segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Carolina Maria de Jesus, a escritora que o Brasil esqueceu.

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Semi-analfabeta, negra e favelada, Carolina foi mãe de três filhos e nunca se casou.
Apesar de tais condições, a paixão dela pela escrita e leitura
foi tamanha que passou a dividir seu tempo entre catar papel, cuidar dos filhos e escrever.
Lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960,
Quarto de Despejo ganhou oito edições no mesmo ano,
tendo mais de 100 mil exemplares vendidos na época.




carolina_maria_de_jesus_5 Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de Março de 1914 em Sacramento, estado de Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência.

carolina_maria_de_jesus_5 Foi filha de negros
que, provavelmente, migraram do Desemboque para Sacramento quando da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agro-pecuárias.
carolina_maria_de_jesus_5 Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, repórter da Folha da Noite, Carolina teve suas anotações publicadas em 1960 no livro Quarto de Despejo, que vendeu mais de cem mil exemplares. A obra foi prefaciada pelo escritor italiano Alberto Moravia e traduzida para 29 idiomas. Em 1961, o livro foi adaptado como peça teatral por Edi Lima e encenado no Teatro Nídia Lícia, no mesmo ano. Sua obra também virou filme, produzido pela Televisão Alemã, que utilizou a própria Carolina de Jesus como protagonista do longa-metragem Despertar de um sonho (inédito no Brasil).

carolina_maria_de_jesus_5 Quanto a sua escolaridade em Sacramento, provavelmente foi matriculada em 1923, no Colégio Allan Kardec, primeiro Colégio Espírita do Brasil, fundado em 31 de Janeiro de 1907, por Eurípedes Barsanulfo. Nessa época, as crianças pobres da cidade eram mantidas no Colégio através da ajuda de pessoas influentes. A benfeitora de Carolina Maria de Jesus foi a senhora Maria Leite Monteiro de Barros, pessoa para quem a mãe de Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação formal na leitura e escrita advêm deste pouco tempo de estudos.
carolina_maria_de_jesus_5 Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu em Sacramento, por ser negra e pobre, Carolina revela através de sua escritura a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade.
carolina_maria_de_jesus_5 A obra mais conhecida, com tiragem inicial de dez mil exemplares esgotados na primeira semana, e traduzida em 13 idiomas nos últimos 35 anos é Quarto de Despejo. Essa obra resgata e delata uma face da vida cultural brasileira quando do início da modernização da cidade de São Paulo e da criação de suas favelas. Face cruel e perversa, pouco conhecida e muito dissimulada, resultado do temor que as elites vivenciam em tempos de perda de hegemonia. Sem necessidade de precisarem as áreas de onde vem os perigos, a elite que resguarda hegemonias não suaviza atos e conseqüências quando ameaçadas por “gente de fora” (leia-se, “gente de baixo”). Essa literatura documentária de contestação, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo de denúncia dos anos 50-60, é hoje a literatura das vozes subalternas que enunciam-se, a partir dos anos 70, pelos testemunhos narrativos femininos.
carolina_maria_de_jesus_5 Segundo pesquisas do professor Carlos Alberto Cerchi, Quarto de Despejo inspirou diversas expressões artísticas como a letra do samba “Quarto de Despejo” de B. Lobo; como o texto em debate no livro “Eu te arrespondo Carolina” de Herculano Neves; como a adaptação teatral de Edy Lima; como o filme realizada pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista do filme “Despertar de um sonho” (ainda inédito no Brasil); e, finalmente, a adaptação para a série “Caso Verdade” da Rede Globo de Televisão em 1983.
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Carolina Maria de Jesus com Clarice Lispector.

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Livro autografado por Carolina Maria de Jesus


carolina_maria_de_jesus_5 Em São Paulo,  foi empregada doméstica, auxiliar de enfermagem, artista de circo.
carolina_maria_de_jesus_5 A escritora deu entrevistas, ganhou prêmios, apareceu na TV. Deixou a favela, recebeu as chaves da cidade. Mas seus livros seguintes não tiveram a mesma repercussão. Logo seria esquecida. Já não era favelada, mas morreu no barraco de um dos filhos
carolina_maria_de_jesus_5 O livro Quarto de despejo vendeu 10 mil exemplares em uma semana. Contradição: no dia do lançamento, teve de catar papel para garantir comida.
  carolina_maria_de_jesus_5 Em maio de 1958 o repórter Audálio Dantas chega à favela para cobrir a inauguração de um parque infantil. Fica intrigado com a mulher (Carolina Maria de Jesus, no caso) que ameaça bêbados sobre os brinquedos: “Se não saírem daí, vou colocá-los em meu livro!”
carolina_maria_de_jesus_5 A obra de Carolina Maria de Jesus é um referencial importante para os Estudos Culturais, tanto no Brasil como no exterior.
carolina_maria_de_jesus_5 Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima.
carolina_maria_de_jesus_5 Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, com 62 anos de idade e foi sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 Km do centro de São Paulo.



