quinta-feira, 8 de maio de 2014

Meus amigos queriam mudar o mundo






Hoje acordei meio saudosista. Que novidade.

Meus amigos prometeram mudar o mundo. Mais do que isso, prometeram fazer com que mais pessoas acreditassem que isso é possível. Mesmo em meio a paixões mal resolvidas e dúvidas sobre o futuro, encontrávamos soluções para todos os problemas climáticos, diplomáticos e econômicos do planeta. Bastava uma madrugada para rascunharmos respostas para a interminável guerra no Oriente Médio, a defesa da Seleção Brasileira e a então assustadora alta do dólar. Mesmo sem um puto no bolso, trabalhando e estudando, curtíamos aquele vazio entre a adolescência e a vida adulta como raros.
Tínhamos algo bastante em comum. Um gole de boa bebida sempre nos levou, do mais tímido ao mais desenvolto, a sabedoria. Esse momento de estar no seu bar preferido, com seus melhores amigos e a noite estar somente começando é impossível de ser explicado. Apenas vivido. Existem minutos da noite onde tudo parece ser mais fácil. E não dá pra negar, por mais politicamente incorretos que possa parecer, que a boa bebida esteve presente nos melhores momentos da minha amizade.
Não faço a menor ideia para o que estávamos olhando, mas devia ser engraçado
Era um bom grupo. Um grupo focado. Tinha seus ideais, metas, desejos e, principalmente, pavor do senso comum. Enquanto todos viam MTV, nós desbravávamos o Napster. Quando o pagode invadiu os lares via Domingo Legal e Faustão nós trocávamos discos do Led Zeppelin e do Joe Cocker em sebos. Vivíamos um mundo paralelo que, de alguma forma, assusta os desavisados e mesquinhos.
Mas o grande trunfo dessa turma era a noção do que se passava. Tínhamos a certeza de que vivíamos anos diferentes. Não vou cair no clichê de dizer que eram os melhores anos de nossas vidas, pois não eram. Eram anos de aprendizado. Nós tiramos proveito disso. Entre um trago e outro nos perguntávamos quanto tempo aquilo ainda duraria e como seria o a seguir. O futuro, você sabe, assusta.
Dez, nove, oito anos depois, que seja, eu faço um pós-mídia do que aconteceu. Desde nossas previsões até a experiência vivida por alguns. É um pouco idiota ver como éramos inocentes e tolos ao imaginar que tudo seria como queríamos. Meus sonhos, ou grande parte deles, não foram realizados. E o motivo é obvio: nós não sabíamos de nada.
Relembrar o passado em grande estilo é essencial e faz um bem danado
Aprendi com meus amigos que sempre há o que fazer. E, principalmente, aprender. Quisemos mudar o mundo, mas sem conhecê-lo. Ainda há tempo? Não sei. Provavelmente não. Isso talvez eu nunca saiba. Mas que esse meu relato sirva como inspiração.
Principalmente para os mais jovens, entre 18 e 20 anos. É preciso fazer gerar discussão. Vejo gente trocando o happy hour pelo chat em grupo do Facebook. Isso não pode ser bom. A distância e falta de iniciativa não gera historia. Só te torna obsoleto.
Faça-se um favor: levante-se. Mate um dia de aula. Chame um amigo para um bom papo. Conheça o mundo. Tente, sim, mudá-lo.
E não morra com essa minha dúvida.

Fonte: Papo de Homem

terça-feira, 6 de maio de 2014

"Somos donos dos nossos atos, mas não somos donos dos nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos. Podemos prometer atos. Não podemos prometer sentimentos. "Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida vou te amar..." Lindo e mentiroso. Não se podem prometer sentimentos. Eles não dependem da nossa vontade. Sua existência é efêmera. Como o voo dos pássaros."

[Rubem Alves. In: Ostra Feliz Não Faz Pérola]

Foto: Laura E. Pritchett

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Os corcundas de smartphone


Uso excessivo do aparelho faz mal ao corpo, muda relações sociais e potencializa perigos na rua, apontam os especialistas

