  em pose de digitação celulárica.

Fernando Corona




















Dia destes entrei num elevador. Tinha 4 pessoas. Todas digitando o celular. Em seguida, entro no estúdio e vejo 3 colegas na mesma posição. No metrô não é muito diferente. Cada vez tem mais pessoas com o celular na mão.

Eu ainda resisto um pouco. O aplicativo mais avançado do meu celular se chama 'Bina'. Tento não me deixar levar, porque desconfio que andar freneticamente pendurado ao celular possa ser 'neurotizante' e além disso, já navego bastante.

Vejo que todo mundo se queixa da velocidade do tempo e acho que isto é causado principalmente por esta tecnologia que me parece nos fazer querer ocupar todos os segundos do dia. Então não se suporta ficar apenas sentado num banco de metrô, ou numa praça. Tira-se o celular do bolso, (da bolsa muito mais, pois as mulheres são mais adeptas) e vá teclar. As mulheres se utilizam, também, do celular na via pública para fugirem de olhares e cantadas. É uma forma de ficarem alheias ao que gira em volta e assim, sentirem-se mais seguras.

Voltando ao assunto, acho que queremos, cada vez mais, a resposta rápida. Quando clicamos e não abre imediatamente ficamos irritados. Não temos mais paciência nem com as máquinas mais velozes. Não conseguimos ler uma página de um livro sem perder a concentração. Para se ler é preciso paciência. Já não a temos.

Tenho pensado numa maneira de dar uma freada no tempo, já que ando descobrindo que tempo é ouro. Achar uma forma de desacelerar, diminuir este ritmo vertiginoso.

Na semana que passou, fui assistir a uma peça e a atriz deu o seguinte aviso: “óh, to de olho em vocês!!! Se estiverem digitando, a cara de vocês vai ficar iluminada!!!” é isso mesmo. As pessoas deixam no silencioso, mas não conseguem ficar sem teclar. Cinema, teatro, show. Teclar, fotografar, colocar na rede, no grande campeonato de felicidades que é a rede, para que todos saibam, para que todos vejam.

Andei observando também um casal num restaurante, (tá, eu sou fofoqueiro) um de frente pro outro, com IPhones gigantescos, digitando ferozes até o momento em que ele parou com aquilo e colocou a mão na frente do visor do celular da mulher, com delicadeza, mas interrompendo a função dela. Ela concordou em parar, mas a cara de desagrado foi fulminante. 15 minutos depois já estavam os dois possuídos novamente pela 'teclagem'.

Desconfio de que esta parada esteja esquisita. Desconfio, mas não tenho certeza. Isto tudo pode ser também o começo de um caminho para uma nova forma. Um novo ser. O ser que nos tornaremos.

Pode ser que, num futuro talvez não muito distante, o homenzinho das placas de trânsito venha a ser simbolizado por uma figura humana em pose de digitação 'celulárica'.

Fernando Corona

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Breve consideração sobre inquietações


Imagem: Reprodução



Hoje minhas células encontram-se especialmente agitadas sem nenhum motivo aparente. Mas com o tempo descobrimos que muitas coisas ocorrem por questões desconhecidas. Quantas vezes já fez o bem a alguém que nunca soube do seu ato? Ou, quantas vezes foi beneficiado pelo ato de uma pessoa que jamais soube? Vivemos no planeta do surpreendente, onde tudo é perfeitamente possível. Amores, desilusões, novas tentativas, medo, coragem tudo em um só ser. Sentimentos despertados de acordo com a necessidade. Somos escravos das ‘necessidades’? O que realmente queremos? Tenho a impressão que já realizei tudo que poderia e gostaria. Por outro lado, acredito que há muita coisa a se fazer. Essa inquietação é instigante. Assim como as muitas ideias que me passam pela cabeça ao mesmo tempo, um turbilhão de concepções. Observo as cores deste planeta, crianças caminhando pelas ruas com seus pais, ou sem eles. Observo, penso e me afogo em perguntas. Queria mudar tudo, todos, suas ideias, conjecturas. Mas esse é um ato egoísta. O belo está na diversidade. A diversidade me construiu. Concluí que ainda não é hora de partir, não realizei tantas coisas assim. Tenho que viver tempo suficiente para responder muitas perguntas, inclusive as que virão. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

(…) "Não sei durante quanto tempo acreditei que esperança fosse um objeto que a gente podia guardar num armário e perder por aí, como um guarda-chuva. Ou quase: mesmo na minha imaginação de criança, a esperança já parecia bem mais valiosa, porque minha mãe vivia perdendo guarda-chuvas, mas nunca se chateava tanto por isso (…) Anos depois, descobri que a esperança nem é tão diferente assim de um guarda-chuva: e o que mais pra nos proteger e ajudar a seguir em frente durante as tempestades? "

terça-feira, 13 de maio de 2014

O 13 de maio e a verdadeira abolição


As cotas e a disribuição de renda desorganizarão o sistema de dominação das elites e a verdadeira abolição chegará, aos trabalhadores negros e não negros.