CAROLINA


mulheresdefibra2_92 “Quarto de Despejo” antecipou o gênero “depoimento” e “testemunho” que, no final do século XX, tanto encanta leitores e estudiosos da literatura. No caso dos diários de Carolina, no entanto, ao desejo de conhecer a vida alheia soma-se um outro fator de interesse: o cotidiano que seu livro devassa é muito distinto daquele em que vivem seus leitores. Já pelo título da obra de estréia, o leitor percebe que vai adentrar lugares aos quais não está habituado.
   mulheresdefibra2_92 Promete e traça uma cartografia de espaços degradados, relacionados a restos, a desordem, a coisas que ninguém mais quer. A própria Carolina desvela a metáfora que serve de título ao seu livro:

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(…) em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.
mulheresdefibra2_92 A vontade de conhecer e entender o outro, na busca por um mundo mais justo manifesta-se com freqüência nos anos sessenta, talvez na esteira da vitoriosa revolução socialista cubana. Também nessa época intensifica-se o movimento feminista, passando as mulheres a exigir condições de vida e de trabalho iguais às dos homens. Veja na cronologia alguns eventos ligados ao feminismo. Ainda que muito tenuemente, começa-se a pensar que, embora sejamos todos diferentes (mulheres e homens, negros e brancos, brasileiros e europeus) devemos ser todos tratados de forma igual, devemos ter todos os mesmos direitos e oportunidades.



Gold-star-graphic Quando consegue algum alimento, a narradora reflete sobre sua condição de pessoa expulsa do mundo humano:
“Quando eu levava feijão pensava: hoje eu estou parecendo gente bem, vou cozinhar feijão. Parece até um sonho!”
Gold-star-graphic A miséria que presencia é tão chocante que Carolina acha que alguém poderia não acreditar no que conta:
“…. Há existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá… isto é mentira! Mas, as misérias são reais.”
Gold-star-graphic Com grande senso crítico, a autora destaca as visitas do padre à favela:
“De manhã o padre veio dizer missa. Ontem ele veio com o carro capela e disse aos favelados que eles precisam ter filhos. Penso: porque há de ser o pobre quem há de ter filhos ¬ se filhos de pobre tem que ser operário? (…) Para o senhor vigário, os filhos de pobre criam só com pão. Não vestem e não calçam.”
Gold-star-graphic O contraste entre a favela e a cidade é percebido com acuidade e senso crítico por Carolina:
“Quando eu vou na cidade tenho a impressão de que estou no paraíso. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas.Aquelas paisagens há de encantar os visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas.”
Gold-star-graphic Fatos corriqueiros como brigas entre marido e mulher, entre as mulheres e os bêbados, a presença da Rádio Patrulha, mortes por intoxicação com alimentos putrefatos são narrados com detalhes por Carolina:
“Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impressiono. Despertei com um bate-fundo perto da janela. Era a Ida e a Amália.A briga começou lá na Leila. Elas não respeitam nem a extinta. O Joaquim interviu pedindo para respeitar o corpo. Elas foram brigar na rua.”
Gold-star-graphic Ao olhar atento da narradora nada escapa:
“…. Nas favelas, as jovens de 15 anos permanecem até a gora que elas querem. Mescla-se com as meretrizes, contam suas aventuras [...] Há os que trabalham. E há os que levam a vida a torto e a direito.As pessoas de mais idade trabalham, os jovens é que renegam o trabalho. Tem as mães, que catam frutas e legumes nas feiras. Tem as igrejas que dá pão.”
Gold-star-graphic Sempre em atrito com os vizinhos por causa dos filhos, Carolina diz:
“ Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos.”
Gold-star-graphic Carolina demonstra ser uma pessoa exatamente atualizada em relação ao que se passa na vida política do país, o que se comprova pelas constantes referências aos políticos em destaque na época, como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek.A exploração da boa-fé do povo pelos políticos na época de eleições, as visitas dos candidatos à favela, os pequenos agrados e as promessas não cumpridas são registradas pela narradora de forma crítica e consciente:
“…. Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente
que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olho o povo com os olhos semicerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.”
Gold-star-graphic Sobre sua obra, Carolina afirma:
“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.”