Maria Clara Serra (Email)
Estudos apontam que pessoas que fazem uso intensivo dos aparelhos de smartphone ao longo do dia começam a apresentar problemas de coluna decorrente da má postura Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Estudos apontam que pessoas que fazem uso intensivo dos aparelhos de smartphone ao longo do dia começam a apresentar problemas de coluna decorrente da má postura Guito Moreto / Agência O Globo
Uma nova geração toma conta das ruas. Não tem gênero nem idade, mas compartilha a mesma obsessão e uma maneira distinta de ver o mundo: por meio das telas de seus telefones. São os corcundas de smartphone, um grupo numerosíssimo que faz a Humanidade “evoluir” mais um passo: da posição ereta para a curvada. Dentro de casa, em ruas, restaurantes, bares, shows, ônibus, trens e até ao volante, eles estão por toda parte. E o mais alarmante: especialistas garantem que estão todos doentes física e socialmente.
- O problema é que o grau de intensidade desse uso é tão grande que a pessoa não consegue se concentrar em outra coisa além do celular - alerta a socióloga e professora da Universidade Metodista de São Paulo Luci Praun. - O uso que se faz do aparelho não está ligado ao espaço que a pessoa frequenta. Então, ela vai mesmo para outro mundo.
Luci, no entanto, não concorda com a tese de que essa geração vive mais no mundo virtual. Essa não é a questão, segundo ela. Na maior parte do tempo, as pessoas estão, pelo telefone, relacionando-se com aqueles que fazem parte de seu convívio social. Então, por que o smartphone mesmo?
- Em minha tese de doutorado pesquisei amplamente a questão da influência dos telefones celulares no cotidiano das pessoas - conta Sandra Rúbia da Silva, doutora em Antropologia Social e professora de Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (RS). - Meus entrevistados diziam que não conseguiam viver sem o telefone celular, que o aparelho havia mesmo se tornado uma parte de seu corpo.
Para Sandra, esse tipo de obsessão gera, sim, uma alienação social, na medida que as pessoas facilmente se desligam de conversas no mundo real para checar mensagens e notificações nas redes sociais. Tanto Sandra quanto Luci acreditam que a questão é a falta de foco, que afeta tanto as relações interpessoais como o trabalho e a educação.

E o problema não tem mesmo idade. A economista Carolina Gomes já perdeu a conta do número de vezes que reclamou com seu pai, de 62 anos, por ele estar com o telefone à mesa.
- Meu pai sempre foi o mais chato com o jantar. Todo mundo tinha que estar pronto na hora certa, era o momento da reunião familiar - lembra. - Mas agora ele leva o telefone para a mesa e sempre tem a desculpa de que precisa mandar um e-mail. Na verdade, poderia fazer isso em outro momento. Eu noto (esse comportamento) em todo lugar, principalmente com meus amigos. Hoje tento me policiar, já notei que esse problema é uma falta de educação.
É a tal da doença social, com impacto direto em todos os aspectos da vida. De acordo com Luci, não é algo que parta do indivíduo. É, sim, uma demanda exacerbada pela produtividade constante do trabalho que acabou se transportando para outros campos.
- As pessoas estão adoecendo, pois se sentem cobradas. Há um grau de ansiedade embutido nesse processo, sempre temos que dar conta — avalia a socióloga. — A sensação de que as 24 horas do dia não são suficientes é generalizada. É necessário pensar esse fenômeno para além do vício em smartphones.
Escreve certo. Anda em linhas tortas
A necessidade de interagir o tempo inteiro faz com que o técnico em química Leonardo Medeiros não tire o aparelho das mãos. Ele é um dos que corroboram uma pesquisa divulgada em janeiro pela Universidade de Queensland, na Austrália, que mostrou que a mania de escrever ao telefone no meio da rua está mudando a forma como as pessoas caminham.
- Fico o dia todo no Facebook e no WhatsApp, falando com amigos, com a namorada. Já notei que ando mais devagar e não sigo uma linha reta - observa Medeiros. - Quando estou no ônibus, então, vou baixando a cabeça e, quando percebo, estou completamente corcunda. Sinto dores na coluna e no pescoço.
- Helder Montenegro, presidente da Associação Brasileira de Reabilitação de Coluna (ABRC) e do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral (ITC), diz que ainda não há comprovação científica do fato, que é muito recente, mas o comportamento, principalmente das crianças, está modificando a curvatura natural das pessoas.
- Esse é um problema que estamos antecipando. A flexão do pescoço com os ombros enrolados para a frente está deixando a coluna mais reta - afirma Montenegro. - E é essa curvatura a responsável por amortecer os impactos e estabilizar o corpo. Sem ela, acabamos modificando a anatomia dos discos intervertebrais. -
Se, antes, a preocupação eram as bolsas femininas e as mochilas das crianças na escola, a corcunda gerada pelo uso excessivo de smartphones representa um desafio bem maior para a saúde pública. O desgaste começa no músculo, vai para as articulações e termina no osso.
Especialista em RPG, a fisioterapeuta do Instituto Cohen de Ortopedia Nathassia Orestes ressalta o reduzido tamanho dos telefones como algo negativo. Quanto menor o aparelho, maior a curvatura para enxergar o que está escrito nele.
Além de aumentar o risco de acidentes - é bom lembrar que as ruas de cidades como o Rio são carregadas de obstáculos, que vão de raízes de árvores a buracos -, mergulhar os olhos no telefone ainda pode tornar a pessoa mais vulnerável a outros perigos de metrópoles brasileiras.
- Há menos de um mês eu vi um assalto, em Porto Alegre, a uma menina que estava olhando para o telefone num ponto de ônibus - diz o fisioterapeuta gaúcho Fernando Cunha.
Apesar de comemorarem a facilidade de comunicação que o telefone possibilita, ele e a namorada, a psicóloga Mariana Coelho, preocupam-se com o uso excessivo.
- Quando recebo uma mensagem no WhatsApp, dá muita vontade de olhar, mas me controlo - conta Cunha. - Já me peguei andando na rua mandando mensagem para a Mariana. Tropecei algumas vezes, mas ainda não caí.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/os-corcundas-de-smartphone-12374694#ixzz30r3Z7SiK
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O pensador do século XXI