E eles chegaram, um dia, e depois outro, e por séculos, continuaram chegando, transportadoras em navios fétidos, podres e desumanos. No outro lado do Oceano deixaram seus roçados, suas famílias e suas formas de vida.
Aqui nestas terras, a morte rápida e certeira, em canaviais, troncos e senzalas. Estupros, castigos e um novo deus, uma nova submissão. Suas mãos e seus pés, artísticos e trabalhadores, edificaram a Pátria Continente Brasil e, em troca, nunca, nada!
Há 124 anos, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil. De fato, ninguém mais poderia comprar ou vender negros, ninguém poderia ser dono de negros. No mais, o que já conhecemos: mera formalidade, como a chamada democracia brasileira. Está no papel, mas só lá.
Depois de 1888, nenhuma terra, nenhuma escola, nenhum emprego, apenas as favelas e o braço da lei para punir os que não aceitassem a modelagem social que lhes cabia.
O Negro fez o Brasil, conquanto nossos índios e brancos jamais possam ser ignorados. O Negro ensinou a toda gente a “língua brasileira”, o Negro povoou a culinária, a dança e o canto. O Negro contagiou nossa música e nossas festas, o Negro nos ensinou a arte de sorrir e de gingar.
De trabalho em trabalho, de sol a sol, surra a surra, muitos foram morrendo, mas ainda assim, a fantástica força cultural do Negro manteve sua vitalidade. Reinventou-se, se moldou, e não morreu, nunca morrerá, porque agora esta é a força do Brasil.
Quando o Negro virou prejuízo, o expulsaram da senzala e cinicamente chamaram a isto de Abolição. Vagou por estradas, sem terra, emprego ou escola. Povoou morros e favelas, e excluído, ainda criou um mundo paralelo à sociedade para sobreviver. A sociedade absorveu as contribuições culturais negras, mas levantou muralhas sociais e econômicas intransponíveis à civilização negra.
O Negro foi e sempre será importante ao Brasil, mas ele ainda não se vê nas revistas nem outdoors, o Negro não está na TV, nem nos empregos mais cobiçados, social e economicamente. Nas universidades uma minoria, ínfima, é negra, embora, sob os governos petistas, o percentual tenha saltado de 3%, para 17%.
Miseravelmente, a barbárie social e cultural sofrida pelos negros não é capaz de convencer as cabeças mais atrasadas e preguiçosas sobre a necessidade, ainda que provisória, de uma política de cotas no Brasil. Vou mais longe e defendo cotas na TV e nas propagandas, onde só aparecem brancos, como se nosso país não tivesse metade da população afrodescendente.
Vamos à essência do problema, as cotas e a distribuição de renda exigirão, muito em breve, que as classes dominantes remodelem seus esquemas de dominação e, isso, obviamente, inquieta e assusta. A verdadeira abolição chegará, mas só será verdadeira quando abolir a opressão sobre os trabalhadores brasileiros, negros e não negros.

Sobre o(a) autor(a)

Fábio Chagas

sepechagas@yahoo.com.br

Doutor em História e professor universitário

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio



Ah, quantos de nós temos coragem de traduzir em palavras as explosões de afeto, fúria ou ódio, claramente estampadas em nossos olhos. Quantos de nós se escondem atrás dos véus da conveniência, ardilosas maquiagens, máscaras de bem-se-relacionar no cotidiano, guardando tudo o que nos ameaça ou fragiliza no quarto escuro de emoções cansadas, amassadas e contraditórias.
Francamente. Quase não há espaço para o amor e a ternura se acomodarem junto ao medo, a insegurança e a frieza, pois o quarto é diminuto — do tamanho de uma solitária prisional. Nele se empilham sentimentos opostos, paradoxos da alma.
A dor e a ternura se acotovelam, exaustas. Durante os dias inteiros de nossa existência, esses, dentre tantos outros sentimentos aglomerados no escuro e sujo cubículo, se empurram, pisoteiam, à cata de algumas moléculas de oxigênio que tragam um pouco de paz e conforto aos nossos conturbados corações.
Às vezes nos drogamos. Diante da tevê, por exemplo, nos esvaziamos de quaisquer convicções e competências críticas. Amortecemos vontades, iniciativas, indagações. Matamos o líder que em nós se contorce, em prol de ovelhas passivas e tristes, que pastoreiam livremente em nosso embotado cérebro.
Despendemos imensurável tempo lendo revistas sobre celebridades, escutando maledicências da vizinha, lendo jornais sensacionalistas. Também nos dedicamos com ardor às redes sociais, construindo aí inúmeros perfis sedutores, que costumam sair bem na foto.

Incorporamos à nossa pele papéis desgastados de salvadores, vítimas, benfeitores ou revolucionários. Sempre visando causar impacto. Impressionar nossa atordoada rede de famintos seguidores. Zumbis do social media. Abdicamos conscientemente das noções de espaço, tempo e conveniência. Optamos por drogas leves ou pesadas. Alucinógenos da moda, distribuídos em festinhas, shows e noitadas. O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio. A declaração de amor asfixiada na garganta. O deboche, a ironia e o cinismo encapsulados, obstruindo alguma artéria falida do nosso estressado corpo.
Falar o que se pensa de cara limpa, normalmente está fora de cogitação. Faz mal ao ego, às vaidades torpes, à assumida prevalência que ostentamos uns sobre os outros.
A vida é tanta e corre tão disseminada por nossa pele, veias e sentidos, despejando, imparcialmente, horrores e belezas únicas por nosso tortuoso destino.
Mal conseguimos divisar flores raras, pássaros belíssimos em extinção, paisagens mágicas, caminhos largos e ensolarados.
Paixões tidas como mortas ou desfalecidas reacendem com vigor, ameaçando nos queimar a língua e afoguear o rosto.
É preciso estar atento e forte para conversar com a vida, sem escondê-la das imensas demandas e os legítimos anseios que pulsam sem pudor da cabeça aos pés.
O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio. Então, aguentemos a ressaca passar, neste momento ainda emaranhado em tantos sentimentos e emoções.
Espera-se de nós, mesmo que teimemos em fechar os olhos, janelas abertas, ventos refrescantes, sorrisos plenos de verdade.
Isso é o que importa para que a felicidade, hoje tão andarilha, encontre de novo morada e aconchego em nossa boca.

Fonte: Revista Bula