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- Gregori

Fonte: Livres Pensadores

domingo, 5 de janeiro de 2014

"Estou em harmonia comigo, com todas as pessoas e com todo o Universo – e tudo o que me acontece é para o meu bem. Mesmo involuntariamente, de alguma forma, desejando ou não, todos colaboram para que se materializem todos os meus desejos positivos. Assim, como só quero o bem para mim e para todos, atraio sempre o melhor. Mesmo que alguém, por qualquer motivo, tente me prejudicar, acabará agindo a meu favor. Desta forma, meu equilíbrio está sempre no nível ideal, e todo o Bem que de mim flui, volta para mim sempre multiplicado."

  - Fausto Oliveira

sábado, 4 de janeiro de 2014

Falta de educação e velocidade


"Os motoristas americanos e europeus impressionam
pela educação. Não por serem bonzinhos ou melhores
do que nós, mas porque temem a lei"

Os anjos da morte estão cansados de nos recolher, a nós que nos matamos ou somos assassinados no tráfego das estradas, cidades, esquinas deste país. Os anjos da morte estão exaustos de pegar restos de vidas botadas fora. Os anjos da morte andam fartos de corpos mutilados e almas atônitas. Os anjos da morte suspiram por todo esse desperdício.
Ilustra��o At�mica Studio

Não sei se as propagandas que tentam aos poucos aliviar essa tragédia ajudam tanto a preservar vidas quanto as intermináveis, ricas e coloridas propagandas de cerveja ajudam a beber mais e mais e mais, colaborando para uma parte dessa carnificina. Mas sei que estou no limite. Não apenas porque abro jornais, TV e computador e vejo a mortandade em andamento, mas porque tenho observado as coisas em questão. Recentemente, dirigindo numa auto-estrada, percebi um motorista tentando empurrar para o canteiro central um carro que seguia à minha frente na faixa esquerda, na velocidade adequada ao trajeto. Chegava provocadoramente perto, pertinho, pertíssimo, quase batia no outro, que se desviava um pouco lutando para manter-se firme no seu trajeto sem despencar.
Logo adiante, pára tudo, um acidente grave. O motorista do carro assediado, um senhor de cabelos brancos, desce, vai até o carro do imbecil agora parado à sua frente, fala, gesticula, numa justa ira. Depois volta ao carro, em que a família o espera. Recomeça o tráfego, perco os dois de vista. Mas fica em minha memória um motorista boçal tentando fazer um inocente perder o controle do carro. Era inconseqüente por natureza, era um agressivo perigoso, ou estaria simplesmente alcoolizado às 8 da manhã?
Outro dia observei na televisão um motorista, apanhado a quase 200 por hora, sendo entrevistado ainda dentro do carro. Fiquei impressionada com seu sorriso idiota, o arzinho arrogante, o jeito desafiador com que encarou a câmera num silêncio ofendido, quando perguntado sobre as razões da sua insanidade. Todo o seu ar era de quem estava coberto de razão: a lei e a segurança dos outros e a dele próprio nada valiam diante da sua onipotência.
Atenção: os jovens são – em geral, mas não sempre – mais arrojados, mais imprudentes, têm menos experiência na direção. Portanto, são mais inclinados a acidentes, bobos ou fatais, em que a gente mata e morre. Mas há um número impressionante de adultos – mais homens do que mulheres, diga-se de passagem, porque talvez sejam biologicamente mais agressivos – cometendo loucuras ao dirigir, avançando o sinal, quase empurrando o veículo da frente com seu pára-choque, não cedendo passagem, ultrapassando em locais absurdos sem a menor segurança, bebendo antes de dirigir, enfim, usando o carro como um punhal hostil ou um falo frustrado.
Cada um se porta como quer – ou como consegue. Isso vem do caráter inato, combinado com a educação recebida em casa. Quando esse comportamento ultrapassa o convívio cotidiano e pode mutilar pais de família, filhos e filhas amados, amigos preciosos, ou seja lá quem for, então é preciso instaurar leis férreas e punições comparáveis. Que não permitam escapadelas nem facilitem cometer a infração com branda cobrança. Que não admitam desculpas e subterfúgios, não premiem o erro, não pequem por uma criminosa omissão.
Precisamos em quase tudo de autoridade e respeito, para que haja uma reforma generalizada, passando da desordem e do caos a algum tipo de segurança e bem-estar. Os motoristas americanos e europeus impressionam pela educação. Não por serem bonzinhos ou melhores do que nós, mas porque temem a lei, a punição, a cassação da carteira, a prisão, por coisas que aqui entre nós são consideradas apenas "normais", meros detalhes, "todo mundo faz assim".
Autoridade justa, mas muito rigorosa, é o que talvez nos deixe mais lúcidos e mais bem-educados: em casa, na escola, na rua, na estrada, no bar, no clube, dentro do nosso carro. E os fatigados anjos da morte poderão, se não entrar em férias, ao menos relaxar um pouco.