A teoria de conhecimento desenvolvida por Paulo Freire continua sendo referência nos mais diversos países e influencia quase todas as ciências humanas, mesmo dez anos após sua morte

Por Glauco Faria e Nicolau Soares

O educador Carlos Alberto Torres era um estudante de graduação da Universidade da Patagônia pouco antes do golpe militar argentino, em 24 de março de 1976. À época, finalizava um livro sobre Paulo Freire e, munido de três cópias datilografadas, pegou um avião para Buenos Aires e entregou a obra para o editor Júlio Barreiro, que havia se comprometido a publicá-la.
Chegando lá, Júlio o cumprimentou em seu escritório com afeição, pegou o material e disse a Torres: “Vou lê-los com olhos de editor, mas tenho medo de que não poderei publicá-lo na Argentina nestas condições. Talvez nós possamos publicá-lo na Itália”.
A sentença foi um balde de água fria para o jovem educador. Muitas horas tinham sido gastas para produzir o livro em uma velha casa sem eletricidade no povoado de Trevelin, a 26 quilômetros da cidade argentina de Esquel.
Julio perguntou a Torres o que ele fazia na Patagônia e, ao saber que estava ministrando cursos em escolas e em uma universidade usando textos de Freire, Karl Marx e Jean Piaget, o interrompeu com um tom de voz preocupada: “Carlos, você precisa retornar imediatamente, pedir os programas de seus cursos, destruí-los e trocá-los por outros com bibliografias diferentes, que não incluam Piaget, Freire ou Marx. O governo está inspecionando estabelecimentos educacionais e, como estes autores foram banidos, podem haver conseqüências muito graves para aqueles que os ensinarem.”
Mesmo assim, Torres não se impressionou. “Em minha ingenuidade, perguntei a ele por que a situação lhe parecia tão difícil”, conta. Julio abriu a gaveta de sua escrivaninha e tirou de dentro uma revista muito popular na classe média. Havia duas páginas inteiras no meio com uma reportagem falando de Paulo Freire. A página da esquerda continha trechos tirados de Educação como Prática de Liberdade, a da direita passagens de Pedagogia do Oprimido. “Eram algumas das sentenças mais incendiárias dos dois livros, deslocadas totalmente do contexto original”, recorda Torres.
Ao fim da matéria, a sentença que resumia tudo: “a Revolução Argentina foi feita contra este tipo de educação marxista para nossas crianças”. Julio fechou a revista, olhou para Torres diretamente nos olhos e explicou que era preciso ser muito cuidadoso naquele tempo em particular. “Esta conversa mudou minha vida e talvez tenha salvado a mim e à minha família de um futuro de tortura ou morte certa”, conta.
A história acima não ocorreu apenas na Argentina. Ela se refletiu também no Brasil e em diversos países onde o pendor autoritário não permitia que Paulo Freire fosse sequer lido, quanto mais publicado. Não à toa, todos aqueles que comandavam regimes autoritários percebiam nele o potencial revolucionário que de fato sua obra tentava traduzir não somente por um método de ensino, mas utilizando-se de uma nova teoria do conhecimento que subvertia boa parte da tradição filosófica ocidental.
“Estou tentando fazer o Paulo Freire entrar mais na universidade, mostrando que ele era uma pensador rigoroso, não apenas intuitivo, sem rigor científico. Ele contrariou a ontologia aristotélica, toda nossa teoria do ser, a tradição ocidental, que diz que tudo o que existe é uma estrutura”, explica o professor José Eustáquio Romão, estudioso da obra freireana e que também conviveu com Paulo Freire entre 1986 e 1997. “Não existe o ‘ser’, mas sim o ‘está sendo’. Segundo Paulo, todos somos incompletos, já que precisamos uns dos outros; inconclusos, já que estamos em transformação; e inacabados, ou seja, imperfeitos”, argumenta.
Romão explica que o cerne do pensamento freireano está justamente na insatisfação que move o ser humano para o “ser mais”. “Aristóteles dizia que o que diferencia o ser humano dos outros seres é o raciocínio. Paulo Freire olhava pro cachorro dele e dizia ‘não tenho certeza se esse cachorro não pensa. Mas sei o que sou e fico insatisfeito por ser assim, por isso me esforço para não ser o que sou. Já o cachorro não faz esse esforço’”, analisa. “Não é à toa que ele desenvolve uma teoria do ser, que é a pedagogia do oprimido, e a teoria do ser mais, a pedagogia da esperança. O que diferencia o ser humano é a capacidade ter esperança, de ‘esperançar’”, conclui.
Romão conta que a primeira obra que leu de Freire sequer havia sido publicada, era o texto escrito para um concurso de professor na Faculdade de Belas Artes do Recife, publicado após sua morte pelo próprio Romão. Educação e atualidade brasileira tinha, na nota de rodapé 14, uma crítica pontual ao pensamento vigente à época na intelectualidade brasileira.
“Os grandes autores à época, principalmente o pessoal do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, diziam que o Brasil era subdesenvolvido, mas havia chegado a hora da virada, motivada pelo projeto nacional-desenvolvimentista. De acordo com eles, o contexto era favorável à revolução”, elucida Romão. A tese de Paulo Freire era de que, naquele momento, o povo emergia na arena política, uma relativa novidade para um país com a tradição autoritária do Brasil. Mas, ao mesmo tempo, Freire dizia que a revolução não seria possível, “porque não adiantava o cavalo estar arriado, era preciso montá-lo”, segundo o professor. “Ou seja, era preciso um processo de educação popular, um processo pedagógico. Ele fez algo extremamente marxista, existia a tese, a antítese, mas ainda não a síntese. Os intelectuais tinham parado na antítese. Aquilo era um projeto populista, tinha um limite estrutural nele mesmo.”
