segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Esperança



Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Texto extraído do livro "
Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

domingo, 30 de dezembro de 2012

As Baleias

Não é possivel que você suporte a barra
De olhar nos olhos do que morre em suas mãos
E ver no mar se debater o sofrimento
E até sentir-se um vencedor neste momento

Não é possivel que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que voce deixou manchadas

Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Que eles viram em velhos livros
Ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão

O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e à fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos
Em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão

Como é possível que voce tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro

Mudar seu rumo e procurar seus sentimentos
Vai te fazer um verdadeiro vencedor
Ainda é tempo de ouvir a voz dos ventos
Numa canção que fala muito mais de amor

Não é possivel que você suporte a barra

 - Erasmo Carlos / Roberto Carlos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Toda Forma De Amor

"Eu não pedi pra nascer
Eu não nasci pra perder
Nem vou sobrar de vítima
Das circunstâncias
Eu tô plugado na vida
Eu tô curando a ferida
Às vezes eu me sinto
Uma mola encolhida
Você é bem como eu
Conhece o que é ser assim
Só que dessa história
Ninguém sabe o fim
Você não leva pra casa
E só traz o que quer
Eu sou teu homem
Você é minha mulher
E a gente vive junto
E a gente se dá bem
Não desejamos mal a quase ninguém
E a gente vai à luta
E conhece a dor
Consideramos justa toda forma de amor"

 - Lulu Santos

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A perfeição sob a ótica dos adultos

Não sou perfeita, nunca tive essa ambição. Tenho plena consciência de que as pessoas mais interessantes que já conheci são discrepantes, ousadas e não me dão vontade de abraçá-las o tempo todo. São as arestas que tornam alguém marcante, a perfeição é nada mais que uma projeção intangível ou uma visão turva, rasa e infantil do que quer que seja. Aliás, o conceito de perfeição é pueril.
Lembra de quando você vivia [ou sobrevivia] seus tenros e inexperientes anos de adolescência? Lembra do príncipe encantado? Você sabia exatamente o que queria dele. Na minha lista, admito, constava até a textura das mãos da criatura hipotética. Ele apareceu? Se apareceu foi por algumas horas e logo desceu à condição humana ou de sapo mesmo.
Mas certamente apareceu um cara melhor do que você pode imaginar naquela época. E ele não carregava um sorriso 24h por dia no rosto mas quando o abria, iluminava tudo em volta, como se o mundo tivesse começado naquele momento.
A s pessoas só crescem quando descobrem que a perfeição é nada mais que ilusão. Nada é perfeito, ninguém é realmente perfeito. Pessoas são personagens bi, tridimensionais, serão boas e más dependendo da situação [aliás, nada mais limitado que o conceito de bom e mau]. Perfeito é fotografia com um único plano e só. Viver a vida real é admirar apesar das imperfeições. Só assim a gente cresce.
Pessoas autênticas jamais serão perfeitas ou desejarão sê-lo. A autenticidade está em aceitar-se, respeitar cada centímetro da própria personalidade. Seus amigos não são perfeitos, seus professores não são perfeitos, seus pais também não. São só pessoas e portanto não merecem apreço só pelos seus atos, destina-se afeto a alguém pelo que traz dentro de si, pelo modo como faz você se sentir.
Alguém um dia me disse que as pessoas que marcam de verdade a vida da gente vão nos decepcionar em algum momento, é a única garantia. As crianças guardarão seus brinquedos, se trancarão e irão para casa, para o seu lugar seguro, idealizar a perfeição, idealizar “Tristão e Isolda”. Contudo, os adultos saberão lidar com essa decepção assim como sabem conviver com as suas próprias arestas. Os adultos amarão na contemporaneidade, sem mitos, sem projeções, simplesmente vivendo a realidade. E amarão mais que a projeção de seus próprios valores, amarão pessoas.
Clarice Lispector escreveu “não faz sentido dividir as pessoas em boas ou más. Pessoas são apenas encantadoras ou monótonas”. Posso acrescentar que por conseqüência, não existem pessoas perfeitas. E  se você ainda as busca, por favor, volte logo ao Jardim de Infância.

 - Bruna Barievillo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente". - Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Crônica do 'VerDeMelho'

 Não há data que mexa mais com meus sentimentos de indignação que 25 de dezembro. A data em que a maioria da população celebra a hipocrisia e mediocridade humana. O dia em que se tira para se dirigir educadamente ao atendente do supermercado, ao garçom, à sogra, ou parente incoveniente, ao vizinho (que nem conhece, ou fala mal o ano inteiro), ou ainda, aquela pessoa por quem nutri um preconceito (pelos mais variados motivos). Afinal, este é um momento de união, de lembrar que somos irmãos! Vamos ser solidários! Dar brinquedos para crianças pobres, montar cestas de alimentos para os que passam necessidade o ano todo (por causa da desigualdade social), vamos abraçar, estar com nossas famílias. Proponho que, ao invés das felicitações comuns dessa época possamos desejar 'Feliz Hipocrisia! Que seja um ano muito mediocre!' Compreendam que a vida deve ser celebrada todos os dias. Devemos ser educados em todas as ocasiões. Estar junto de nossas famílias sempre que possível. Nos preocupar com os menos favorecidos constantemente. dar presentes cotidianamente. Acha difícil? Tente! Faça diferente! Para ser generoso, bondoso, paciente, consciente, feliz e amável é preciso exercício diário. Vamos dar um 'Basta!' a aqueles que tem data marcada para demonstrar boas qualidades. Gritar 'Chega!' a essa situação lamentável que vivenciamos todos os dias. E fica a reflexão: "Por que temos de ser bons uns com os outros somente no Natal? Por que não podemos ser bons com os outros todos os dias?"