 - Lya Luft é escritora

 Fonte: Revista VEJA - Ponto de Vista

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sobre Julião Resende



Ele sempre quis entender a vida de uma maneira torta. Talvez por medo de que tudo desse certo. Muitas pessoas estão acostumadas aos confrontos emocionais, verbais ou quaisquer outros – a paz não faz parte de seu vocabulário. E isso acontecia com Julião Resende. Os amores de suas vidas nunca lhe foram suficientes, os amigos sempre deixavam a desejar, os pais eram maus e nunca lhe trataram como esperava. Julião nunca estava satisfeito. Na verdade, se tudo estivesse bem ainda estava ruim, pois faltava sinceridade por parte de quem lhe oferecia algo. O medo de ser realmente amado atrasava sua vida, mas não se dava conta disso. Todas as companhias eram melhores que a sua, as experiências dos outros eram sempre as melhores, mas tentava diminuí-las com o seu competente sarcasmo. Um erro! Julião deixou de viver grandes histórias, de estar com pessoas maravilhosas. Menti na última sentença, ele tinha ao seu redor pessoas inenarráveis, mas não conseguia extrair delas o melhor que podiam ofertar. Está se perguntando por quê? Ele as criticava e não as dava o devido crédito. Por isso, vivia reclamando da vida, dos amores, dos amigos e familiares. Nada lhe era completo e bom. Acredito que tenha sido por isso que adquiriu aquela enxaqueca insuportável e gastrite desconfortante. Suas dores eram exageradas, talvez um reflexo de como via a vida. Uma pena! Não se pode negar que tinha um bom coração, mas não sabia transparecer seus bons sentimentos. Seus amigos sempre mediam as palavras para não magoá-lo. Estavam presos ao incomodo do aborrecimento (in)voluntário de tal cidadão. Evitavam até o elogio, que podia soar falso. Mas ainda assim, Julião os acusava de frieza e falta de sinceridade no relacionamento, apenas ele amava de verdade. Zinho, como o chamavam desde bem jovem (uma forma simplificada de Juliãozinho), não podia ficar sozinho. Não podia nem sequer um minuto refletir em sua vida que caia numa depressão profunda. Todos tinham que estar a sua disposição. Era de um ciúme ridículo. Reconhecia todos os seus defeitos, mas não tentava mudar. Afinal, as pessoas precisavam aceitá-lo como ele era. Egoísmo, talvez tenha pensado, ‘mas prefiro não comentar’, como diria a saudosa Copélia, que viaja eternamente pelo Espaço Sideral. A verdade é que cada um interpreta uma ação a sua maneira. Muitas vezes não vale a pena ficar justificando o que a pessoa não quer entender. Aliás, Zinho precisava aprender isso. Cobrava de forma a sufocar quem estava a sua volta, tinha que ser o número um sempre. Zinho tinha problemas, era visível. Algo que ainda não estava resolvido dentro dele e não sabia lidar com isso, ou como resolver a questão. Era um segredo que todos fingiam não saber. Ficou um velho ranzinza. E só foi entender, saber de verdade, que os que estavam ao seu lado realmente o admiravam, apesar de tudo, quando uma enfermeira desconhecida em seu leito de morte comentou com outra profissional de saúde que o paciente daquele quarto – que era Julião – devia no passado ter sido uma pessoa muito importante e boa, devido a quantidade de visitas que recebeu no hospital, mas aquelas visitas não eram suficientes para Zinho. Aquele comentário pesou, ele instantaneamente pôs o pé na realidade e percebeu que poderia ter sido diferente. Já era tarde. Mas morreu feliz por ver que cativou a muitos, apesar de não ter dado tempo de exteriorizar tal sentimento humildemente.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A lua no cinema

 - Paulo Leminski

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
―Carlos Drummond de Andrade