Em todo lugar A teoria freireana se estende não apenas por inúmeras áreas do conhecimento humano, mas também por diversos países que têm realidades totalmente diferentes. Foram dezenas de livros publicados em mais de 30 idiomas e outros 40 títulos honoris causa. Seu nome está relacionado a mais de cem instituições em todo o planeta.
Nos Estados Unidos, Paulo Freire é inspiração para educadores, mas também se firmou como referência política, influenciando no campo de atuação da esquerda norte-americana. “Ele sempre foi conhecido aqui como revolucionário em educação de adultos nos anos 1970 e no início dos 1980”, explica Carlos Alberto Torres, o jovem do início do texto, hoje radicado nos EUA. “Entretanto, com sua introdução em programas de treinamento de professores nos Estados Unidos, Freire foi rapidamente colocado como um ‘guru’ da Nova Esquerda nos EUA e também internacionalmente. Seu trabalho transcende o campo da educação e suas teorias são praticadas e aplicadas em diversos setores, particularmente aqueles ligados a políticas culturais”, pontua.
Boa parte do reconhecimento internacional que Freire granjeou decorre de um verdadeiro trabalho militante. Foram centenas de viagens feitas por ele durante toda sua vida e muitos daqueles que hoje divulgam suas teorias e práticas as conheceram por meio do próprio educador. É o caso de Daniel Schugurensky, professor associado do Instituto Ontario para Estudos em Educação da Universidade de Toronto. “Eu era muito interessado nas idéias de Freire desde que era um adolescente porque naquele tempo estava ansioso para encontrar caminhos que contribuíssem para uma mudança social através da educação”, explica. “Aqui, Freire é muito conhecido. Ele passou parte do verão de 1976 ministrando um curso de pós-graduação e desta passagem temos três vídeos nos quais dois educadores de adultos de nosso instituto o entrevistam. No ano seguinte da sua visita a Toronto, um grupo local ligado a sindicatos progressistas começou a realizar uma série de atividades de educação popular”, recorda. Ele ressalta que o legado freireano é significativo em seu país. “Não apenas eu, mas muitos de meus colegas aqui tratamos de aplicar os princípios freireanos a nossa prática pedagógica e política em nossas atividades cotidianas, em nossa relação com nossos estudantes, com nossas comunidades, e em nossa própria organização interna, tratando de ser cada vez mais democráticos e criar estruturas mais democráticas. Também há professores aplicando princípios freireanos em escolas secundárias do Canadá”.
Mas em países onde a realidade é menos rósea do que no Canadá, as teses do educador adquirem um outro tipo de importância. Deena Soliar é uma das dirigentes do Centro Umtapo da África do Sul, um dos muitos países visitados por ele no continente, e conta como as sua teoria chegou ao país. “Ele foi introduzido na África do Sul no início dos anos 1970 por Anne Hope, que conduziu o primeiro treinamento baseado na filosofia de Freire para um grupo de ativistas da Consciência Negra, incluindo Steve Biko. Já estávamos convencidos que conscientização através da educação popular era a chave para os problemas do país e dessa forma um dos pilares fundamentais da fundação da Umtapo foi a filosofia freireana”, explica.
Assim como em outros locais, na África do Sul a área da educação também é um campo em que se travam disputas políticas, com diferentes concepções a respeito do papel da educação. Deena e a Umtapo lutam para promover a educação popular e a aplicação da teoria freireana tem sido fundamental para o sucesso dessa empreitada. “Em 1991, a Umtapo fundou a Associação para Alfabetização e Educação de Adultos, afiliada à Associação Africana por Alfabetização e Educação de Adultos, em oposição a outras entidades dominadas por liberais no país que eram críticas de Freire. Agora temos tentado nos últimos anos estabelecer uma ampla coalizão internacional de educadores populares comprometidos com a filosofia e o método freireanos”, conta. A Umtapo também honrou Freire ao premiá-lo postumamente com o Prêmio Steve Biko da Paz Internacional em 2005 e produziu um manual de treinamento para jovens ativistas comunitários em seu nome.
A cultura da paz também foi influenciada pelo educador pernambucano. Davi Windholz foi um dos fundadores do Instituto Paulo Freire em Israel e começou a trabalhar em bairros pobres utilizando a teoria freireana em programas de desenvolvimento de lideranças sociais. “O programa era patrocinado pela Universidade de Jerusalém, e todo o trabalho baseava-se em formação de grupos de lideranças locais para a melhoria das condições de vida desses bairros”, explica. “Acreditávamos que não tínhamos o direito de ir a
esses bairros com uma postura de ‘donos da verdade’ como vinham os assistentes sociais, em geral. Nós, estudantes, e eles, moradores dos bairros pobres, vivíamos em dois mundos diferentes e sem contato. O diálogo era a única forma de poder unir esses dois mundos e achar um meio que pudesse nos libertar, juntos.”
Em um país onde o equilíbrio social é frágil e os conflitos são inúmeros, trabalhar com a filosofia freireana pode ser uma boa saída. “Apesar de todas as diferenças, o diálogo e a educação libertadora são as únicas formas positivas de influir nos processos sociais e educacionais que promovemos”, acredita Windholz, que hoje trabalha com o projeto AlterNative, que busca promover o poder comunitário e a integração étnica.
Música e alternância Além de estar presente em vários lugares com realidades absolutamente distintas, Paulo Freire também se faz presente em diferentes áreas do conhecimento humano, inclusive na música. A dissertação de mestrado de Estevão Teixeira foi sobre alfabetização musical utilizando a teoria freireana, com a intenção de valorizar a cultura popular e rema contra a educação musical tradicional. “Sou professor em conservatório e percebi que quem tem aula ali, aprende por quinze, vinte anos, e não toca nada sem partitura”, conta. “Os músicos populares são considerados analfabetos musicais e, embora Paulo Freire tenha dito que não basta ler, mas é preciso ler dentro do contexto, existe aí uma dominação simbólica. Sempre houve muita ênfase na música erudita e boa parte dos professores não deixa tocar de ouvido”, critica.
Assim, Teixeira desenvolveu o Teclado Didático para o Ensino da Música (Tedem), que ele define como um “ábaco musical”. Trata-se de um teclado onde as teclas se levantam do plano horizontal, possibilitando uma maior compreensão de todas as estruturas musicais. “É um método que não se volta somente à alfabetização musical, mas voltado à formação da criança”, assegura. Em 2004, Estevão lutou para que fosse aprovada em Juiz de Fora (MG) a Lei Municipal (nº 10.861), com o objetivo de reinserir o ensino da música nas escolas públicas da rede municipal de ensino fundamental.
A teoria freireana chega também ao campo. Na cidade baiana de Jaguaquara, a Escola Rural Taylor Egídio trabalha com 600 alunos num regime de internato, mas com uma proposta de pedagogia de alternância. Enquanto 300 crianças estão na escola, 300 estão em suas casas e são visitadas diariamente. “A idéia da alternância é uma imersão na educação formal sem tirar a criança de sua realidade. Ela transita entre educação formal e a vida de sua casa. O grande objetivo é fortalecer o campo, o saber local. Pretendemos que as crianças voltem para a roça e coloquem em prática nos seus quintais, nas plantações dos pais, o que aprenderam na escola, e que possam ensinar para os pais”, esclarece Sonilda Sampaio Santos Pereira, diretora da escola.
“Na sala de aula, é proposto para os alunos uma construção de conhecimento a partir da realidade de cada uma, do concreto das vidas”, explica Sonilda, ressaltando a interdisciplinariedade presente no cotidiano da escola. “Juntamente com a construção da leitura, especialmente da leitura mundo e da palavra escrita, tratamos também a música. Temos uma banda, trabalhamos a questão da voz, informática, fazemos tarefas com Lego. Mas o eixo de todas as práticas é o campo, que é muito explorado nas aulas de agricultura.”
Mas de fato o que mais impressiona na teoria freireana, além da sua atualidade, é a capacidade de se reinventar, mesmo dez anos após sua morte. Ao contrário de outros intelectuais, à medida que o tempo passa, Paulo Freire é ainda mais reconhecido pela amplitude de sua obra. “Reconhecemos Freire como um dos grandes educadores do século XX e sempre revisamos sua obra e revisitamos suas contribuições à educação para entender os mecanismos de reprodução social e mudança”, conta Daniel Schugurensky. “Ao mesmo tempo, Freire sempre pediu que não o copiássemos, mas que o reinventássemos, e, aqui em Toronto, estamos colaborando com os esforços que estão sendo feitos no Brasil e em outras partes do mundo para reinventar Freire e nos preparar para os desafios do século XXI”, completa.
Reinvenção é o termo que Carlos Alberto Torres também usa para explicar o que se desenvolve hoje na Universidade da Califórnia (UCLA). “O Instituto Paulo Freire na UCLA está desenvolvendo séries de cursos de treinamento profissional para professores do fundamental e do ensino médio em colaboração com o Programa de Educação de Professores da UCLA. O propósito destes cursos é guiar professores por aplicações teóricas e práticas da pedagogia crítica de Paulo Freire em classes urbanas e multiculturais”, aponta. “O objeto deste cursos não é apenas a aplicação de contribuições de Paulo Freire e de seus seguidores, mas sua reinvenção. A idéia é ligar pesquisa, teoria e prática em um caminho único, que vai permitir a educadores jovens e treinados nas universidade a ensinar seus estudantes, muitos deles filhos de imigrantes recentes a entender e navegar nas complexas e muitas vezes violentas comunidades em que eles vivem. De forma crítica e com compaixão ao mesmo”, conclui.
Para José Eustáquio Romão, o grande legado de Paulo Freire pode ter um significado para a área das Ciências Humanas que equivale a de outros grandes pensadores do século XX. “Charles Darwin, Sigmund Freud e Karl Marx tiveram que criar teorias de conhecimento para explicar o que não podiam por conta das circunstâncias históricas, não acharam elementos disponíveis que pudessem auxiliá-los. Creio que a teoria criada por Freire ainda será a grande teoria do século XXI”. Alguém tem dúvidas?

 Fonte: Revista Fórum

sábado, 3 de maio de 2014

Cientistas descobrem como os egípcios moveram pedras gigantes para formar as pirâmides

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Uma civilização antiga, sem a ajuda de tecnologia moderna, conseguiu mover pedras de 2,5 toneladas para compor suas famosas pirâmides. Mas como? A pergunta aflige egiptólogos e engenheiros mecânicos há séculos. Mas agora, uma equipe da Universidade de Amsterdã acredita ter descoberto o segredo – e a solução estava na nossa cara o tempo todo.
Tudo se resume ao atrito. Os antigos egípcios transportavam sua carga rochosa através das areias do deserto: dezenas de escravos colocavam as pedras em grandes “trenós”, e as transportavam até o local de construção. Na verdade, os trenós eram basicamente grandes superfícies planas com bordas viradas para cima.
Quando você tenta puxar um trenó desses com uma carga de 2,5 toneladas, ele tende a afundar na areia à frente dele, criando uma elevação que precisa ser removida regularmente antes que possa se ​​tornar um obstáculo ainda maior.
A areia molhada, no entanto, não faz isso. Em areia com a quantidade certa de umidade, formam-se pontes capilares – microgotas de água que fazem os grãos de areia se ligarem uns aos outros -, o que dobra a rigidez relativa do material. Isso impede que a areia forme elevações na frente do trenó, e reduz pela metade a força necessária para arrastar o trenó. Pela metade.
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Ou seja, o truque é molhar a areia à frente do trenó. Como explica o comunicado à imprensa da Universidade de Amsterdã:
Os físicos colocaram, em uma bandeja de areia, uma versão de laboratório do trenó egípcio. Eles determinaram tanto a força de tração necessária e a rigidez da areia como uma função da quantidade de água na areia. Para determinar a rigidez, eles usaram um reômetro, que mostra quanta força é necessária para deformar um certo volume de areia.
Os experimentos revelaram que a força de tração exigida diminui proporcionalmente com a rigidez da areia… Um trenó desliza muito mais facilmente sobre a areia firme [e úmida] do deserto, simplesmente porque a areia não se acumula na frente do trenó, como faz no caso da areia seca.
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Estas experiências servem para confirmar o que os egípcios claramente já sabiam, e o que nós provavelmente já deveríamos saber. Imagens dentro do túmulo de Djehutihotep, descoberto na Era Vitoriana, descrevem uma cena de escravos transportando uma estátua colossal do governante do Império Médio; e nela, há um homem na frente do trenó derramando líquido na areia. Você pode vê-lo na imagem acima, à direita do pé da estátua.

Agora podemos finalmente declarar o fim desta caçada científica. O estudo foi publicado na Physical 
Review Letters. [Universidade de Amsterdã via Phys.org via Gizmodo en Español]

Imagens por wmedien/Shutterstock; Al-Ahram Weekly, 5-11 de agosto de 2004, edição 702; Universidade de Amsterdã

Fonte: GizModo Brasil

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre verdades e óvulos


por: Luísa Alves

“O espermatozoide penetra no óvulo, ocorrendo a fecundação.”

fecundaçao
Legenda original: “Fecundação do óvulo por um espermatozoide”. Fonte: http://tele-fe.com

Frases semelhantes a essa são frequentemente encontradas em livros didáticos, sites na internet ou até mesmo em artigos científicos. E o que tem de errado nelas? Ora, é a ciência que diz ser assim, então deve ser, não? Bom… não necessariamente. Cientistas são pessoas, seres humanos, Homo sapiens e, como tais, possuem cultura, possuem contexto. Essa cultura influencia a forma de cada um ver o mundo e, portanto, de fazer ciência. Seguindo essa linha, os resultados das pesquisas científicas não são fatos verdadeiros e universais, mas sim interpretações que os cientistas fazem do mundo: elas dependem dos métodos de pesquisa utilizados, do contexto em que a pesquisa é feita, da história de vida dos cientistas, dos interesses da sociedade na pesquisa e por aí segue a enorme lista de influências. Pra exemplificar essa parcialidade da ciência, trago o tal exemplo da fecundação: “o espermatozoide penetra no óvulo”. Qualquer semelhança com “o pênis penetra na vagina” não é mera coincidência. Mais ainda, qualquer semelhança com os papeis sociais de homem-ativo-dominante e mulher-passiva-dominada não é absolutamente coincidência alguma.
Os óvulos são comumente descritos como passivos, imóveis. Os espermatozoides, por sua vez, costumam ser caracterizados como ativos e rápidos. Assim, cabe ao óvulo esperar a chegada e entrada dos espermetazoides, e estes sim realizam uma longa jornada, cheia de obstáculos a superar. Você pode ficar surpreso(a) em saber que estudos científicos mostraram que a força do flagelo (aquela cauda do espermatozoide, que permite que ele “nade”) não apenas é fraca demais para ajudá-lo a “penetrar” no óvulo, como move o espermatozoide mais significativamente para os lados, não para frente. Isso faz com que a tendência dos espermatozoides seja, não de entrar no óvulo, e sim de se afastar dele. Como ocorre a fecundação, então? Alguns cientistas descobriram que as superfícies do óvulo e do espermatozoiude “grudam” uma na outra, impedindo que eles se afastem. Outros cientistas observaram, ainda, que os óvulos emitem finos “braços” de membrana (chamados microvilosidades) que envolvem os espermatozoides e os transportam para dentro dos óvulos. Ou seja, o espermatozoide, longe de penetrar ativamente no óvulo, é mais precisamente “puxado” pra dentro, o que torna a fecundação um processo com participação das duas partes envolvidas: feminina e masculina, numa interação mútua. E se você estiver pensando que nunca ouviu falar disso porque são estudos recentes, bom… eles são das décadas de 1970 e 1980.
Mas se o óvulo não é lá tãão passivo assim, porque ele continua sendo representado dessa maneira por todos os lados? Talvez porque, na nossa cultura, seja realmente muito difícil aceitarmos que feminino nem sempre significa passivo, e que essa é apenas uma construção social; que mulheres não são naturalmente passivas e homens naturalmente ativos, mas que nós somos criados desde pequenos para nos enquadrarmos nesses padrões de “feminino” e “masculino”, de forma que eles acabam virando “verdades”.
Esse foi apenas um dentre tantos exemplos de como os conhecimentos científicos não são neutros, mas sim estão permeados de relações sociais e de poder, de estereótipos, culturas, contextos e parcialidades. Por isso, vamos olhá-los com mais cuidado, tentando perceber as visões que eles expressam, para além daquilo que é “biológico”, “físico” ou seja lá qual for o campo de estudo. A ciência é uma atividade social, e por isso é sempre influenciada pelas relações sociais dos sujeitos que a produzem. Afinal,
A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma visão de mundo.…A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma fantasia.” [James Hillmam, O mito da Análise].
Texto baseado em uma parte do artigo “The egg and the sperm: how science has constructed a romance based on stereotypical male-female roles”, de Emily Martin, 1991.

 Fonte: Blog PECEP

quinta-feira, 1 de maio de 2014

“Mata-me depressa, pois já matas-te a minha ilusão...”



A cada vez que assisto PÉ NA COVA de Miguel Falabella, não é só o riso que me pega. É o que está por trás, desde a escrita a várias mãos, a direção requintada de Cininha e o apelo bom àquilo que o subúrbio tem de melhor: a vizinhança e seu entorno. Um entorno interpretado por gente que sabe fazer, e entendeu o espírito da coisa.
Quem nunca passou por clichês “pinimbados”, ou precisou - ainda que numa situação hesitante – de um vizinho? Uma xícara de café? Um ovo? Uma extensão ou um xarope pra tosse?
Nossos pés estão na cova por essa falta de delicadeza pra com o outro. Pela falta de sensibilidade pra superar preconceitos. Pela falta de ouvidos pra escutar seja causos ou lorotas, mas, que preenchem a vida de quem está ali, na sua frente relatando-os. E nem que seja uma vogal há de bater diferente lá no íntimo de quem ouve.
É como se a TV Globo por intermédio desses artistas todos expusesse feridas do cotidiano brasileiro que a própria mídia (incluindo ela) insiste em não mostrar. Ainda mais agora, que somos o país da Copa quando temos que valorizar menos o “pão com ovo” ou o “bife com batatas fritas” a “dei real”, pra comer a mesma coisa pagando “quarenta” pra ainda que no pseudo prato achar que se está fora do subúrbio. Fora do que somos nós.
O Brasil é suburbano... “Suburbano Coração”, como escreveu Naum, que me veio à mente no episódio de hoje com título cantado lindamente por Núbia Lafayette (aliás, as trilhas do programa são deliciosas e coerentes sempre). O que vi me levou à peça protagonizada por Lovemar, e suas loucuras por amor. Todos frustrados. A desilusão pela ilusão!
O amor ilude sim. Os sentimentos fortes – todos eles – que arrepiam e que arrebatam, que nos fazem chorar, são ilusórios. Em quase todo o seu tempo de existência. Mas, sem eles o que seria de nós? Seres já, lá dentro da cova, que nem precisariam ser “mortos depressa” porque a secura do coração já o teria feito antes.
Se a ilusão então é o engano dos sentidos, os olhos lacrimejantes de Rubens Araújo (Floriano) no episódio de hoje, vendo e revendo internamente uma serenata ao luar pra alguém que nem ali estava (Marília Pera), é a maior prova de que devaneios podem se tornar reais e nos encher de vontade de vida. Que eu, particularmente, acho que é o mote do programa.